Discurso sobre a Efemeridade Humana — Parte 1

(foto retirada do Google Imagens)

Um cara que eu conheço tem um ditado próprio, já popularizado entre seus amigos e conhecidos: “a vida, meus amigos, é mesmo uma pena”.

Pode ser uma abordagem pessimista demais para alguns, e de fato é. Mas o pessimismo, assim como absolutamente tudo nessa vida, se trata pura e simplesmente de um momento, que pode durar alguns minutos, semanas, anos quem sabe.

O “x” da questão é que, na (minha)realidade dos fatos, mesmo quando você está feliz, a barraca da infelicidade/frustração futura está sendo armada paralela, simultânea e consequentemente. Isso por que somos unos, orfãos de uma capacidade de satisfazer adequadamente todos os campos de nossa vida, sempre fadados a fazer algo muito bem e todo o resto de maneira parcialmente terrível ou tornar a periferia do núcleo de interesse momentâneo uma verdadeira favela sentimental, abandonada pelas políticas públicas da preocupação psicológica em manter bons laços sociais.

Bom…eu criei uma puta favela. Deixei-a totalmente desprovida de qualquer cuidado, e até deixei de instalar o básico para a sobrevivência de qualquer coisa. Só os mais fortes e antigos moradores sobreviveram. Aquelas novas pessoas que entram em nossas vidas e necessitam de atenção e cuidado para se estabelecerem, para se importarem, partiram. Na verdade elas nunca vieram, pois eu estava olhando apaixonado e fixamente para aquela que elegera como princesa, sem tempo para abrir os portões aos novos visitantes, ou de buscá-los.

É assim que a história termina. Eu, sozinho na sala da faculdade, esperando o professor chegar e fazendo um brain storm sobre como tudo deu errado em um grupo de whatsapp em que só existe um contato (eu), literalmente após a implosão da minha mais linda torre central e sentado, triste, nos escombros esvaziados da periferia.

Mas vamos por partes.

A.P. foi minha primeira namorada, aos 18 anos de idade. Sempre foi muito tímido para corresponder ou buscar concretizar aqueles sentimentos da adolescencia que surgiram, mesmo quando recíprocos. Algo aterrorizante tomava conta de meu corpo, levando-me a ir em direção à felizarda e, no ultimo instante, contorná-la, com o coração gelado e o cérebro congelado pelo terror do contato social, o medo do silêncio, do constrangimento.

Foi assim até os 16, uma grande plantação de arrependimentos colhidos até hoje, aos 21 anos. Até que decidi rebuscar uma das paixões do passado e desafiar a timidez para um duelo mortal, onde apenas um sairia vivo: o orgulho ou a vergonha. Felizmente o primeiro venceu, mas de forma trágica. A escolhida para ser o campo de batalha era um campo minado, repleta de armadilhas infantis e jogos psicológicos, felizmente vistos por mim. Ela me dava esperanças e, no momento H, esquivava-se, como quem tira um 20 nos dados em um jogo de D&D. Ao menos declarei-me, e rompi com aquele medo incontrolável.

A partir daí, inverti a situação. Decidi que não me entregaria à superficialidade das relações humanas contemporâneas, regadas por álcool, argumentos do setor responsável pela gerência da estupidez humana como o clássico “se não lembro não aconteceu” e por vangloriações lamentáveis sobre a quantidade de bocas beijadas, como se esta fosse a vitória dos não-nobres cavaleiros do século XXI.

Decidi ser diferente. Não para ser diferente, mas por que a ideia de ser como os outros me agredia, e ainda agride. Percebi que sou um rapaz de relacionamentos sérios, de comprometimento, que não consegue manter uma relação sem se importar, sem querer criar situações memoráveis, sem querer saber como foi o dia dela ou por que ela está triste. Descobri que não era homem de 20 bocas na festa, mas sim de uma boca para a vida.

E assim trilhei meu caminho, esquivando-me daquelas que surgiram e que, por mais que gostassem de mim, não me despertaram a fagulha emocionante do interesse que surge com aquelas pessoas especiais.

Quando entrei na faculdade, conheci A.P. e não imaginei que seríamos o que fomos. Se não fosse por ela, nunca teria acontecido nada. Um simples “oi” mudou tudo. Em um mês, eu estava apaixonado. Futuramente descobriria que ela, não, por um medo de se comprometer que falarei adiante. A chamei para o cinema. Tive meu primeiro beijo. E que beijo! “Não poderia me sentir mais orgulhoso em ter esperado por alguem que gosto e que gosta de mim”, pensei. De fato, tal sentimento já está consolidado como vitória para mim. De todos os meus amigos que tiveram essa experiência por pressão social e que, claro, me pressionaram para tanto antes de desistirem, nenhum teve algo parecido com o que eu tive. Troquei uma história constrangedora e futuro cartucho a ser queimado em conversas com amigos, como piada, por uma experiência...indizível. Fantástica. Perfeita.

Um mês depois, estávamos namorando. Uma advertência veio dela: “minha família é muito complicada, não sei se aceitarão”. O Jovem M.T., arrogante, não deu ouvidos. “Poxa, se eu, o cara mais certinho e careta dessa cidade, for rejeitado por alguma família, eu não sei de mais nada!”.

Adivinhem.

Um ano de namoro e o ultimato chegou para A.P., que deveria terminar comigo sob ameaças de ser retirada da faculdade para retornar à cidade interiorana da qual veio e na qual residia sua mãe, a ditadora e “vilã” desta história (aguarde os próximos capítulos e entenda as aspas). E não pensem o que estão pensando. Eu não fiz nada. Nem ela. Tenha a conciência tranquila de que fui o melhor namorado que poderia ser. Mandei flores, conheci a mãe, fui educado, tentei me aproximar da irmã e tudo mais.

De fato, eu vi a sogra apenas 2 vezes neste ano de relacionamento já que ela residia no interior, e apenas em uma das vezes tive a real oportunidade de conversar seriamente com ela. Eu pensei que não fosse necessário! Fui ingênuo e, naquele churrasco pré-villa mix (que eu odeio, sendo este o único problema real que existe entre nós dois — e que também é assunto para um momento futuro), decidi tentar me aproximar dos amigos dela. Erro feio, erro rude.

Talvez ali tudo teria mudado e eu jamais estivesse escrevendo isto. Tento não me culpar, mas é difícil. Se ela tivesse visto quem eu sou…mas a sogra viu quem a irmã de A.P., que mora com ela aqui, na cidade grande, quis mostrar.

M.A. nunca foi com minha cara, é um fato. Sempre me olhou com olhar de desdém, e o jovem M.T., invés de valer-se de artifícios materiais e alterar a imagem que ia se construindo, usando a língua dela, tentou provar-se válido por sua idéias. Foi como tentar falar português com um chinês nativo. E fiz pior ainda: fui sincero. Expressei minhas dificuldades na vida, minha mãe com obesidade, o fato de recebermos pensão, já que minha mãe não possuía a mínima possibilidade de trabalhar regularmente, e de que eu ainda não trabalhava, por querer focar nos estudos.

Bastou para que M.A. me relacionasse a um ex namorado dela, com fama de preguiçoso. Daí, minha mãe tornou-se uma vagabunda (no sentido laboral da palavra, acredito e espero), e eu, um malandro. Minha querida cunhada (que o diabo cuide dela) tratou de fazer direitinho minha caveira para a família católica e controladora, e o destino estava selado. M.A. continuava seu namoro, também reprovado pela família (que na realidade não quer que nenhuma delas namore, já que mãe e avó, as maiores influenciadoras familiares, sofreram com os maridos e não querem isso para as filhas. Uma super proteção nociva, que trouxe muito, muito sofrimento para A.P. nos anos seguintes), e A.P. foi forçada a terminar comigo.

Continuamos o relacionamento, mas escondido. Nós nos amávamos demais. Não queríamos jogar aquilo fora. A idéia era que, com o tempo, a mãe visse que mesmo sem mim A.P. continuava a mesma, e que eu não era uma má influencia nem nada do tipo. Se eu tivesse conversado com a mãe aqui, talvez esse texto não existisse. Mas optei por manter A.P. confortável. Ela realmente estava bem abalada com aquilo tudo. Erro feio, erro rude. Mas um erro movido pela vontade de confortar ela.

Então, começamos nosso relacionamento camuflado, que se estenderia por um ano e meio, sem nenhum movimento realmente eficaz em direção à solução. Um inferno psicológico em contraposição com um paraíso relacionamental nasceria. A efemeridade emocional mostraria sua cara. E um escritor amador, ávido por desabafo e esclarecimento de idéias, buscando saber se deve ou não procurá-la novamente, surgiria no Medium.

Por que no fim, a vida é mesmo uma pena... Que texto dramático, credo.

continua…