O PRIMEIRO CADÁVER A GENTE NUNCA ESQUECE.

Cá estou, capuccino fumegando na caneca da Bat Girl que ganhei do meu futuro marido e Psycho na televisão como pano de fundo para o relato que estou prestes a escrever. Nada melhor do que falar sobre a morte com um dos melhores filmes de suspense do mundo, eu digo. Então, vamos lá.
Era a minha segunda semana de trabalho no cemitério. Era tudo novo, excitante e muito, muito louco. Entre atender às famílias derrotadas pela dor da morte de um ente querido, bisbilhotar os cadastros de óbitos para saber qual a causa da morte e espiar por trás dos caixões cada cadáver que pela porta da funerária entrava, eu sonhava com o dia em que eu participaria de algo realmente relevante, porque sinceramente eu já não aguentava mais não poder abrir um cadáver. Oferecer lencinhos de papel para os entes que choravam a perda de alguém ou informar quais os preços das salas de velório e taxa de sepultamento só me deixavam mais ansiosa para fazer o que eu realmente queria fazer: ficar a sós com o cadáver. 
Num desses dias de morte, houve a liberação de um corpo de uma senhora que havia falecido por um acidente vascular cerebral. O local para remoção era um dos maiores hospitais da cidade, e meu supervisor avisou ao agente funerário de plantão sobre a remoção. “Leve a Bianca com você, assim ela já se familiariza com o trabalho que dentro de alguns meses ela vai exercer.” Por um momento meu coração parou e eu não acreditei que estava ouvindo aquilo. Agradeci muito meu supervisor, que juntamente com as minhas colegas, ficaram fazendo gracinhas sobre meu desejo mórbido de estar sempre entre os mortos com piadinhas do tipo “Você realmente é vampira!” “As pessoas tem que tomar cuidado pois você tem sérias tendências psicopatas!” entre outras, que entraram por um ouvido e saíram pelo outro. E quem saiu pela porta da funerária fui eu, indo em busca do meu tesouro perdido, com cheiro característico e com o tempo cronometrado para começar a apodrecer.
Ao chegar no hospital com o meu mentor-agente-funerário, fui direto ao necrotério. “Volta aqui, sua maluca! A gente primeiro tem que passar por uma sala e assinar alguns papeis. Vem aqui!” — me repreendeu Rogério. Eu parecia uma criança louca para entrar num parquinho que ainda não estava aberto, e Rogério parecia meu pai me repreendendo pela ansiedade fora de hora. 
Ao entrarmos na sala de registro de óbitos e remoção, uma senhora gordinha que estava com uns papeis na mão me olhou com uma certa condolência e disse, quase num sussurro: “A senhora veio reconhecer o corpo? Qual é o grau de parentesco com a falecida?” Maldito uniforme que ainda não estava pronto. Com o mesmo sussurro, respondi da forma mais humilde que pude: “Eu não sou da família. Eu sou a auxiliar do agente funerário e vim ajudá-lo a remover o corpo!” “Ah, - disse ela num suspiro de alívio por já não aguentar mais sustentar aquela cara torta de quem se compadece com a morte alheia, quando na verdade está mesmo é pensando no almoço que já deve estar esfriando na copa do hospital - Vamos assinando os papeis para terminarmos logo com isto!” E dito isso, me passou alguns papeis para assinar com o Rogério. Mal sabia ela o quanto EU queria terminar logo com aquilo.
Após um amigo da família, entre lágrimas, reconhecer o corpo e nos olhar com aquela expressão de raiva e medo de ter exatamente em sua frente duas pessoas com coragem o suficiente para cuidar de alguém que já não passava de carne apodrecendo, Rogério e eu colocamos a senhora na urna de remoção e a introduzimos sutilmente dentro do carro funerário, acompanhados de olhares curiosos de pessoas que trabalhavam na limpeza, na reforma ou na administração do hospital. Saímos de lá com os mesmos olhares curiosos e amedrontados nos acompanhando até nos perder de vista.
Chegando à funerária, começamos o trabalho. “Você dá conta de me ajudar a colocar ela na mesa de procedimentos, Bianca?”- o tom de voz de Rogério era quase afável. “Claro que dou!” respondi com a minha melhor voz de mulher-vampira, apesar de ter um certo receio de não conseguir empurrar um corpo rígido que provavelmente já estava na casa dos 100kg para a mesa de procedimentos sem fazer nenhuma besteira. Eu já fazia besteira naturalmente, como por exemplo, auxiliar a colocar o corpo já preparado na urna e sem querer deixar os pezinhos gelados do cadáver encostarem no meu antebraço. 
Com um pouco de dificuldade, consegui ajudar Rogério a colocar a Senhora Maria da Conceição na mesa e manter minha dignidade ainda em alta. Após colocarmos todos os EPI’s necessários, Rogério ligou a mangueira e deu um breve “banho” em Maria, e me deu um objeto parecido com um alicate nas mãos. “Quebre a cartilagem do nariz dela!” — ordenou sem nenhuma preliminar ou carinho. Assim, na lata. Claro que eu entrei em pânico, tendo em vista que tenho uma agonia absurda de qualquer coisa entrando ou saindo do nariz. Num momento de pura inocência (ou burrice, como preferir), eu soltei algo do tipo “Mas vou machucá-la com isto!” A gargalhada que o Rogério deu fez toda a minha dignidade, existente há poucas linhas atrás, ir pelo ralo da mesa juntamente com os fluidos corporais da Senhora Maria. “Mas Bia, ela já está morta!” — disse, se divertindo. “Agora quebre a cartilagem do nariz dela ou vou sair falando para todos que você é fraca e não serve para trabalhar na funerária” — diante dessa ameaça, fiz o que podia fazer. Suspirei e pus mãos à obra.
Quebrar a cartilagem do nariz de qualquer cadáver é algo bem agoniante. O som que se faz de pele se abrindo seguindo do jorro de sangue pelas narinas não é algo nem um pouco agradável de se ver ou se sentir. Mas consegui fazer o procedimento bem feito, e resgatei um pouco da dignidade que ainda me restava. Enquanto o sangue saía pelo nariz, Rogério me deu um bisturi e me pediu para abrir a coxa dela e encontrar sua femoral. Um pouco desajeitada, por ser canhota, dei o meu melhor e com muito custo consegui achar a bendita femoral. “Aqui!” — gritei, com júbilo, por finalmente ter encontrado aquele tesouro envolto a tanta gordura e sangue. Rogério chegou perto e disse “Agora é comigo!” enquanto pegava a mangueira de injetar os líquidos conservantes e a introduzia na femoral de Senhora Maria. “Preste bastante atenção, pois esse trabalho é complicado” alertou Rogério enquanto fazia o procedimento. Eu, é claro, olhava com os olhos brilhando como se estivesse na primeira aula de desenho do Jardim de Infância. 
A maior parte do procedimento foi feita por Rogério, acompanhada pelos meus olhos atentos e cérebro louco para aprender mais. Após finalizarmos o procedimento de conservação, ele me pediu para higienizar Senhora Maria que a colocaríamos na urna e ornamentaríamos com rosas brancas, a pedido da família. Fiz o que ele pediu e, resgatando minha dignidade e autoestima, consegui ajudá-lo a colocar Senhora Maria na urna sem maiores problemas. Mais uma batalha vencida, garota! 
Após finalizarmos o trabalho de ornamentação, Rogério me pediu apenas para passar um batom rosa-bebê na Senhora Maria e fechar a urna para subirmos o corpo para a sala de velório número 3. Não sou boa em maquiagem, até porque não uso muito, mas fiz o meu melhor trabalho como artista e lutei muito para não deixar Senhora Maria com ares de um travesti, pois o único tipo de maquiagem que sei fazer é a extravagante, e acreditem: consigo deixar um batom rosa bebê semelhante ao vermelho-sangue-purpurina-hoje-eu-sou-drag-queen em qualquer pessoa. Sem maiores problemas, finalizamos o corpo da Senhora Maria e eu, ao ajudar o Rogério a levá-la para a sala de velório, imaginei quão breve a vida era. Vivemos em um mundo cheio de competições idiotas e desnecessárias, como: quem é a garota mais bonita do círculo de amigos, quem é a mais gostosa ou qual família é a mais rica do mundo, mas não paramos para pensar que na hora da morte vamos todos precisar de alguém para dar conta de que não vamos feder na hora errada ou não vamos inchar devido aos gases de putrefação. Não paramos para pensar no quão indigno é estar nu e indefeso diante de um profissional que vai, literalmente, te expor da maneira mais mórbida possível, te vestir e te maquiar a seu gosto para levá-lo à sua última despedida, e que depende deste profissional a dignidade do seu último adeus.

Trabalhar num cemitério nunca esteve dentro das minhas prioridades ou sonhos, mas trabalhar com a morte sempre foi um dos meus alvos. Estar agora, neste lugar, convivendo com tanta morte e tanta dor está me ensinando coisas valiosas que, num futuro breve, compartilharei com vocês. Por enquanto fico aqui, relatando as coisas loucas que acontecem naquela funerária, mas que para mim, hoje, já é absolutamente normal. A gente se acostuma a tudo na vida, já dizia o poeta. E essa é uma das verdades mais absolutas que aprendi nesses vinte e quatro invernos que passei na terra. À família da Senhora Maria, meus sinceros sentimentos. Principalmente, minhas sinceras desculpas por tê-la maquiado. Ela naquele momento era uma evangélica um pouco mais purpurinada do que a religião permitia, mas com certeza estava feliz em partir e deixar para trás todos os sofrimentos que a acometeram aqui na terra. E aos futuros cadáveres fica a promessa: vou ser a última pessoa a tocar vocês que vocês mais vão apreciar, seja indo para o céu ou para o inferno. Um beijo e até a próxima.