[AS HISTÓRIAS REPETIDAS]

Por onde as dores vão?

Lia estava no escuro, e tinha lágrimas nos olhos.
Se remexia por todos os cantos da cama, e suas dores se espalhavam por todas as direções. 
Conforme se movimentava por entre as cobertas, Lia ia. Ia pra direita, ia pra esquerda.
As dores.
Virava-se pro lado direito, pro lado esquerdo. 
Ficava de barriga pra baixo, pra cima. 
Tudo se misturava numa solução líquida, que cumpria sua trajetória por todo o corpo.
As dores.
Apertava os joelhos contra o peito, como quem quer diminuir o espaço, este espaço que se instalou. Compactar.
Com todos os membros encolhidos, Lia acreditava que elas, as dores, teriam menos territórios para percorrer.
Percebeu que se enganou.
Por isso, desenrolou-se da madrugada, foi esperar a manhã. 
E perguntou-se novamente, quando suas noites seriam dias. Claros. Aconchegadamente claros.
Ligou a TV sem volume e fumou outro cigarro.
Reparou no espelho de digitais e viu um rosto novo. 
Um novo rosto cansado. Tentou imaginar com toda a força que tinha quantas pessoas no mundo faziam assim, desse mesmo jeito, nesse mesmo instante. Suspirou. Ai.
Lia lia. Lia algumas histórias. 
Histórias de suas histórias, e estavam repetidas. 
O rosto vermelho achou graça, e sorriu sozinha.
Viu que não era um trava-língua, era um trava-alma.
Sua cabeça era mar de ressaca. 
No meio da ondas salgadas, tinha doce, tinha amargo.
Amargo de pergunta, amargo de vazio, amargo.
O trago rasgou, e tudo derramou num ciclo.
De novo os joelhos contra o peito, cabeça de ressaca coberta.
E lá fora, a manhã.
Amanhã.