Renan, o anônimo crucificado

O caso é de semana passada, mas como o São Paulo volta a jogar hoje, no Morumbi, ele novamente deverá estar lá.

Renan, o volante, foi afastado do emprego por amar o que faz. Renan é jogador de futebol. Nas vezes em que falei de jornalismo para estudantes, sempre disse que não importa sobre o que você se debruce: é importante ter paixão.

Paixão é ter lado — esquerdo ou direito, corintiano, verde ou tricolor e por aí vai. A paixão, no entanto, é quase anônima quando profissional você se torna.

Minhas escolhas continuam as mesmas, e quem me procurar me verá lutando ou torcendo pelo que acredito. E eu creio que estar em um estádio ou praça despido de obrigações profissionais pressupõe transformar-se em um anônimo.

Eu pago pelo meu direito de ser um anônimo na arquibancada (um exemplo é jamais ter usado minha carteira de cronista esportivo para assistir aos jogos do time que torço). Renan também pagou. Ele poderia ter pedido um lugar no camarote, nas sociais, entre os dirigentes do clube que ajudou a conquistar um Mundial, mas preferiu estar no meio de seus iguais.

Seu pecado é viver em uma época em que não existem mais anônimos. A todo instante, um celular é sacado para que sua intimidade seja exposta. Não importa se o lugar é público; sua vida, sua paixão, ainda não é.

Se fosse julgado pelos lugares em que me infiltro como cidadão, torcedor e amante, certamente não teria mais espaço no quadro de trabalho. Ser julgado por ser quem é — e abrir mão de regalias para ser quem sempre foi — não é sinal de antiprofissionalismo. É sinal de jamais se desconectar das origens que o fizeram chegar até o ponto em que navega agora. Boa sorte, Renan. Espero que à noite esteja de novo na arquibancada, entre os seusiguais. E se algum time não o quiser por expressar quem é, o azar é deles.