BREVES NOTAS SOBRE A ADVOCACIA NÃO ORTODOXA EM “BETTER CALL SAUL”

Advogados, de maneira geral, são alvo de certa desconfiança perante o senso comum. Mais das vezes, a personificação da desonestidade somada a um grande grau de malandragem/malícia são associados à advocacia, seja pela herança dos sofistas, seja pela derrota em determinado processo, seja constante sensação de impunidade de que é alimentada a sociedade (muito pela mídia). No imaginário popular, portanto, a imagem de Saul Goodman — icônico advogado de Heisenberg, em Breaking Bad — materializaria todas essas percepções que, se em eventual caso concreto podem ser verdadeiras, na esmagadora maioria das vezes é falsa. Essa imagem é narrada no original da Netflix que estreiou no dia 16/2.

Better Call Saul, ‘spin off’ de Breaking Bad, traz uma grata ‘prequel’ da festejada trama de Walter White. Situada temporalmente logo após dos acontecimentos de Breaking Bad, Better Call Saul (re)constrói o famigerado advogado e assim como acontece com Walter White, vemo-nos quase (bem quase) inclinados a justificar as ações do controverso advogado.

Na primeira temporada da série, somos apresentados a Jimmy McGill, futuro Saul Goodman, e sua trajetória na busca do sucesso na advocacia. Iniciante, Jimmy atua como advogado dativo, defendendo casos rejeitados e tentando se virar na busca de reconhecimento. Acima de tudo, busca aceitação do irmão Chuck — advogado bem-sucedido que reluta em acreditar nos esforços do caçula — enquanto se utiliza de meios não ortodoxos, por assim dizer, na corrida pelo sucesso. Se por um lado Jimmy apresenta sérios desvios éticos (reflexo de uma vida de trapaças), por outro é um advogado austero: autônomo, seu escritório está localizado nos fundos de um salão de beleza.

Apesar de não ser modelo de idoneidade para ninguém, o protagonista demonstra, quase sempre que exigido, boa índole, sendo evitando execuções, aconselhando clientes, investigando casos ou devolvendo dinheiro desviado. Por outro lado, uma veia estelionatária salta-lhe o pescoço, dando a entender que somente espera o momento certo para o grande golpe.

A semelhança de Breaking Bad, a série com locações no Novo México nos presenteia com uma linda fotografia (que em muito lembra “Paris, Texas” de Win Wenders, 1984). As locações são realistas e o mesmo pode-se dizer das tramas. Better Call Saul nos traz um retrato muito fiel da realização do direito, das dificuldades profissionais e dos conflitos éticos. Nenhuma escolha é simples. Quando a escolha aprece simples, os resultados são assustadores. As personagens parecem pessoas reais e a atmosfera criada nos permite um grau tal de empatia que quase nos sentimos em Albuquerque.

Como advogado, o Jimmy da primeira temporada está muito longe da fama ou sucesso, seja por suas roupas, por seu carro ou por seu escritório. Sua ambição, contudo, é grande. Aos poucos o protagonista é levado a acreditar que o único caminho para o sucesso na profissão está desviado de qualquer rumo ético. Mesmo tendo como exemplo seu irmão, a trama nos mostra que as dificuldades e obstáculos o levam a flertar (e mesmo se relacionar) com atalhos imorais ou ilegais. Todavia, tratando-se de personagem complexo, até o último momento do último episódio, contrariando as evidências, (entenda-se, Breaking Bad e o primeiro episódio da série), somos levados a crer no final feliz. Sem embargo, mesmo quando Jimmy tem a oportunidade de trabalhar em um grande caso, sua índole fica em jogo.

Se compararmos a série com o atual estado d’arte da justiça criminal podemos elaborar alguns questionamentos. Pensando na realidade brasileira, o excessivo número de advogados, apesar do baixo nível de aprovação na prova da Ordem dos Advogados nos leva a questionar a eficácia do exame. Não só isso, as dificuldades inerentes a campos tão competitivos somada ao questionável ensino oferecido em grandes instituições pode favorecer, e talvez favoreça, a utilização de métodos escusos na advocacia. Não só isso, o afastamento do judiciário — e das demais instituições — da realidade que assombra o processo, negando direitos mais comezinhos e autorizando práticas autoritárias, podem fazer com que o advogado, principalmente se jovem e autônomo (como Jimmy) se vejam inclinados à práticas espúrias.

Evidentemente que isso não justifica as ações ilegais, quaisquer que sejam (na realidade ou na ficção), dos advogados. Ocorre que quando os mais intangíveis direitos são flexibilizados — ou mesmo aniquilados — como se deu recentemente com a presunção de inocência, razão de ser e princípio mais comezinho do processo penal, a crença no direito como realizador da justiça se esvai. Se é impossível atingir a justiça pelas vias procedimentais, a inovação artificiosa e antiética parece um caminho. Jimmy está trilhando esse caminho, Saul já está repousando no final dessa trilha.

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