Onde fica Neymar?

Mateus Teofilo
Sep 4, 2018 · 3 min read

Desde a Copa de 2014, realizada no Brasil, o posicionamento de Neymar em campo tem me chamado atenção: em muitas ocasiões, a bola não chega no craque com a frequência que deveria chegar em um jogador que pode desequilibrar a partida a qualquer momento. Acontecia isso pela Seleção (parcialmente resolvido por Tite) e também pelo PSG (aparentemente resolvido por Thomas Tuchel). Mas o que exatamente acontecia?

Gostaria de responder a essa pergunta já explicando o porquê de não ter acontecido no Barcelona. E o motivo é bem simples: os catalães tinham um meio campo extremamente criativo. “Ah, mas no Brasil temos ótimos jogadores e no PSG também”. Primeiro, acho que a meiuca do time francês não tem 1/10 da criatividade que deveria ter para aproveitar ao máximo as estrelas do ataque. Segundo, e mais importante, nos jogos do Brasil a criatividade do time busca sempre as pontas, principalmente a esquerda (lado de Neymar), deixando o meio pouco utilizável. A explicação ainda tá bem vaga, mas tenha paciência que vou chegar lá.

O que estou tentando dizer aqui é que falta um homem para fazer a bola “rodar” com velocidade e, principalmente, qualidade, do meio para os cantos. Pelo Barça, havia ninguém menos que Lionel Messi e, muitas vezes, Iniesta ocupando essa função. Dessa forma, Neymar tinha o costume de receber a bola já dentro da área, por exemplo, ou pelo menos com a marcação já desestruturada por conta do toque de bola rápido daquele meio de campo.

Em 2014 não tínhamos isso, porque Neymar voltava muito para buscar o jogo, ou só recebia isolado na ponta, facilitando a marcação adversária. Pelo PSG, o segundo caso acontecia com mais frequência: tanto ele quanto Mbappé voltavam para buscar jogo ainda no meio campo e, a partir daí, a jogada era resolvida apenas entre os três atacantes (Cavani completa o trio). Contra as equipes que jogam a Ligue One, funciona. Contra as maiores potências do mundo, que se encontram na UCL, “o caldo engrossa”. E aí vem a parte que mais me chama a atenção: como Tite e Tuchel tentaram resolver o problema.

O técnico da seleção brasileira experimentou Coutinho no meio de campo. Com um jogador de bom passe, velocidade, drible e inteligência, a bola pode chegar mais facilmente no ataque. Achei o recuo do camisa 11 genial, porém ainda mal aproveitado, na minha humilde opinião. Isso porque Coutinho ainda concentra as jogadas de forma excessiva na ala esquerda, chegando muito perto de Neymar, o que “engarrafa” o lado, engessando o ataque brasileiro. Além disso, a aproximação faz com que haja um “buraco” no meio, que fez com que Casemiro fosse o responsável por ser o intermediário quando a redonda precisasse ir para o lado direito. Mas não é a do volante fazer isso, então a lentidão reinava nessas horas.

Já o técnico do PSG foi além: sem um jogador como Coutinho, colocou o próprio Ney para fazer o papel de armador. “Mas aí sacrifica o Neymar”, pensei eu ao ver a tática pela primeira vez. Mas, para minha surpresa, o efeito negativo é mínimo. Como de praxe, ele volta para buscar jogo na altura do meio de campo. Mas apenas ele, e pelo meio, não mais pelas pontas. Assim, Mbappé dispara pela direita, enquanto Cavani corre pela esquerda — função que já desempenhou na época de Ibra. Com bom passe, criatividade e muito recurso, Neymar tem a liberdade de acelerar o jogo sempre que preciso, aproveitando principalmente o francês de 19 anos, além de jogadas individuais quando há espaço pelo meio da zaga adversária.

Na teoria, esse tipo de estratégia facilita a vida do PSG contra os outros gigantes europeus, visto que dá mais qualidade ao meio campo francês e eleva o jogo tanto de Neymar quanto de Mbappé ao próximo patamar. Na teoria, o plano de Thomas Tuchel foi genial. Agora é esperar um adversário à altura para ver se na prática as coisas funcionam também.

Mateus Teofilo

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Formado em Comunicação Organizacional (UnB) // Comentarista Esportivo Freelancer // Corneteiro de Plantão