Lugar da fala e lugar do falo
Ronaldo Bressane
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Lugar de discurso de odio

Talvez muitos de vocês, sem sequer notar a grande ironia que é isso, tenham esquecido, ou optado por deixar de lado, as ofensas misóginas que abrem o texto de Ronaldo Bressane falando sobre “literatura feminina”.

Um escritor que se propõe a tratar do tema “mulheres e literatura” e abre seu texto com uma série de agravos históricos e pessoais contra mulheres deveria, no minimo, ser visto como um canibal defendendo veganismo.

É claro, para muitos esse é um tema novo mas, para algumas de nós, se torna especialmente ofensivo ver argumentos que utilizamos e vivemos há décadas distorcidos e misturados com misoginia e uma noção questionável do que, afinal, é “literatura de mulheres”.

Pra facilitar a compreensão dos nossos motivos, traçaremos um paralelo com o texto “I, Racist”, publicado no próprio Medium recentemente. Nele, o autor faz a seguinte colocação:

Brancos tem o privilégio de interagir com estruturas politicas e sociais da nossa sociedade como indivíduos. Você é “você”, eu sou “um deles”.

Uma mulher que ousa sair do “lugar de fala” denominado por estruturas culturais e sociais e reforçado por discursos agressivos (e previsíveis) como o do escritor se torna, automaticamente, “uma delas”. Ou, nas palavras do próprio: “uma feminazi hi(p)stérica”.

E como explicar que 72,7% dos autores publicados por grandes editoras no Brasil sejam homens, senão por esta cultura, expressa tão bem pelo autor em seu lapso misógino?

Só isso já seria suficiente para nos fazer questionar a ideia de que esse texto se propõe a ser um debate, uma troca, pois não existe debate entre desiguais. Quando nos colocamos hierarquicamente superiores aos nossos interlocutores não estamos propondo diálogo, estamos, isso sim, nos assumindo como detentores do conhecimentos, ou seja, o debate dá lugar à pregação.

Mas vamos adiante porque, sabemos, a ideia dessas afrontas não é alienar todas as mulheres, é claro, mas reforçar a noção de que existem boas e más mulheres. As más, que ousam sair do “lugar de fala” denominado pelo autor e não concordar com ele, são descritas no segundo parágrafo:

Não vou aqui reproduzir os deprimentes comentários que tive de ler, muitos deles assinados por escritoras respeitáveis e vários por mulheres que até então eu acreditava possuírem mais de dois neurônios entre suas belas orelhinhas.

E essas ofensas pessoais travestidas de argumentos são uma maneira bastante corriqueira de nos colocar no nosso lugar que, ironicamente, é denunciado pelo: “belas orelhinhas”. Ou seja, espera-se que sejamos belas (dever da mulher), que nos sintamos representadas por um diminutivo dúbio que oscila entre o sentido de fragilidade e o sentido pejorativo (tolinhas) e que concordemos com ele, do contrário seremos acusadas de não possuir “mais de dois neurônios”.

Como podemos nos colocar como porta-vozes do outro se o vemos em uma posição menos humana que a nossa? Talvez esse discurso seja uma espécie de “experiência do Outro sem sua Alteridade”, como disse Zizek, onde temos uma visão idealizada do outro, mas excluímos dele tudo que discorda conosco.

E as mulheres que foram de encontro ao que o escritor dizia se viram acusadas de violências, com referências como “paredón” e “instintos mais primitivos” (mulheres, sempre tão instintivas).

Seguindo nas metáforas propostas pelo autor, convém dizer que o que morre nesse “paredón” não é o diálogo ou uma troca intelectual, que sequer tiveram espaço para começar, mas o senso de superioridade de um interlocutor que não aceitou ser contraposto por mulheres.

Armado com seu discurso de ódio e sua crença de ser alguém especial ele foi lá e resolveu ensinar para essas iletradas o que elas são, querem, fazem e pensam (seja como leitoras ou como autoras).

Mas a grande inovação do respeito, essa segue pra próxima.

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