Que show, Adriana!

Paula Lima, Belo Horizonte, 24 de novembro de 2018 (escrita), 29 de novembro de 2018 (finalização)

Um pouquinho de tudo que falo nesse texto menos o ingresso do show que ficou cortado, haha!

Foi dos melhores shows da minha vida, o que percebi em poucos minutos de espetáculo. Resultado: parte dele foi de pura emoção, o que segurei quando não deveria tê-lo feito, a outra, de muita cantoria (#adoro) e, a última e mais intensa, de escritura mental ininterrupta. Que saco! Ser produtora de conteúdo é uma merda, às vezes você quer se divertir e está trabalhando sem querer. Esse vício, essa mania de transformar experiências em escritos é meu celular invisível. Logo, quem sou eu pra questionar quem não consegue controlar as filmagens; o que, claro, também teve nesse show. E confesso que queria estar na companhia de mais uma tia, aposto que ela chamaria atenção da senhora que não parava de filmar e dar manota. Em alguns momentos, o celular não a obedecia e ela ligava a lanterna fazendo as vezes de farol.

Foi dos melhores shows da minha vida e junto, pensando agora, com Bibi canta Sinatra no teatro Serrador e João Bosco no Rival. O segundo, chorei um choro bom na primeira metade inteira pois percebi que sua voz e canção me traz lembranças da infância à fase adulta. É João Bosco como João Bosco, é João Bosco na voz de Elis, é João Bosco no Rolando Boldrin, é João Bosco com Roberta Sá (das últimas indicações de mamãe), enfim, é João nas faxinas às feituras de almoço de domingo.

A Mulher do Pau Brasil foi dos melhores shows da minha vida e, justamente por isso, é difícil escrever sobre ele, afinal quando se vivi uma experiência dessa importância temos o impulso de descrever tudo com detalhes na tentativa de transportar o leitor para lá. Mas não dá, não dá, porque o relato nunca é a experiência (o que aprendi na Dissertação) e porque esse foi dos melhores shows da MINHA vida. Dessa forma, está ligado as minhas vivências. Logo, se conseguir transportar você para os melhores shows da sua vida, maravilha! Consegui o que queria.

Adriana Calcanhotto, assim como João Bosco, Elis Regina e companhia, também faz parte da minha memória musical familiar e pessoal. E voltei a perceber isso (já tinha tido esse insight anteriormente) segundos antes do show, quando tia Gilda comentou alguma coisa que agora não me lembro mais. Tenho uma raiva de esquecer, pois sei, psicanaliticamente, que esse esquecimento diz muito! #saco

Senhas, assim como Dá licença meu senhor (João Bosco), é muito simbólico para mim. Primeiro, porque foi dos primeiros CDs que escutei quando “comecei a me ligar em música”. Tudo começou com uma fita de Gal A Todo Vapor e uma fissura louca por Vapor Barato e um clássico detalhe que mamãe adorava comentar: durante Fruta Gogoia o microfone cai (e depois descobri que o violão bate no microfone), Gal dá uma risadinha e diz “acontece”. Depois, veio o disco Tracy Chapman da própria, que descobri, recentemente, ser do ano do meu nascimento (1988). Esse, escutava debaixo da escrivaninha, aos prantos, para matar a saudade da irmã mais velha que tinha se mudado de BH. Em seguida, veio Marisa Monte, sem nenhum álbum específico (muitos me marcaram) e Senhas de Adriana Calcanhotto.

Por dentro, as letras das músicas são brancas, com fontes pequenas, sobre o fundo preto num contraste literal. E a capa, ou melhor, as capas possíveis de Senhas (depende da forma como se dobra) são, senão me engano, azul e vermelho com sua foto preto e branca no centro, modesta, de perfil e seu cabelo sempre curto — juro pela deusa que estou descrevendo isso de memória. Depois vou pegar o CD pra ver.

Cheguei bem perto, hein? :D

Mais velha, mas ainda jovem, me impressionei com as letras do álbum, achando uma das discussões musicais mais contundentes da MPB, o que para mim, nessa humilde opinião, também estariam Estudando o Pagode de Tom Zé e Vol. 1 de Andreia Dias. Enfim… Estou dizendo tudo isso sem falar uma única palavra do show. É verdade… Mas me propus, desde o princípio, desde a sua escritura mental, que escreveria esse texto como escrevo tudo, que escreveria nessa escrita de divã avessa a qualquer roteiro, que tem, como princípio, deixar os dedos livres para registrarem o que a cabeça traz espontaneamente.

Foi dos melhores shows da minha vida. Dos mais impactantes que me trouxe, também espontaneamente, inúmeras coisas à tona. Havia me esquecido como Adriana faz parte da minha vida, havia me esquecido, que diferente de Gal e parecido com Marisa (Monte), conheço muitas canções suas para além do que está em Senhas e novelas. Surpresa semelhante, vale dizer, ao que vivi no início do show. Na primeira música, Adriana sai vagarosamente e quase que flutuando de uma rede vermelha para cantar A Mulher do Pau Brasil trazendo uma forte batida de guitarra ao contrário de um suave dedilhar de violão, o que para mim, naquele momento, era o que esperava ouvir.

A cenografia, pelo menos no Palácio das Artes, era muito puxada para o vermelho como as cores de Almodóvar, me lembrando, também, de Desvio para o vermelho de Cildo Meireles. No início e no fim, ela está praticamente toda de preto (senão me engano a blusa por baixo do sobretudo tinha um detalhe vermelho) e com os sapatos rubros. Como os músicos. O que só percebi no fim do espetáculo. No meio dele, Adriana usa um vestido vermelhão e, ao longo do show, confesso que me surpreendi com sua dança. Não sei porque, realmente não sei porque, mais cismei que ela não era tão dançante. Sei lá, acho que achei que ficaria sentada cantando e tocando com seu violão. Mas não… Ela dança na maior parte do show e foi uma delícia vê-la bailar e fazer paradas ou movimentos específicos conforme certas passagens da letra ou marcações rítmicas. Aliás, essa última, é algo que percebi que faço no meu balé privado e juníssimo.

Foi dos melhores shows da minha vida. E foi, também, dos mais belos e ricos espetáculos da minha vida. Primeiro, falei que o arranjo era de uma complexidade absurda apesar de vir “apenas” de três pessoas: Adriana Calcanhotto, Bem Gil e Bruno Di Lullo ou de Lola (sua filha) como brinca na apresentação do músico. Mas tia Gilda, veio, em seguida, com uma definição ainda melhor: os arranjos são de uma riqueza absurda. E riqueza, neste caso, define mais do que complexidade.

É claro, é claro que viajei no som e perdi boa parte da poesia das letras que não conhecia, mas, para quem gosta de percussão, o espetáculo não ajuda. Viajava no balé de braço que Adriana ou Bruno e Ben faziam quando tocavam os tambores, viajava no baixo, que, realmente, continuo achando um dos instrumentos de corda mais maravilhosos (une melodia e percussão num só lugar), viajava nas emoções, nas lembranças, enfim, viajava na experiência que tudo isso me proporcionou. Algo parecido com que Suíte para os Orixás me fez. Apesar desse espetáculo ter me proporcionado uma experiência mais transcendente, sensível e menos racional. Em Suíte para os Orixás, eu realmente, tive a impressão que saí do meu corpo.

Adriana, que bom que você voltou a Belo Horizonte, que bom que me permitiu viver essa experiência, afinal, no primeiro estava a quase 8.000 quilômetros dessa cidade e seria impossível vê-la. Logo, obrigada, obrigada pela deusa da música! Leitor, se você se sentiu enganado e leu mais de 7.000 caracteres na esperança de saber como foi o show, me desculpe. Me desculpe com toda sinceridade. Eu não vou dar conta de descrevê-lo mais do que fiz, mas, por outro lado, devo dizer que tem gente que fez isso e muito bem: Caíque Pinheiro, na revista Caju. Leia lá ;)