Porque eu parei de ir pra balada pra pegar gente (e porque eu acho que as pessoas continuam fazendo isso)

Demorei mais do que a maioria das pessoas pra passar por experiências que todo mundo que eu conheço já havia passado anos-luz atrás. Dei meu primeiro beijo gay aos 18, tomei meu primeiro gole de álcool dias antes de completar os 19 (um Cosmopolitan, que inclusive, foi uma amiga menor de idade que pagou pra mim) e só fui dormir fora de casa pela primeira vez agora, batendo na porta dos 20.

Confesso até que têm umas experiências que eu provavelmente vou continuar sem ter por um bom tempo— eu não sei andar de bicicleta até hoje. Mas tenho que ressaltar que nada disso rolou tarde por motivações externas (como meus pais me proibindo ou algo assim); elas simplesmente aconteceram num tempo diferente, num momento em que eu considerei que a oportunidade se apresentou pra mim de forma orgânica.

Um bom exemplo disso é a minha primeira vez numa festa de faculdade, aos 19 anos, e no auge do meu terceiro semestre.

Cena do filme Scott Pilgrim, dirigido por Edgar Wright, que ilustra a minha vida

Troquei de curso de graduação esse ano, e comecei a estudar à noite. Foi o que motivou a minha ida à um happy hour (como costumamos chamar essas festinhas da UnB). Não demorou pra eu perceber como funciona a dinâmica desse tipo de rolê: meus amigos e eu compramos bebida e formamos uma rodinha semicircular de pessoas que ficam dançando e observando as boquinhas em volta — tudo isso enquanto desfrutamos de uma sobriedade que vai sendo perdida progressivamente a cada golezinho esporádico em nossos respectivos copos.

Estando num grupo de amigos onde a maioria era solteira, é quase óbvio que o principal objetivo nesses rolês é, segundo eles mesmos: “dar uns beijo na boca”. Por esse motivo, ir pra um HH e não pegar ninguém (ou pegar pouca gente) é sinônimo de fracasso — pude perceber isso no tom imprimido nos discursos deles nos nossos percursos de volta pra casa; a pessoa do grupinho que pegava um monte era glorificada, e quem não pegava ninguém era motivo de chacota.

Eu acho que nem preciso falar que eu sempre fui considerado o fracassado no final dessas festas.

Mas isso porque a barreira pra mim era um pouco maior: primeiro porque eu não me acho muito bonito; segundo que eu tenho uma dificuldade enorme de puxar assunto com gente desconhecida; e terceiro porque eu tenho a carinha mais blasé de todas, graças ao nível desmedido de Áries que coexiste no meu mapa astral.

Resumindo: eu logo percebi que meu lugar nas festinhas é ficar num canto, tomando uma malzbier ou uma caipiroska de kiwi enquanto compartilho meme no Facebook pelo celular. Se a playlist da festa for boa o suficiente, talvez eu saía desse estado pra cantar um refrão ou rebolar o quadril sem me permitir sair do lugar. Mas, nós sabemos, (quase) ninguém tem paciência pra puxar assunto com esse tipo de gente em festa.

Até que chegou um rolê que meu celular descarregou, a playlist tava pra lá de razoável e o tédio que eu tava sentindo só servia pra evidenciar a única coisa que me restava: beijar boquinhas. Nesse dia, por acaso, eu estava me sentindo especialmente bonito — uma parada muito rara pra alguém que sofre com sérios problemas de autoestima, como eu.

Eu não sei até hoje com quantas pessoas eu fiquei nesse rolê. Acho que umas 20? Talvez mais. Eu realmente não sei. Parei de contar na décima quarta pessoa, e nessa altura do rolê, a noite ainda tava na metade.

Cena do filme Suicide Room, filme polonês de drama dirigido por Jan Komasa

E não sei se foi porque eu criei grandes expectativas a respeito ou se o nível de álcool no meu sangue não estava alto o bastante, mas cada beijo que eu dei nesse rolê conseguiu ser pior que o outro. Num aspecto técnico mesmo. A galera, além de afobada, lambia a minha cara, faltava rancar sangue da minha boca e fazia aquele movimento rotatório com a língua como se tivesse tentando imitar as hélices do Titanic acelerando pra longe do iceberg (?).

Eu comecei a achar que, num beijo de festa/balada, você não beija só pra si mesmo; o beijo tem que ser agradável visualmente pra galera que tá assistindo e gritando, e toda essa preocupação com o caráter estético do beijo era palpável e tornava tudo mecânico e repetitivo pra mim. Tinha uns beijos (diga-se de passagem, quase todos) que, eu juro pra vocês, tudo que passava na minha cabeça durante o ato era: “EU QUERO MORRER CARBONIZADO AGORA”.

“Uai, e por que você continuou beijando várias boquinhas nessa festa se não tava curtindo?”

Você deve estar se perguntando isso agora. Simples. Eu sempre tinha a esperança de que o beijo seguinte ia “encaixar” e que eu ia curtir. Mas parece que os beijos de festa/balada são quase todos iguais: vorazes, afobados, rápidos, com essa “linguinha giratória” escrota e aquele tom mecânico que eu odeio. Os beijos são TÃO parecidos entre si que, num futuro próximo, poderiam ser vendidos enlatados.

Depois desses eventos, confesso que aquela parte do meu cérebro responsável por problematizar entrou em colapso. Comecei a problematizar as motivações das pessoas de ir pra festinhas pra pegar o máximo de pessoas possíveis (isso é assunto pra outro texto) e depois comecei a pirar achando que eu era assexual por ter ficado com um monte de meninas/meninos naquela noite e não ter sentido o mínimo tesão com nenhum deles.

Foi aí que, nessa problematização toda, eu esbarrei com uma informação bastante aleatória: o tecido e as terminações nervosas dos nossos lábios são muito parecidas com as dos nossos mamilos. Fazendo uma analogia rápida entre beijo e acariciar um mamilo: existem pessoas que (1) gostam de ter os mamilos friccionados intensa e repetidamente, (2) aqueles que preferem uma carícia mais lenta, com aquela linguinha molhada deslizando devagarinho hnnnn e (3) aqueles que acham carícia no mamilo a coisa mais “pombo” de todas (e isso sem contar todas as outras infinitas possibilidades além dessas três, ok).

A partir da eclosão desse pensamento, pra mim, sair beijando pessoas randômicas numa festa passou a ser o mesmo que andar por aí com o mamilo exposto, na esperança de que alguém desconhecido que você só trocou uns olhares saiba como você gosta de ser acariciado.

Não bastava pra mim que uma noite na balada terminasse em “números”; importava muito mais se eu conseguiria encontrar alguém cujo beijo encaixasse com o meu. E, pelo menos pra mim, contar com essa sorte foi se tornando um aborrecimento numa cidade como Brasília, onde quase todo mundo se conhece, se beija e, por consequência, dissemina esse estilo de beijo padrão-enlatado.

Em um desses papos café-filosófico-da-madrugada com o cara que eu estou saindo atualmente, fui expor essa minha indignação com esses beijos-padrão e fiz essa analogia com os mamilos. Ele argumentou da seguinte forma:

“[pensando dentro desse contexto], eu sempre fui a pessoa que estava com o mamilo exposto e, quem estimulasse melhor, que eu dava mais ou menos chance (…) mas eu sempre achei todo beijo uma experiência nova; um beijo bom ou ruim não deixou de ser uma experiência”.

Como eu acho os beijos de balada muito parecidos entre si e, consequentemente, experiências muito parecidas, não compartilho da mesma linha de pensamento que ele — embora tenha achado a colocação brilhante. Mas essa citação dele resume bem porque eu acredito que as pessoas continuam se submetendo à esse ritual de sair pra balada/festa pra ficar com pessoas randômicas: há uma demanda das pessoas por experiências novas — que inclusive, é extremamente saudável e eu não julgo.

Infelizmente, eu vou parando por aqui porque me sinto incapaz de aprofundar nesse outro aspecto do assunto. Confesso que ficaria feliz se alguém escrevesse um artigo nesse sentido para fazê-lo. Quem sabe você? A menos que você tenha se identificado com essas divagações que fiz (o que eu acho muito improvável). Nesse caso, sinta-se abraçado e bem-vindo ao clube: você não está sozinho.