Estou Tonto

Quero muito compartilhar esse poema do Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Eu não tenho muito o que escrever aqui, as coisas estão atrapalhadas e eu ando com um bloqueio criativo gigantesco.

Sempre me sinto reconfortada por essa obra, me lembro da primeira vez que li e até hoje tenho a sensação de que nada no universo poderia descrever meus momentos de confusão tão bem quanto.

Estou tonto, 
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar, 
Ou de ambas as coisas. 
O que sei é que estou tonto 
E não sei bem se me devo levantar da cadeira 
Ou como me levantar dela. 
Fiquemos nisto: estou tonto.
Afinal 
Que vida fiz eu da vida? 
Nada. 
Tudo interstícios, 
Tudo aproximações, 
Tudo função do irregular e do absurdo, 
Tudo nada. 
É por isso que estou tonto …
Agora 
Todas as manhãs me levanto 
Tonto …
Sim, verdadeiramente tonto… 
Sem saber em mim e meu nome, 
Sem saber onde estou, 
Sem saber o que fui, 
Sem saber nada.
Mas se isto é assim, é assim. 
Deixo-me estar na cadeira, 
Estou tonto. 
Bem, estou tonto. 
Fico sentado 
E tonto, 
Sim, tonto, 
Tonto… 
Tonto.