Isso não é para jogar no lixo
Depois de tanto calejar os músculos do rosto, franzir a testa e apertar os olhos, tive de me sacudir para não quedar mais profundo de onde já estou.
Há dias sofro com arrependimentos, palavras ditas pela metade, que se tornaram incompreensíveis e são responsáveis por me causarem um constante aperto no peito . Há dias vivo minha rotina e ando me escorando pelos muros procurando uma sustentação, um pilar ou uma bengala que seja! Ficar de pé tornou-se um desprazer e uma obrigação detestável.
Em meio a uma confraternização, a rostos familiares e amorosos, rapidamente me esqueci de que eles estavam ali e de que eu também estava— fixada numa tela preta, esperando por alguma coisa, por um sinal que nunca viria e que por fim reiniciaria todo aquele lamento e desgosto pessoal.
Foi então que acordei.
Como quem cai da cama no meio da noite depois de um sonho agitado ou um pesadelo tenso, sem entender nada e abrindo os olhos com um susto, simplesmente caí em mim mesma e ao me ver desamorosa, numa queda livre rumo ao infortúnio, parei.
Observei aquilo tudo, como estava, como os outros me viam, como eu me obrigava a ver: quebrada, sem sonhos, sem um pedido de socorro, confortável com minha tristeza e aceitando o sofrimento cada vez mais no meu coração. Aquela não sou eu.
Aquela ali, jogada, suja e chorosa DEFINITIVAMENTE NÃO SOU EU.
Com esse estalo, equilibro os pés no chão e digo: “Cansei de me jogar fora e desperdiçar por aí. Não desisto fácil, não sou de me contentar com o pouco, aquilo não me alimenta, me suga, e aquele a quem não sirvo é de quem mais preciso. Por onde começo?”
Começo por mim. Não se preocupe se eu passar pela porta, vou sair, dar uma volta; só estou a procura de algo que perdi e é muito caro, lhe prometo que retorno só não digo quando e nem como.
O que procuro? O cuidado, a atenção… o amor que tinha por mim mesma — o amor que me permite segurar a mão dos outros e amar de volta sem medo e covardia.
