Hobie cat 14

Clara Schianta
Sep 3, 2018 · 2 min read

As coisas estavam calmas há um tempo e não havia muito com o que se preocupar, mas então uma briga. Na verdade não chegou a ser uma de fato, porque não houve reação da minha parte; no momento em que as mentiras proferidas por ele me atingiam como pedras, me entreguei às maldições ditas, não via motivo pra sequer refutar as barbaridades que ouvia. Ela intercedeu, porque graças ao Senhor do Bonfim não moro sozinha, e ele emudeceu. Não tive outra coisa a fazer a não ser ir embora, não dava pra ficar naquele ambiente, respirando a podridão do sentimento exalado por ele. Bati a porta e sai.

Tive uma noite agradável, graças às companhias que amo e me fazem esquecer aquilo que me aguarda.

Chego em casa tarde e no silêncio noto que estão todos dormindo — me recolho igualmente.

Isto é sobre um sonho.


Estávamos todos lá, na casa de veraneio, numa festa ao fundo do quintal — menos ele que olhava ao longe e sentia o noroeste trazendo uma tempestade cinza e turva. Estava atento, procurando o Hobie Cat na água, ela disse que não demoraria porque o vento era favorável, mas as circunstancias mudaram. Subo no muro entre a praia e a varanda para ver melhor.

A vela amarela e branca surge, oscilando, mostrando o pequeno barco que se aproxima rasgando as ondas, antes calmas, mas agora agitadas e altas a ponto de engolirem a faixa de areia branca e invadirem o jardim — não me recordo de tê-las visto assim antes.

É difícil ela conseguir um lugar calmo para descer e amarrar a embarcação, corro até onde a maré salga o jardim e espero a próxima onda trazê-la. Nesse momento ele se levanta, mas só se limita a olhar.

Não lembro quando havia começado a chover, a cena era tão irregular e aconteceu tão rápido, que não sei dizer bem o que me aconteceu, acredito que tenha sido uma onda monstruosa que tenha me derrubado e deixado aturdida, zonza. Abri os olhos e me levantei me segurando no degrau da casa — ventava muito e era frio de arrancar a pele — analisei o estrago, agora a maré tinha invadido a casa, a água batia nas pilastras, ao menos ela havia descido do barco com segurança e tentava amarrará-lo.

Percebi que ele tinha descido da sua posição inerte de mero observador para poder ajudá-la, mas vendo da minha perspectiva, enquanto ela se esguelava para atracar o barco em uma das pilastras, ele empurrava na direção oposta, dificultando todo o trabalho e tornando aquilo mais angustiante de assistir.

Corri, tomei a corda da mão dela, enlacei a viga, ela segurou a proa* do barco para me ajudar e quando terminamos, o tempo parou, a maré voltou e não havia mais chuva. Ele estava sentado na varanda novamente, nos olhando como se tivéssemos feito um bom trabalho juntos, os três.


Acordei 5:19, sem entender muito bem, precisava colocar isto em figuras para tentar enxergar o que havia sonhado.

*Proa — Parte anterior de um navio, por opos. a popa

    Clara Schianta

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    Piena di meraviglie, paure e un sacco di sogni.