
Escrevo de hoje, de agora, mas ao longo desse texto o tempo verbal deve oscilar algumas vezes. Você vai entender porquê.
Quem te escreve agora sou eu, a Fernanda de vinte e quatro anos, sete meses e quatorze dias de idade, mas isso também pode oscilar e ao longo dessa carta, você vai rever algumas versões de mim que conheceu e descobrir novas que nem sequer eu mesma conheço…
Tento encontrar as palavras enquanto remexo feridas antigas, faço caminhos longos e curtos de relembranças e digo à mim mesma que vai ficar tudo bem – mesmo que não fique –.
Aprendi a abrir mão do controle, negociar algumas certezas e entender que nem tudo tem explicação. E assim sendo, aceitar o descompasso da vida e seguir inventando letra pra essa canção sem ritmo que são os nossos dias.
O fato é que decidi te escrever para o caso de um dia não poder. Se me faltarem as palavras, se eu pensar e criar, mas não tiver como escrever e acabar esquecendo. Ou se eu não estiver por aqui pra viver e contar tudo isso a você.
Leia com calma. Dê pequenas pausas. Comemore. Chore. Cante comigo. Sorria, vibre por mim. Me repreenda. Grite. Me ame – eu vou precisar –. Beba comigo. Volte. Termine de ler. Sinta as palavras se assentarem na sua cabeça como pequenas memórias e então, releia. Sempre que quiser, sempre que precisar, sempre que achar que deve.
Caso eu não vença o mundo
Quando nos conhecemos, eu tinha 18 e você 27. A diferença de idade nunca foi um problema para nós. Os astros, os karmas, os dramas e os ansiolíticos me levaram até você. A melhor amiga que eu tinha desenhado para mim. A quem eu tanto amei e que tanto demorei a encontrar.
Chamei você para um Sarau. Você nem imaginava o desafio que ir a esse lugar representava pra mim, mas topou. Não fomos. Vai imaginar por quê… Acabamos no bar. Alinhando as experiências, as dores e os medos. E sentindo pela primeira vez na vida o aconchego do afeto genuíno.
Lá, eu não imaginava que começávamos a costurar uma amizade tão bonita, forte e madura ou sequer no tanto de desafios que viveríamos juntas. Certamente, você também não, mas cá estamos.
Aprendemos, dia após dia, a lidar com o medo juntas. Os medos, sempre no plural. “É um mundo muito louco, querida!”, como dizia o velho Buk.
Crises, lágrimas, despedidas, silêncios, sumiços e tragédias, aprendemos juntas a lidar com o fim do mundo que acontecia todos os dias. Nós e os irmãos Lítio, Rivortril, Sertralina e Zopix. Dois, cinco e de repente quinze comprimidos. Pelos dias maus, mas também pelos bons. E nos bons havia o álcool. Algumas doses e lágrimas pra comemorar, chorar e curar. E lá estávamos nós.
Queria te dizer que passou. O pior já foi. Sobreviver não é uma perda, pelo contrário, é bonito demais ter outra chance de escrever um final diferente.
E se não houver mais manhãs pós-apocalípticas, me mantenha viva nessas memórias. Decidi escrever por isso, para que a gente não se perca, caso não tenhamos chance de nos despedir. Para que as histórias que eu queria te contar sejam contadas, por mais que eu não as tenha vivido ainda. Porque você merece ouvi-las. E nós merecemos os finais felizes, mesmo que eles durem apenas uma noite.
Uma casa enorme com quintal telado
“Você conseguiu! Eu sabia que você ia. Sempre soube. Eu sempre pensei em você como uma mulher que ia muito além das métricas. E você foi!
Lembra do seu primeiro apartamento e como a dolorida história dele ofuscava a conquista da sua primeira casa própria?
Estou imensamente feliz em te dizer que você conseguiu reescrever isso. Você se livrou do elefante branco que era aquele apartamento de forma muito inteligente e capitalizou para em menos de dois anos depois, estar na sua casa própria, linda, com três quartos, uma suíte master, um quarto para os gatos e um quarto que você transformou em biblioteca climatizada. As visitas que se aconcheguem no sofá cama. E um quintal lindo! Enorme! Telado para nenhum dos gatos fugirem. E para que eles possam brincar de escalar e se pendurar.
Na primeira noite depois da sua mudança, sentamos no chão da sala ainda sem móveis e bebemos vinho pra comemorar a vida. Eu me orgulho de sempre ter acreditado que você podia mais. Você não cabe nas estatísticas. Obrigada por me ensinar que eu também não. Amo você.”
Nossa primeira viagem internacional juntas
““Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente.”
Fizemos as malas. Me lembro de, enquanto dobrava as roupas, pensar: “quantos sonhos cabem aqui?”. Infinitos. Havia mesmo tanta vida lá fora. Pelos grãos de areia nas praias da nossa Cidade Maravilhosa, como foi bom continuar e viver mais um(s) dia(s)!
Foi assim, costurando e remendando e adiando o inadiável, que chegamos até aqui. Ufa. Todos os caminhos nos trouxeram à Notre Dame e à Quai de Bourbon. Obrigada, Caio Fernando. E Camille Claudel. Te honramos, Camille. E honramos as suas palavras que tão solenemente descreveram a nós e à nossa intangível e indescritível dor, àquela que mesmo sem dimensões, cabia no vão do nosso peito e que era sobre todas as coisas, ao mesmo tempo que era (especificamente) sobre coisa nenhuma. Havia mesmo sempre alguma coisa que faltava. E ainda falta, mas aprendemos que esse é um fardo muito mais leve de se carregar quando não se tenta preencher o espaço de uma fresta com um piano de cauda.
Que sorte a minha ter encontrado uma irmã que não nasceu da minha mãe, num mundo onde a palavra de ordem é pressa. Obrigada por não soltar a outra ponta, sem você eu teria afundado. Amo você.”
Seu Doutorado no exterior, meu ano sabático
“Nossa relação sempre foi feita desses encontros e desencontros, chegadas e partidas. Cá estamos outra vez. Só que dessa vez, felizes.
Não que a gente não se ligue de madrugada pra chorar, não que você não se incomode com o frio e a chuva de Dublin. Mas sempre teremos a cerveja. E as pontes aéreas que são só uma porta para atravessar.
Caminhamos tanto pra chegar até aqui. Mesmo que eu esteja no sol maravilhoso da Indonésia, aprendendo sobre sorrir com a alma e a cura espiritual. E você, na Irlanda escrevendo, palestrando e contando ao mundo dos horrores e as alternativas para acabar com o sofrimento animal. Somos a revolução pela qual esperamos tantos. E lemos tanto.
Seus gatos te esperando em casa, revirando tudo, dando muitos escândalos. Do lado de cá, um Harper Avery que cada vez tem menos medo do mundo. Ele tá aprendendo. Nós também. Que bonito termos nos tornado pessoas que fazem coisas por si mesmas. Me orgulho tanto! Não se esquece: amo você.”
Conheci o amor
“Por todas as vezes em que você me disse que o amor não está nos outros, mesmo não tendo certeza se já o tinha encontrado. E por todas as outras em que acreditei que eu não merecia o amor.
Obrigada por não desistir de tentar. Escrevi num velho diário, há algum tempo, que seria a pessoa que queria ser e estaria pronta para viver o que ainda quero viver quando no meu corpo não tivesse mais um corte aberto sequer. E principalmente: que minha cabeça não mais sentisse vontade de me fazer abri-los.
Escrevi que não teria problema nenhum em explicar minhas cicatrizes para quem quer que fosse, mas num futuro distante onde eu me imaginava feliz, eu com certeza não teria que explicar nenhum corte aberto a ninguém. Ou justifica-los à mim mesma.
Aqui estamos.
O amor é a cura e o perdão que finalmente me sinto pronta para dar a mim mesma. Fico tão feliz de termos aguentado firme para viver isso juntas.
Sem você, eu não conseguiria. Amo você.”
Meu filho
“Lá atrás, há alguns anos, você me perguntou se era isso mesmo que eu queria e que, se fosse, você me apoiaria.
Apoiar é relativo no mundo em que vivemos. Mas não para você. Você gestou comigo e agora, engolindo seus próprios medos, pariu comigo. Cá estamos. Obrigada! Eu não me contenho.
Finalmente. Há alguns anos escrevi sobre uma experiência muito diferente dizendo “se tinha alguma dúvida, agora não tenho mais”. Agora não tenho mais. Mesmo. Nada. Nenhum medo, nenhuma dúvida. A cura e o amor transbordam de mim.
Me sinto realizada para honrar os filhos que perdi e a quem tanto amei – e para sempre vou –. E agora, posso ser a mãe que sempre quis ser. Eu precisava de tempo e de alguma ajuda.
Obrigada por me ensinar e me ajudar a me tornar a mulher que eu precisava ser antes de parir, porque você sabe, mãe eu já era.
E ah! Você vai ser ainda melhor como madrinha e tia do que tem sido como melhor amiga e irmã, se é que é possível. Eu sei disso. Amamos você.”
Nossa jornada virou livro
“A cura é um processo, um caminho e não um estágio. Não existe, para as dores e traumas, a fase da cicatrização. A cura é uma decisão que está nos pequenos detalhes de todos os dias.
Foi narrando esse processo, que começamos a escrever nosso livro. Contamos como foi chegar ao fundo do poço e cavar mais 10 ou 15 metros. E ainda assim, superando quaisquer expectativas e estatísticas, saímos dele.
Foi com muita dor. E revivendo e recontando diversos traumas. Dores que não conhecíamos e lembranças, ah, as mais terríveis lembranças.
Estávamos devastadas, mas não destruídas. Você sabe disso. Escrever e lançar esse livro é dizer às outras pessoas como nós que elas merecem, sobretudo, viver.
Viver para contar. Viver para amar. Viver para descobrirem a sua cura.
E curar não significa, necessariamente, viver sem remédios ou sem acompanhamento psicológico. Não. Mas viver uma vida plena, sem excessos e zelando pelo próprio corpo, que é a sua casa para a única vida que você tem.
Nós merecemos. Todos nós. E nós podemos.
Que sorte a minha ter encontrado você nessa vida. Eu não teria conseguido sem você. Obrigada. Amo você.”
Por todas as lágrimas
Por todas as vezes em que te pus às avessas quando tomei uma porção de remédios e não respondi. Pelas vezes em que você sentia que tinha algo errado, mas eu não disse.
Pelas vezes em que eu me despedi de você achando que era a última vez. Pela semana que eu passei inteira acordada, com medo de você tentar de novo e talvez conseguir. Pelo medo que me ronda quando você desaparece por mais de vinte minutos. E pelas vezes em que eu tive que pensar em como o mundo seria sem você. E não seria. Eu sei que não.
Por todas as vezes que dissemos adeus, mesmo sem dizer. Por todas as vezes que você completava minhas frases e entendia minhas dores sem eu ter que explicar. E por me apoiar quando o mundo é mau e também por me dizer que vale a pena viver mais um dia, porque isso não é tudo.
E não é mesmo. Isso não é tudo, Érica. Nem para mim, nem para você. E lá em cima, nessa carta, eu escrevi para você contando como eu acho que deveria ser caso da próxima vez, eu não sobreviva pra te contar. Mas quando fui escrever o contrário, as palavras sumiram.
Eu não conseguiria. E sinto muito por te fazer imaginar como seria o contrário.
Sem você, eu não teria sobrevivido aos primeiros seis meses depois do que passei. Ou teria parado de contar as datas.
E eu queria que você entendesse a injustiça de fazer o mundo se imaginar sem você. O que seriam das pessoas que não tiveram a chance de te conhecer? O que seriam dos animais que não podem falar por si mesmos? E todos os garçons de bares que nunca viram como você fica brilhante 4 ou 5 doses de cachaça depois? E todos os festivais de música que não puderam contar com a tua presença? E todas as pessoas que nunca puderam rir de você imitando a voz do seu pai? E todas as pessoas que nunca foram abraçadas por você?
Não seria justo.
Não seria justo com você, Érica. Porque a vida é tão mais que umas prestações, lotações e multidões. A vida é tão mais. E você merece tão mais. Tão mais que a dor, tão mais que o desassombro da partida do outro, tão mais que a mortalha do desamor, tão mais do que a saudade do que não foi, tão mais que o medo do escuro, tão mais que a fuga eterna da menina desprotegida que você foi. Você merece a cura. E todo o amor do mundo.
E eu mereço a tua companhia. Eu não aguentaria a saudade, eu não aguentaria ter que sentir raiva de você por mais de meia hora. Eu não aguentaria não te perdoar.
Mantém nosso pacto firme e não me deixa só nessa canoa furada.
Lembra da areia da praia da nossa Cidade Maravilhosa. Tem tanta areia pra sentir nos pés! E a vida continua. Mesmo depois do fim do mundo, você sabe.
