Eu não sei o que sentir. Quando te vejo, sentado, sorrindo e contando tuas histórias, eu não sei o que sentir. Quando me olha e me pergunta sobre os meus dias, eu não sei o que dizer. Eu não sei o que sentir quando te vejo encarar teu copo, arrumar teu cabelo, ouvir trivialidades, falar sobre teu mundo. Vivo há tanto tempo esperando, de longe, o som da tua risada, a maneira como pronuncia meu nome, memórias, sinais, cenas. A minha sina é observar atentamente cada movimento teu, fantasiando em segredo cada sensação e reação que eles me sugerem. Eu me convenço de que é suficiente. Passar meus dias recolhendo cada pedacinho de espaço que me é dado, revivendo cada minuto do pouco tempo que temos. É suficiente pra que eu mantenha uma forma rara de esperança que surge quando você se aproxima. Uma esperança que é subtraída diariamente, sufocada pelos dias mornos, pelas escolhas mal feitas, desesperadas, pela fome de estar e, sobretudo, pelo medo. O medo de ser visto como refúgio em tempos de fuga, de ser notado sem ser visto, de ser constantemente nublado, de tentar exageradamente parecer atraente, consumido e jogado pelos cantos.

A quantidade de conversas sem nenhum significado, de encontros sem encanto, cópia da repetição, pouco a pouco, fez de mim passageiro inexpressivo, impercebível durante o dia, violento durante a noite. Falta sobriedade, lucidez, desejo, atenção, perspectiva. Head in the clouds, high as a kite, floating in space, vague. Percorrendo caminhos, banheiros de bar, becos, pontes, praias. Procurando sentir sem realmente saber sentir. Absorto em ideias não concretizadas. Eu ando pela cidade e não sei onde parar, a cidade onde qualquer casa é lar, qualquer praça é cômoda, qualquer pensamento é justo. Mudo de opinião, cabelo, estratégia. Não sei onde parar, muito menos quando, perdido e encontrando pra perder. Eu mergulho fundo em tudo que faz mal. E então você me encontra. E sorri. E transforma tudo em technicolor. E eu não sei o que sentir. O estômago embrulha, as palavram prendem na garganta, os olhos não desviam dos teus detalhes. Os teus detalhes que ficaram guardados em algum lugar nesse corpo. Meus dedos reconhecem teus pêlos, minhas pernas os teus ombros, meus ouvidos tua respiração. Oh, it was just a glimpse of you, like looking through a window or a shallow sea. Could you see me? And after all this time it’s like nothing else we used to know.

Maybe afterlife.