Coroa de rosas

Mateus Couto
Feb 23, 2017 · 5 min read

Inspirado na música Geranio, na voz de Marisa Monte

Faz de tudo um pouco dentro de casa, cozinha, lava, gira a saia,
se esforça para ter comida quente, atende o telefone
e diz estou com saudade de quem vem de distâncias maiores
Enxágua os lençóis e põe em dia a vida doméstica,
tira as cutículas no salão perto de casa,
vira os olhos pra ver quem toca o interfone,
faz sobremesa e conta todos os seus segredos,
convida vizinho, primo e até a moça da farmácia para o sofá da sala,
conta seus passos na escada, arruma a casa com talento
e se deita como uma boneca de pano
É ligada à tecnologia dos eletrodomésticos,
gosta de barulho em casa,
ouve latidos e se comunica com astronautas e rádios
põe a mão com todo o cuidado na horta
mistura sementes para provar sabores
tem pé de ata, acerola, limão e mamão
anda por hortaliças e hortelãs
investe no que vem de dentro da terra,
o que vem de fora não se interessa,
também tem folhas, caules e raízes do possível
tem muito apego e desejo no seu quintal
sabe falar de unhas e cabelos,
mas também de perfumes e ciência das flores,
já fez de tudo, hoje descansa na rede, tira soneca da tarde
depois de lavar suas mãos com a tinta da manga…
Tem muitos controles para apenas duas mãos e dez dedos
divide até a hora de assistir televisão,
abracadabra e os problemas fogem
resiste bem aos seus critérios
tem crédito e faz tudo por grande mérito
logo de tarde veste um jeans, ajeita a camisa para dentro da calça,
aperta os cintos na sua cintura
marca compromissos e dentista,
coloca seus sapatos suspensos na cadeira da sala de espera,
agenda médico, exames e segue as recomendações do seu cardiologista,
sabe falar mais de uma língua,
é mãe, avó, apaixonada, filha e mulher,
sabe cantar do jeito mais bonito,
tem conhecimento de como encapar o álbum da vida,
ensina como funciona o tempo nas páginas maiores,
aponta para retratos, explica os seus buquês,
relembra como quem vive outra vez,
guarda sempre um abraço apertado,
deixa um sorriso escapar do canto de sua boca,
fala do tempo como o melhor freguês,
costura história, faz drama, prenda, verso e cantiga
e pouco caso com coisas feitas de plástico,
converte moedas em cravo e canela,
e tira das mãos o seu coração,
conversa com os seus pensamentos,
faz checklist do supermercado,
começa as compras pela parte das frutas,
entende sedes, latim e passa o tempo
com viveiros e a calmaria do bambu,
busca a mangueira no final da tarde,
dá água no lábio de todas as flores,
deixa a grama sempre mais verde,
olha pro céu e vê seus tempos de criança,
se esconde pelas palmeiras,
aceita as condições e usa condicionador,
fala da vida com narrativa em primeira pessoa,
poupa a velocidade do mundo,
depois bate tudo no liquidificador
e faz uma bebida caseira
pede força em orações,
faz de conta que adormece,
mas enxerga os milagres em volta da cama
põe duas colheres rasas de açúcar
um pouco de suas palavras quando vai passar o café,
acerta o ponto e canta vitória,
escolhe a dedo a cor de seus pães,
fala baixinho, em nome do pai, esfarela o pão, tira um pedaço
e mastiga o silêncio com a porventura do amanhã,
fecha e abre os olhos outra vez,
coloca a coroa em sua cabeceira,
alivia as cicatrizes com methiolate,
tira os óculos e mostra a cor do seu beiço rosado,
passa um pouco de talco no rosto,
penteia a direção dos cabelos,
abre a boca para bocejar e fecha os cílios,
o amor descansa no consciente,
tem consciência dos personagens do seu cotidiano,
o edredom cobre passa em volta dos tornozelos até chegar no pescoço,
sua lucidez escorrega pelo sono,
abre e fecha a gaveta dos seus sentimentos,
liga o ventilador e vai até longe
para encontrar o carinho de sua família no interior
e dos que viajam pelo universo,
faz uma despedida todos os dias,
nos finais de semana vai a igreja, dobra os joelhos
acompanha a missa e vê a fé flutuar na janela dos olhos
assiste o vento levar, o susto passar e
belisca a pipoca com sussurros
dá um clique para abrir o portão
entra de ré e põe o carro na garagem
nunca atropela nem os pormenores
coloca óculos escuro para pegar uma cor lá do céu
sobe o terraço quando quer ter bela vista
Não toca instrumentos de corda
entrega todas as cordas pro relógio
não dá nós nem em cabos especiais,
acerta peso em gramas, tudo sobre as mesmas medidas…
assopra velas no escuro, tira do filtro água morna,
lustra suas louças e memórias de outras cozinhas,
brinca de fazer comida, coloca um pano no ombro
e celebra o dom de ser protetora
vive com sensações diferentes,
sabe se entregar intensamente,
disca o número de quem ama,
queria poder estar perto de você….
dá risadas quando está na frente de uma câmera,
se importa mais com a fumaça saindo de um fogão a um sinal de WiFi,
põe os dedos no teclado com paciência,
pensa antes de responder,
analisa com o toque de uma aprendiz,
pressiona enter, declara, chama
e coloca os pratos na mesa,
carrega o mundo nos ombros, mexe a cabeça
para não esconder a paisagem
que vem atrás do rosto dela
Não é virtual mas sabe sobre conexões,
sacode as almofadas,
abre as mãos sem olhar pra trás,
já fez estátua de cera, bolo de cenoura e porta caneta,
cria laços afetivos quando enlaça um presente,
embrulha com sinal de gratidão
não tem computador em casa,
mas sabe navegar com profundidade,
a noite dá carona para ela pular amarelinha no Brejo,
já foi à Roma, Paris e Milão,
mas não troca as delícias de sua cidade no interior
dança a dança dos bambolês
dá cambalhotas em suas histórias e arrisca voar,
escreve com giz de cera na parede do quarto,
faz matemática com colheres,
bate tudo com polpa,
faz força para abrir maionese e molho de tomate,
sabe como girar a tampa dos seus remédios
é transparente quando caminha,
respeita a faixa e puxa assunto com a vida,
posta promessas no correio, recebe preces do carteiro,
ela quem dá nome aos fulanos,
organiza os vegetais da geladeira,
tira tomate, alface, cebola, salsinha, despeja vinagre, usa o polegar para jogar livremente o sal e finaliza com algumas gotas de azeite,
troca o pirex e apresenta sua salada
leva uma rotina nos seus dedos,
tem sempre uma tosse na garganta,
masca chiclete e conta anéis em sua penteadeira,
torce o nariz pra não perder o cheiro,
mas sempre planta lavanda na sua pele,
toma banho com as algas,
segura o terço com seus mistérios,
faz pedidos para os quadros,
carrega bolsa nos braços e se lembra do essencial
revela colocações em seus arranjos de flores
arranja vírgulas quando quer fazer sugestões
usa pijama para incentivar tradições
segura a xícara e certos tipos de massa com duas mãos,
abre uma pausa no fim da tarde
para tomar capuccino com pão de queijo,
chama as amigas para contornar o tédio,
Conceição fala de casa, Célia de casamento,
Helê do trabalho e Marilúcia da filha
que tirou férias e teve grandes momentos
No final lê as cartas na mesa
Fala de preço, apreço e outros tantos endereços
joga xadrez com as toalhas de mesa
entende os pesares da máquina de lavar
coa o amanhã com planejamento
olha pra lua e vê seu reflexo,
faz um desejo, envia, solta os balões e toca ave maria
abre a porta de casa para visitas, parentes, pássaros, cães
gosta de diálogos sem fio e sem fim
mostra o seu jardim para as borboletas
prepara um suco diferente diariamente

Escrito por Mateus Couto

Mateus Couto

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