FERROVIAS GAÚCHAS — A história dos caminhos de ferro no sul do Brasil.

Por: Ary Filgueiras

Quem não experimentou a sensação única de uma viagem de trem não sabe o valor de uma ferrovia. Deslizar sobre os seus trilhos ou ouvir o apito de uma maria fumaça traz na recordação de milhões de pessoas pelo mundo, sensações diversas do transporte que surgiu em plena revolução industrial no final do século XIX.

Uma época onde se viajava pelo país a partir de suas estações lotadas de pessoas partindo para grandes percursos. Na janela a saudade acompanhada de paisagens únicas do nosso Brasil. As primeiras ferrovias nacionais remontam ao ano de 1828, quando o governo imperial autorizou por Carta de Lei a construção e exploração de estradas em geral. O propósito era a interligação das diversas regiões do País: Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia. Só que no Rio Grande do Sul havia um propósito diferente. Além das questões políticas, os gaúchos sabiam o benefício social e econômico que uma ferrovia poderia proporcionar à província e não queriam perder a oportunidade de construí-las nos locais certos.

CRONOLOGIA

1872 — o engenheiro José Ewbank da Câmara apresentou ao governo imperial um projeto geral para a construção de uma rede ferroviária. Quatro linhas atravessariam a província do Rio Grande do Sul, interligando-a de norte a sul e de leste a oeste, satisfazendo as necessidades estratégicas, políticas e econômicas da região sul e do Império.

1874 — era inaugurada em abril a primeira ferrovia do Rio Grande do Sul, que ligava a capital Porto Alegre à cidade de São Leopoldo por um trecho de aproximadamente 34km. O caminho é atualmente percorrido pelo metrô de Porto Alegre.

1876 — em 1º de janeiro daquele ano foi inaugurado o prolongamento da Ferrovia Porto Alegre — São Leopoldo, até Novo Hamburgo.

1877 — deu-se início à obra que pode ser considerada como a mais importante ferrovia ao longo da história do Rio Grande do Sul, a Estrada de Ferro Porto Alegre-Uruguaiana, com o propósito de ligar o litoral à fronteira oeste da Província.

1880 — já eram transportados 40 mil passageiros por ano. A linha foi posteriormente estendida até Carlos Barbosa e a Caxias do Sul.

1883 — foi inaugurado o trecho desta ferrovia que ligava Margem do Taquari (atual General Câmara) a Cachoeira do Sul. No ano seguinte, no dia 13 de outubro, inaugurou-se o trecho Cachoeira do Sul-Santa Maria.

1884 — a tão esperada ferrovia chegava a Santa Maria, localizada na região central do Rio Grande do Sul e com sua história fortemente marcada pela ferrovia, chegando a ser considerada o mais importante centro ferroviário gaúcho. No mesmo ano, foi inaugurada a segunda ferrovia gaúcha, a Estrada de Ferro de Rio Grande-Bagé.

1889 — o governo imperial concedeu ao engenheiro João Teixeira Soares, através do Decreto 10.432, o privilégio para a construção e uso de da ferrovia que ligaria o Rio Grande do Sul a São Paulo. A estrada deveria partir das margens do rio Itararé, na divisa entre São Paulo e Paraná, e chegar até o município de Santa Maria. No final desta década de 1880, criou-se comissão para o estudo e a construção de uma linha entre Porto Alegre e Uruguaiana, obra que só viria a ser completada em 1907.

1890 — foi concluído o trecho Santa Maria-Cacequi

1892 — iniciaram-se as obras do trecho Santa Maria-Marcelino Ramos.

1905 — foi criada a Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS). Consistindo em uma concessão pública administrada por empresa de capital privado, a VFRGS passou a administrar praticamente todas as ferrovias existentes em solo gaúcho.

1907 — foi concluído o trecho Cacequi-Uruguaiana, completando a linha tronco, e até 1910 foram executados vários ramais desta mesma linha. Ainda nesse período foram construídas as linhas Santana do Livramento-Rosário do Sul-Cacequi (1909–1910) e Passo Fundo-Marcelino Ramos (1910).

1910 — as principais linhas férreas do Rio Grande do Sul já estavam concluídas.

Com a malha ferroviária principal praticamente configurada no início do século XX é possível observar que a cidade de Santa Maria, localizada no centro do estado gaúcho, já se encontrava em posição privilegiada dentro do sistema de ferrovias.

Sua condição de importante entroncamento ferroviário influenciou diretamente no desenvolvimento econômico e cultural da cidade, agindo de forma significativa sobre a expansão e consolidação da forma urbana.

O Rio Grande do Sul tem hoje mais de três mil quilômetros de extensão de malha férrea que responde pelo transporte de cinco milhões de toneladas de produtos por ano. Sua formação iniciou-se em 1872 a partir de um plano sólido estabelecido no governo imperial, quando Brasil ainda era uma monarquia.

A malha ferroviária gaúcha, integrante da chamada Malha Regional Sul, controlada por longo período pela Rede Ferroviária Federal — RFFSA, foi concedida para a iniciativa privada em 1997 à América Latina Logística — ALL que, até 2013, detinha também áreas de concessão na Argentina que possibilitavam a integração ferroviária entre grandes centros como São Paulo e Buenos Aires. A operação atual é da empresa Rumo, nova companhia resultante da fusão Rumo — América Latina Logística — ALL, com concessão para o período de 1997 a 2027 e operação das malhas das regiões Sul e Sudeste.