Tudo em excesso é demais, até livros.

2016 foi o ano em que eu li mais livros em toda a minha vida. Mas também foi o ano das piores leituras.

Tudo começou no final de 2015, quando, por intermédio de uma amiga muito querida que começava sua saga dentro do youtube, eu conheci o que viria a ser o catalisador da minha compulsão, o booktube.

Booktube é como chamamos o nicho específico de canais, dentro do youtube, que tem como temática base a literatura.

Desde pequena eu sempre fui leitora voraz, vivi meus altos e baixos com os livros, mas nunca os abandonei. Tenho orgulho de dizer que já li muita coisa e também reli várias vezes as minhas histórias favoritas. E descobrir os Booktubers foi, em um primeiro momento, algo mágico. Eu não me lembro de ter tido muitos amigos que lessem tanto quanto eu, e de repente eu encontrei um monte de gente também viciada em leitura, que emendava um livro no outro, e gastava horas lendo sem parar. Eu estava em casa.

E assim passei a consumir diariamente os videos de diversos canais literários, anotava todas as dicas dos últimos lançamentos, me tornei a cliente de ouro da Amazon e passei a gastar boa parte do meu suado dinheirinho em livros que chegavam na minha casa, quase que semanalmente, em caixas e mais caixas.

Ninguém próximo achou ruim eu estar abarrotando meu quarto com pilhas de livros não lidos, ninguém achou estranho que em toda saída para o shopping eu voltasse com alguns volumes embaixo do braço, ninguém falou nada quando mais de sete livros chegaram de uma só vez no dia em que eu me descontrolei na Black Friday, ninguém reclamou quando eu dei de presente pra minha família livros que eles não leriam, já que só eu tenho esse hábito lá em casa, e basicamente estavam sendo presenteados com algo do qual só eu faria uso.

Entretanto, meu descontrole na compra ainda viria a piorar quando, no natal de 2015, minha mãe me presenteou com um Kindle. O espaço físico para armazenamento das minhas edições não era mais um empecilho para o aumento da minha coleção. E o crescimento foi exponencial.

E tendo posse de tanta coisa nova esperando pra ser lida, eu entrei em 2016 com uma meta surreal de 70 livros para terminar durante o ano. Mas eu tinha o estímulo dos meus tão amados Booktubers, que tinham fechado 2015 com 80, 90, 100, ou mais livros lidos. Se eles fazem, por que eu não haveria de conseguir? Eu sempre gostei de literatura.

Com o pensamento de que eu tinha uma meta a cumprir eu comecei a ler compulsivamente. Me forçava a ler quando na verdade queria estar fazendo outra coisa. Me obrigava a terminar livros que eu não tinha gostado da história, pois livro abandonado não conta pra meta. Entrava em maratonas literárias e apenas me frustrava por não ter conseguido ler tudo que me propus, enquanto via nos fóruns o depoimento de pessoas que leram 5 livros em uma semana.

Eu terminei 2016 tendo lido 30 livros, e aproveitado talvez 3.

Só abri os olhos pra essa crise que eu estava vivendo com os livros quando eu desisti do primeiro livro de 2017. E tudo bem. Afinal, eu estava lendo com qualquer outro objetivo que não fosse para o meu próprio prazer? Na teoria, não. Então porque eu estava tornando a atividade que eu mais gostava em um fardo? Quem estava monitorando a quantidade de coisas lidas durante meu ano se não eu mesma? Quem estava me cobrando o livro ainda por terminar parado no criado mudo se não eu mesma? Quem havia transformado o momento de lazer em mais um momento de obrigação e cumprimento de metas? Como se eu já não tivesse obrigações e metas mais do que o suficiente na vida, pra estar criando outras.

Finalmente com a consciência de que, mais uma vez, eu não preciso fazer isso pra provar nada para ninguém, eu fiz as pazes com meu antigo amor. E está tudo bem.

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