31/08/2018
Nunca achei que fosse acontecer nada demais simplesmente por usar o Tinder, eu usava pra suprir minha necessidade de julgar os outros sem sair de casa, porque não tenho vida social quando estou em aulas no sul do sul do braza. E tenho um medo imbecil de ser julgado, uma fobia, sempre acho que todos estão me julgando 100% do tempo, será que é um reflexo dessa característica minha de ser algo que julga todo o tempo? Mas eu não levo para o pessoal, acabo esquecendo tudo sempre, porém tenho um receio de ser odiado para sempre. Fora isso, bem raramente eu encontrava pessoas que julgava legais pra conversar. Numa dessas, minha vida virou de ponta cabeça.
Esse ano eu tentei abraçar o mundo com minhas próprias mãos. Além do meu curso de graduação, tenho uma bolsa em um projeto de ensino na universidade, sou voluntário em um de pesquisa e um de extensão, sou editor de um canal do youtube gringo e titular em um time amador de Counter-Strike. Eu realmente não tinha tempo nem interesse de me envolver com ninguém, não tinha tempo nem pra mim, como poderia ter para outra pessoa? Vendo agora, parece que foi uma burrice do caralho. Mas eu seria babaca se recusasse, fora o tanto de coisa que aprendi sobre eu mesmo passando por essa experiência.
Era final de maio, um mês que acho um porre, tipo um agosto, mas antes. Mais ou menos dia 22 de maio, por aí. Fazendo meus julgamentos pelo Tinder aparece uma menina diferente, bonita e aparentemente engraçada pela sua bio do perfil. Imaginei que seria legal se déssemos match, então dei like e foi match instantâneo, o que significa que ela já tinha dado like em mim. Fiz algo diferente, chamei ela. Eu nunca chamo as meninas que dão match em mim porque não uso o app pra isso, mas essa eu decidi chamar. No começo foi estranho pra mim, eu nunca fui de conversar com meninas, mas eu botei na cabeça que deveria ser eu mesmo, então conversava com ela como se ela fosse de algum grupo de amigos meu. E mandei muito bem, a química foi ótima, era tudo recíproco, parecia que a porra do John Green tava escrevendo a história. Quando vi, já estávamos quase íntimos, conversando o tempo todo, mandando bom dia, boa noite, perguntando como foi o dia e essas coisas de relacionamento. Ela era engraçada, falava coisa aleatória toda hora, no primeiro dia de conversa pegou uma foto minha que eu tava segurando uma flor e me zuou de forma doentia, era algo diferente mesmo. Sempre era ela que me chamava primeiro, ela tomava todas as iniciativas, mandava cantadinhas ruins mas engraçadinhas, essas coisas. Eu sabia que tava começando a gostar de alguém de novo, já faziam uns dois anos que isso não acontecia, então fui me permitindo, mas com muita intuição sempre. Ela era gamer, também meio antissocial, escrevia textos sobre seus sentimentos e sabia enxergar humor nas coisas. Eu me identifiquei muito, não tenho como me culpar nisso. Essa história tem muito detalhe que mudaria a escrita desse texto, mas faz um tempo que essas coisas aconteceram, e pra eu não me matar é claro que meu cérebro se forçou a esquecer de algumas, mas vou tentar aprofundar meu universo ao máximo.
Conversamos muito, durante uma semana mais ou menos. Mandávamos memes um pro outro, todo dia. Ela disse que queria me ver pessoalmente, aí já tremi na base. Demonstrou que tava gostando mesmo de mim. Eu nunca tinha feito um “encontro” com uma menina antes. Entrei em pânico só de pensar que eu não conseguiria ser eu mesmo, o eu da internet, na vida real, achando que não conseguiria lidar com a situação e deixar aqueles silêncios constrangedores que acontecem com quem tem probleminhas sociais. Mas é claro que eu aceitei ir. Expliquei pra ela que nunca tinha passado por isso e que tava muito nervoso, ela falou que tava tudo bem e que ia me ajudar. Eu tava entrando em colapso por dentro, não conseguia segurar a ansiedade do jeito que sempre segurei, nunca tinha tido essas crises de emoções. Será que não sei lidar com relacionamentos ou ela que fudeu tanto minha cabeça que eu não conseguia mais me controlar? Nunca saberemos até eu tentar de novo, mas não vou tão cedo, preciso voltar à minha essência. Como essa cidade só chove o dia inteiro, marcamos de ir domingo, um dia que não tava prevista a chuva. Só pra contextualizar, o braza passava por uma greve fudida dos caminhoneiros. Aqui no sul gasolina já não existia mais, eu já tava me preparando para o apocalipse. Todos os ônibus foram cancelados e as linhas de semana diminuídas, domingo acabou ficando sem nenhum ônibus. E eu não ando a pé nessa cidade nunca mais, em alguns textos anteriores contei como foi traumático ser assaltado pela primeira vez na vida, sempre morei no interior paulista, me sentia muito seguro, nunca achei que ia acontecer nada, enfim, eu tenho pânico de sair a pé aqui, tenho ódio de bandido e não posso reagir porque os caras sempre saem em grupos pra assaltar. Não sei como explicar esse sentimento, enfim.
Decidi ir de uber e ela foi a pé, combinamos de dar um rolêzinho na praça principal da cidade. Combinamos de nos encontrarmos no chafariz, bem no meio da praça, e como sempre eu cheguei antes. Lembro da minha roupa: calça preta, um vans pirata e jaco adidas 2011, daqueles que os russos usam em clipe de rap. Fiquei usando meu celular de forma a acalmar os ânimos um pouco, eu tava muito nervoso, lembro que cheguei no grupo dos meus amigos da internet e falei “ME MANDEM MENSAGENS DE APOIO”, que desespero. Só me mandaram tomar no cu. Ela chegou por trás de mim, não sei como tinha certeza que era eu de costas, mas nos abraçamos e ficamos andando pela praça, demos várias voltas. Passamos por um passarinho morto no chão, em decomposição já. Aí continuamos andando, ela foi pegando umas tampinhas de embalagens no chão que haviam sido jogadas fora, e eu pensei “que que essa mina ta pegando lixo na mão?”, aí completamos a volta, chegamos no passarinho e ela começou a ENTERRAR o bicho. Isso no primeiro encontro nosso. Aí eu ajudei ela a enterrar e enterramos ele. Eu vi o meu humor em uma menina, realmente nunca tinha visto isso em nenhuma outra. Depois de termos dado, sei lá, umas 7 voltas, decidimos sentar em um banco. Ficamos olhando as pessoas passando, andando com seus cachorros. Aí eu vi que o braço esquerdo dela tinha umas cicatrizes, uns riscos brancos. Muitos, pelo braço inteiro, mas parecia que faziam tempo que haviam cicatrizado. Perguntei pra ela o que era e ela disse que se cortava quando tinha uns 13 anos. Deixei de lado, achei que ia cortar o clima, não queria chatear ela. Continuamos falando muita bosta, ficamos no total 3 horas falando aleatoriedades, a química tinha rolado mesmo. Eu consegui ser interessante o suficiente pra deixar a conversa fluir e ela era aleatória o suficiente pra não ficar silêncio constrangedor. Anoiteceu, demos um abraço e nos despedimos.
Cheguei em casa, perguntei se ela chegou bem, porque o bairro dela é pesado e a cidade em geral tá uma bosta. Ela falou que sim, perguntei se ela se decepcionou muito, ela falou que não, que me achou bonito, e perguntou se ela era muito feia, eu falei que era mais bonita na vida real. E então ela começou a contar das cicatrizes. Falou que tem depressão desde uns 12 anos, se cortava nessa época, ano passado começou a namorar pela primeira vez, e por ela não ter amigos e a relação com a família ser uma merda mais a depressão ela fez dele como pilar pra ela. Ele não quis isso e abandonou ela. Falou que sofreu muito, era tratada como lixo. Me contou tudo mais ou menos e que tinha medo de amar novamente, porque foi traumatizada e tinha medo de se machucar assim de novo, que ela era uma pessoa difícil de gostar de alguém e gostou de mim. Eu falei pra ela me contar tudo sempre que precisasse, ela falou que não queria me envolver nos problemas dela porque não queria me perder, eu prometi pra ela que nunca iria a abandonar e botei uma coisa na minha cabeça, que ia fazer de tudo pra ela sair dessa e ajudar como desse na depressão. Escrevi um fragmento de texto nessa época, não consegui terminar porque minha cabeça tava uma merda:
Maios sempre foram complicados pra mim. Os meses, não os trajes de banhos. Principalmente os finais. É uma ironia, pois meus melhores amigos fazem aniversários bem nessa época. Parei pra ler meus textos e percebi que em 2016, eu estava sofrendo por não fazer nada e por ter decepcionado alguém. Em 2017, fui assaltado, mas consegui uma bolsa. E em 2018 vou contar agora.
Muitas coisas aconteceram, mas não quero escrever sobre, porque não estou me sentindo necessariamente mal em relação à essas coisas. Mas ficamos com palavras-chave: novo colega de apartamento, nova bolsa, freela, greve dos caminhoneiros, xerife no CS, Avicii morto. Fim da relevância.
Eu sou um cara que NUNCA namorou de verdade. Sim, uma vez virtualmente, durou seus quase quatro anos, mas nunca foi considerado de verdade. Sempre tive amigos como prioridade, com a bandeira do humor e piadas sobre ser sozinho nos vários espectros da virgindade. Como resultado, um coração forte, frio, de pedra, difícil de amolecer e sem perspectiva de mudança a longo prazo, muito menos repentina. Eu achava que ia entrar na faculdade sozinho e sair desacompanhado, e tenho várias piadas sobre isso.
Eu não sei quem lê isso. Não sei quem tem acesso. Não sei nem se alguém lê, mas espero que não caia nas mãos de conhecidos. É um relato do meu pensamento falando comigo mesmo com a intenção de clarear a escuridão que o indivíduo aqui passa. Uma tentativa de achar o X.
Eu nunca namorei, não sei o que é isso, nunca amei uma pessoa. Isso tá mudando agora. Em menos de uma semana, meu mundo virou de cabeça pra baixo. Estou amando e não sei como proceder, pois minha casca de autodefesa continua, e essas coisas não saem na hora. Meu coração não está entendendo nada e sofre, acha que vai morrer. É claro, nunca chegou perto dessa intensidade. Minha mente já é mais cuidadosa, pensa no futuro e em todas as chances de dar erros, como toda doente de ansiedade. E nesse momento, uma reação, após duas horas e meia sem sinal. Meus amigos já descobriram uma parte, stalkers exemplos de pessoas problemáticas. Mas não fico chateado, foi na medida certa e ainda consegui fazer piada pra contornar. Os dois são complicados, embora ela tenha suas singularidades. Mas decidi que meu papel é ajudar na superação disso, e nunca piorar as coisas.
Deu pra perceber o quão envolvido eu tava na parada. Fora isso, ela me contou que fazia tratamento numa coisa que chama Centro de Atenção Psicossocial aqui na cidade, onde eles só pegam os casos mais graves, e que tomava dois antidepressivos por dia, um de dia e um de noite. Me contou também que seus pais eram separados, sua família humilde e que morava com a avó. Passou mais um tempo, marcamos um segundo encontro, na mesma praça, tava um frio da porra, e ela mal agasalhada, eu ofereci minha blusa ela não deixou, aí ela ficou tentando pegar na minha mão pra se aquecer, eu pegava na dela e ela soltava, eu não tava entendendo nada. Aí fomos indo assim até que anoiteceu e fomos embora, cheguei em casa e perguntei o porquê daquilo, ela falou que não sabia se eu tava confortável com aquilo, aí falei que era de boa e que tava confortável com aquilo.
Não lembro de mais detalhes depois disso. Lembro que conversando pelo Facebook teve uma vez que não perguntei como ela estava e ela surtou, tentei explicar que eu perguntava sempre e achei que tava sendo chato, mas não adiantou, ela ficou brava por uns dois dias, depois tudo voltou ao normal. Enfim, ela já tava virando prioridade na minha vida, eu queria salvar ela da depressão, fazer algo bom pra alguém pelo menos uma vez na vida. Aos poucos fui abrindo mão das coisas, cada vez eu tinha menos tempo e ela precisava de mim, fui dormindo menos, jogando menos CS, e levando a faculdade do jeito que dava, mas como sempre foi um curso fácil o desafio não era tão grande. Marcamos outro “encontro”, combinamos de andar pelas lojinhas do calçadão, e ficamos o tempo todo de mãos dadas. Eu me senti no céu, nunca tinha feito isso com outra menina, estava sentindo ser amado. Fomos andando pelas lojinhas, ela comprou um par de chaveiros, tinha uma bruxinha e um bruxinho, andamos por outras lojas, até que anoiteceu e decidimos ir embora. Ela colocou o bruxinho no meu chaveiro e a bruxinha no dela, ela era meio “gótica”, eu também sempre fui meio “humor dark” então achei legal. Fomos pro ponto de ônibus, onde passava o meu ônibus e o dela também. No que chegamos no ponto, o ônibus dela chegou em 1 minuto, não deu tempo de fazer nada enquanto esperávamos, na despedida ela tentou me beijar mas no final beijou minha bochecha, e eu também beijei a dela. A coisa tava evoluindo aos poucos, antes não andávamos de mão dadas, pra andar de mãos dadas, e em seguida beijo na bochecha. Foi a última vez que nos vimos, nosso último contato foi um beijo na bochecha. Eu já sabia que tínhamos tudo pra dar errado, ela com depressão não conseguia estudar nem trabalhar e eu nunca namorei de verdade, trabalho estudo e não tenho muito tempo, fora o fato que volto pra casa todas as férias e tô quase formando, mas mesmo assim aquilo tava na minha mente, eu queria ajudar ela a superar a depressão. Todo dia ela chegava em mim no Facebook e falava que queria morrer. Eu não aguentava isso, imagina uma pessoa que você ama chegar nesse nível? Eu fazia de tudo pra ela, fazia o que desse pra ajudar. Joguei um MMORPG com ela pra fazer companhia, criamos a conta juntos e íamos jogando, mas na verdade eu nem tinha tempo pra começar a jogar um RPG, mal tinha tempo de jogar CS. Sacrifiquei minhas horas de sono pra isso porque um dia que estávamos jogando ela me agradeceu e falou que eu fazia os dias delas melhores. O tempo foi passando e cada vez menos ela me chamava pra jogar, antes me mandava emoji de coração, mensagens bonitinhas, e foi parando de fazer isso com o tempo. Mas continuei fazendo o possível, sempre falando com ela quando dava.
Começou uma época de chuva na cidade e a gente não conseguia marcar de se encontrar, passaram umas duas semanas assim, até que apareceu um workshop de criatividade que ela queria ir e perguntou se eu podia ir com ela porque ela não queria ir sozinha. E é claro que eu falei que iria por ela, ainda lembro da data, seria numa terça-feira à noite e ia até tarde. Essa conversa aconteceu numa sexta-feira. Ela tinha me falado que ia com o pai dela e pensei em ir de uber, porque aqui de noite é muito perigoso, eu tô traumatizado de assalto aqui como já disse anteriormente, é longe pra caralho e também eu tenho ansiedade, só de sair de casa me dá uma dor no peito, uma imensidão de pensamentos ruins que não consigo controlar. Passou o fim de semana, segunda-feira, um dia antes do workshop ela me chamou falando pra gente ir de ônibus. Eu falei não dava pra eu ir de ônibus porque com certeza seria assaltado, eu precisava levar o celular pra atender minha mãe e responder os e-mails da empresa, e não posso perder esse, acabei de comprar essa porra. Aí falei que eu tinha planejado ir de Uber e perguntei se ela queria ir comigo, porque a casa dela é caminho pra lá e que eu iria pagar e tal. Ela só visualizou e não respondeu, eu perguntei de novo se podia ser daquele jeito e ela só falou um “tá” e saiu. Não falou boa noite nem nada, fui dormir, passei o dia inteiro na aula e no trabalho e ela não aparecia online nunca. Uma hora antes da workshop eu chamei ela e perguntei “nós vamos lá mesmo?” e ela respondeu assim:
Eu vou. Você tanto faz. :)
Exatamente assim. Eu não entendi porra nenhuma, fiquei em choque tentando ver o que eu tinha feito de errado, li e reli nossas conversas pra ver se eu não tinha feito nada de errado mas não. Me senti um lixo, vi que não tinha razão pra eu ir lá mais e decidi ficar em casa. Aí eu perguntei o que tinha acontecido pra ela me tratar daquele jeito, pra me avisar quando eu fizesse algo que ela não gostasse, mas só visualizou e foi pra parada. Ela chegou lá e me mandou “droga cheguei atrasada”, mas eu tinha visto que ainda faltava um tempo pra começar e falei pra ela. Ela perguntou “você veio?” e eu respondi que só ia por causa dela, mas ela só visualizou quando chegou em casa, depois da parada terminar. E nunca mais falou mais nada, eu me senti descartado, não tinha mais motivo nem autoestima pra chamar ela pra conversar sério sobre, mesmo porque ela não gostava de conversar sério. Sempre que eu tentava conversar sério sobre alguma coisa ela falava alguma aleatoriedade e começava a zuar, sei lá, imaturidade talvez. Eu realmente não via razão em chamar ela mais, fiquei me sentindo jogado no lixo e também eu tava muito emocionado, fiquei com medo de falar algo demais, não queria machucar ela, não queria incomodar. Nunca falei sobre isso pra ninguém, guardei esse segredo até dos meus mais próximos amigos, um desconhecido que é famoso na internet me deu um conselho pra dar um tempo pra ela, e que se ela realmente gostasse de mim, iria me chamar pedindo desculpa. E era isso que eu já tinha em mente pra fazer, então foi isso mesmo. O tempo foi passando, eu tava de boa sobre ela já, eu tinha certeza que ela poderia achar alguém melhor que eu e tal, o que importava pra mim era que ela ficasse bem, eu tenho estabilidade emocional e fui solteiro a vida inteira, enxerguei pontos bons em desencanar dela e pontos bons em continuar com ela, mas não sabia o que ela queria. Passaram duas semanas do ocorrido, eu ia chamar ela pra perguntar o que tinha acontecido e ver o que ela realmente queria, terminar ou continuar, mas ela odiava mensagens grandes. Eu não tinha como falar tudo isso em poucas palavras, tinha muita coisa pra falar. Antes de falar tudo pra ela decidi escrever um texto, desse texto fui cortando o desnecessário e transformei o texto em mensagens. Ela tinha uma página de textos, escrevia sobre sentimentos que o ex dela fez ela sofrer, eu comecei a ler todos os textos dela e me identifiquei. Fiz o máximo pra ficar o mais curto possível e tomei cuidado pra não escrever nada que machucasse ela. Fui escrevendo fazendo as mesmas analogias que ela fazia, mostrando os mesmos sentimentos que ela sentia, pra fazer ela sentir que eu tava sentindo o mesmo que ela, e que ela tava fazendo o mesmo mal que o ex fez, pra outra pessoa. Foi minha sacada final, uma ideia ótima pra ela tomar um tiro no pé. Desse texto resultaram 15 mensagens, uma pra cada dia que ficamos sem se falar. Na outra terça feira, no dia que eu ia mandar as mensagens vi que ela começou amizades no fb e eram só homens, com certeza do tinder. Ela já tinha seguido em frente, já tava começando a conversar com outros e eu não queria que ela perdesse mais tempo comigo, então não mandei nada. Teve um dia que ela postou e avisou que ia fazer a limpa no FB, pensei é agora que sou deletado, só que ela não me deletou, eu também segui em frente mas eu tinha prometido que não ia abandonar ela, então não deletei. Fiquei o próximo mês meio mal ainda, eu já tinha superado, não me machuquei tanto porque minha intuição sempre soube que a gente tinha tudo pra dar errado, mas era foda. No fundo, ainda continuava sentindo um vazio, não conseguia ver fotos ou pessoas de mãos dadas que eu lembrava da situação e doía o coração um pouco. Mas eu ainda sentia o vazio, algo que nunca senti. Comecei a pensar que iria morrer sozinho, que nunca iria ser amado, coisas que eu realmente não ligava mas depois dela isso não saía da minha cabeça. Eu nunca fui desse jeito, nunca precisei de ninguém, sempre fui independente, não tinha ideia do que tava acontecendo. Então percebi que precisava voltar à minha essência. Cadê aquele menino bem humorado, que nunca quis namorar e era cheio de amigos? Para as pessoas eu continuei o mesmo, nunca demonstrei minha tristeza, eu continuava contando piada e rindo de tudo, mas na verdade estava triste por dentro. Ninguém suspeitava de nada. Eu sempre fui de esconder essas coisas, não quero que os outros se preocupem comigo, sempre quis ser sinônimo de alegria, as pessoas não podiam me ver triste. Então era minha máscara, uma interpretação.
Foram passando os dias e as minhas férias chegaram, fui pra minha cidade natal. Eu tava precisando disso, nada melhor pra voltar à essência que voltar à sua terra, aos seus amigos. E aos poucos fui melhorando mesmo, foi muito bom ter ido pra lá, consegui desencanar e descansar bastante. Até que um dia meus amigos combinaram de ir numa festa em Bauru de noite, seria uma festa da UNESP, algo que eu não ia fazia tempo. Chegando em Bauru a festa foi cancelada pela polícia, e a gente já tava na cidade, não tinha como voltar, então pensamos um pouco e decidimos ir numa balada, pra não jogar fora a noite. E foi uma das piores decisões da minha vida. Acabamos não somente jogando fora a noite, mas também muito dinheiro. Chegamos lá e pra entrar era 40 reais, fora que decidimos rachar uma garrafa de vodka pra poder aguentar ficar num lugar daqueles. Eu fui bebendo consideravelmente rápido, precisava ficar louco, fazia tempo que não ficava. Fui bebendo e cada vez mais sentindo aquele vazio, sentindo muitas dúvidas, pensando em tudo que a gente poderia ser se desse certo, um monte de futilidade, pensamentos inúteis que não podem mudar o passado, mas eu tava preso neles. Foi a porra do álcool, eu sempre consigo ver o lado positivo das coisas, mas aquele dia eu esqueci de todos e foquei no negativo. Quando percebi eu tava chorando horrores, e o pior: na frente dos meus melhores amigos. Já faziam dois anos que eu não chorava, a última vez que chorei foi despedindo da minha família pra morar fora, e ainda consegui segurar pra não chorar na frente deles. Eu sempre quis ser motivo de alegria pros meus amigos, eles são pessoas incríveis e não queria que se preocupassem comigo, até porque isso tudo foi uma bobeira do caralho, eu me machuquei por inexperiência. Mas foi importante pra minha superação ter chorado naquele dia, me ajudou a ver que ficar sofrendo por aquilo só fazia mal, e eu me senti “querido” pelos meus amigos porque eles demonstraram estar preocupados e respeitaram meu espaço, não perguntaram nada sobre, mas sempre ficaram ali comigo. Eu me senti amado de novo, de uma forma diferente, mas amado. Em 2013 eu não tinha com quem sair, não fazia parte de nenhum grupo, tava infeliz com tudo, minha família cada vez se dividia mais, eu não queria continuar mais. Mas aí eu conheci eles, e eles me acolheram no grupinho deles, eu nunca tive uma amizade tão especial assim, sempre foi um clima muito bom. Posso dizer que eles salvaram minha vida embora nunca falei isso pra eles, mas sempre tento demonstrar com outras palavras e atitudes, sempre tentando marcar rolê, organizando coisas, mandando mensagens de apoio, etc. Eu só tô aqui hoje por eles e só conseguir superar ela pensando “calma, você ainda tem eles”. Estando com eles foi importante pra eu reencontrar minha essência, e saímos muito, foi um mês muito importante pra mim. Sei que estamos nos distanciando, é natural acontecer, o pessoal tá namorando, se formando, um indo pra cada canto, mas quando estamos juntos o sentimento ainda é o mesmo. Ela finalmente me deletou, deixei meu chaveiro lá em casa, excluí tudo que tinha dela, mas eu sei que nunca vou esquecer disso. Foi importante pra mim, eu cresci demais, foi bom sofrer. Agora já estou vacinado, tenho certeza que não vou sofrer tanto na próxima vez que acontecer. Mais importante que isso eu vi o meu valor, aprendi sobre amor próprio, algo que todo mundo deveria ter pra melhorar a saúde mental. Não sinto mais aquele vazio, sei que as coisas devem acontecer no tempo delas. Não quero namorar somente por ter medo de morrer sozinho. Vou namorar quando sentir que estiver acontecendo algo, naturalmente. Estou reencontrando minha essência, na última terça-feira subi aos palcos pela primeira vez, algo que sempre quis fazer mas nunca consegui, e estou ocupando minha mente com isso agora. É difícil explicar pras pessoas normais, mas não quero fama, é só minha terapia.
