[AS HISTÓRIAS REPETIDAS]

Jordana Machado
Jul 29, 2017 · 1 min read

Por onde as dores vão?

Lia estava no escuro, e tinha lágrimas nos olhos.
Se remexia por todos os cantos da cama, e suas dores se espalhavam por todas as direções.
Conforme se movimentava por entre as cobertas, Lia ia. Ia pra direita, ia pra esquerda.
As dores.
Virava-se pro lado direito, pro lado esquerdo.
Ficava de barriga pra baixo, pra cima.
Tudo se misturava numa solução líquida, que cumpria sua trajetória por todo o corpo.
As dores.
Apertava os joelhos contra o peito, como quem quer diminuir o espaço, este espaço que se instalou. Compactar.
Com todos os membros encolhidos, Lia acreditava que elas, as dores, teriam menos territórios para percorrer.
Percebeu que se enganou.
Por isso, desenrolou-se da madrugada, foi esperar a manhã.
E perguntou-se novamente, quando suas noites seriam dias. Claros. Aconchegadamente claros.
Ligou a TV sem volume e fumou outro cigarro.
Reparou no espelho de digitais e viu um rosto novo.
Um novo rosto cansado. Tentou imaginar com toda a força que tinha quantas pessoas no mundo faziam assim, desse mesmo jeito, nesse mesmo instante. Suspirou. Ai.
Lia lia. Lia algumas histórias.
Histórias de suas histórias, e estavam repetidas.
O rosto vermelho achou graça, e sorriu sozinha.
Viu que não era um trava-língua, era um trava-alma.
Sua cabeça era mar de ressaca.
No meio da ondas salgadas, tinha doce, tinha amargo.
Amargo de pergunta, amargo de vazio, amargo.
O trago rasgou, e tudo derramou num ciclo.
De novo os joelhos contra o peito, cabeça de ressaca coberta.
E lá fora, a manhã.
Amanhã.

Jordana Machado

Written by

Frases curtas.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade