Minha aliança caiu…

Marcus Tulius
Nov 6 · 3 min read

Nossa cerimônia de casamento havia acontecido no dia anterior. Obedecendo aos pedidos insistentes de minha irmã, fomos visitar alguns Cenotes na região próxima ao hotel onde estávamos hospedados. Em um deles, especialmente lindo, não era possível apoiar completamente os pés no chão onde tomávamos banho. O terreno embaixo d’água era composto por pedras, algumas mais elevadas, outras menos. Além disso, em algumas das pedras, principalmente as mais profundas, existia muito lodo. Na tentativa de retornar à sua posição, após desequilibrar-se sobre a pedra, minha recém-esposa estendeu os braços e fez o movimento de remo, à semelhança de um nado mesmo. Nesse momento, sua aliança escorregou pelo dedo. Ela sentiu o anel escapar de sua mão e só teve uma reação imediata: um susto. O susto foi acompanhado da seguinte frase:

-Minha aliança caiu…

Essa frase ecoou pela minha cabeça durante cerca de 30 segundos. Nesses 30 segundos eu imaginei todas as possibilidades possíveis: desde formas de resgatar a aliança até como faríamos para comprar uma nova e quanto eu gastaria. Imaginei também saindo do local sem conseguir resgatá-la. Imaginei-me voando de volta pra casa sem a aliança. Imaginei-me chegando em casa… Eu não podia mergulhar a cabeça, porque há pouco mais de dois meses havia feito uma cirurgia nos olhos e o médico proibira a prática de mergulho. Obedeci? Não, mas isso é outra história. Nenhum de nós, naquele momento, não tínhamos qualquer tipo de equipamento de mergulho para observar o fundo da água. Um mergulho, praticamente às cegas, embora a água fosse cristalina, seria procurar agulha no palheiro, ou aliança no lodo.

De supetão, lembrei-me de duas figuras que me chamaram atenção logo que entramos na água. Um casal de mergulhadores. Ou praticantes de snorkeling. Como você queira chamar. Eles estava há uns 30 metros distantes de nós, observando algo no fundo da água. A “mulher”, na verdade, era um cara de cabelo comprido.

Depois de alguns gritos, ele prontamente atendeu meu pedido:

-Amigo!!! Can you help me?? (Sim, lá no México, eu misturava tudo mesmo). She lost her wedding ring!

Ele se aproxima:

- Hola, ¿qué pasa?

-She lost her wedding ring, right here.

No instante do susto, eu intuitivamente havia nadado e me posicionado no local exato onde ela estava.

-¿Aquí?

-Yes! Right here!

Ele mergulhou imediatamente e se posicionou abaixo de nossos pés, há uns 3 ou 4 metros de profundidade. Entrou embaixo da pedra onde estávamos. Só conseguíamos ver suas pernas balançando. Não demorou 15 segundos, ele retornou com a aliança na mão.

Foi alegria geral na nação!

Perguntamos o seu nome:

-Pepe!

-Muchas gracias, Pepe! You save my wedding!

E oramos.

-Seguuuuuura na mão de Deeeeeeeeeeusssss, seeeeguuraa na mããão de Deeeeus…

As chances de perder uma aliança no dia seguinte ao do seu casamento existem, mas você há de concordar que são mínimas. As chances de perdê-las dentro d’água, também. As chances de encontrar sua aliança, então… E as chances de haver mergulhadores naquele momento são esmagadoramente mínimas.

A partir daquele momento, colocamos nossas alianças no dedo médio, mais auspicioso e mais robusto. Apertado demais. Assim tá ótimo. Continuamos nosso passeio. Retornamos para o hotel. Felizes, de mãos dadas, com as alianças. Nunca. Nunca mais entramos na água sem antes guardá-las em local seguro.

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