[DOMINGO]
Cigarro, telefone, metalinguística.
Domingo.
A rede ainda faz o mesmo barulho, mas decidiu sentar ali por lhe parecer naquele momento o lugar mais compreensivo da casa.
Dali viu seu gato adormecer sobre seu tênis branco.
Pensou em acordá-lo só que estava sensível e a imagem deixou-a tão enternecida que optou por deixar pra lá.
Alguém tinha de dormir e o tênis já não estava branco há muito tempo.
Lembrou das cervejas que restaram do almoço.
Percebeu que o maço de cigarros estava no fim.
Sua melhor amiga de certo apareceria mais tarde.
E este telefonema somado às cervejas na geladeira resultou numa saída forçada.
Colocou o jeans puído, sua camisa vermelha e foi.
Saiu pra comprar cigarros com passos longos e apressados.
Sentiu-se ameaçada com os faróis dos carros ofuscando sua visão.
Estava próxima a calçada e conseguiu reparar, os carros vinham vacilantes, passavam a poucos centímetros. Imaginou que o motivo seria um buraco, uma pedra, ou algo assim. Já que a possibilidade de um atropelamento intencional lhe pareceu improvável. Mas possível. Nunca se sabe.
E o garoto foi chutando a bola, lado á lado, até a metade do caminho.
Como se implorasse um amigo pra brincar.
Diante da indiferença ele desiste. Todo mundo desiste.
Ir até a padaria, antes enfadonha precisão, ainda mais em um domingo, agora lhe parece cheio de detalhes.
E foi indo. Com algumas coisas na cabeça.
Em escrever sobre outra pessoa, algo menos biográfico.
Até mais metalinguístico, pra falar de suas palavras e esquecer-se.
Redirecionar o foco.
Colocar em prática o que sempre pregara: olhar por outra perspectiva, enxergar o lado luminoso.
E no retorno, em quinze minutos, tudo já tinha mudado.
Os carros não passaram, e o menino, agora batia na bola com uma das mãos.
Voltou e desejou que aquele canto trouxesse novamente a inspiração antes que o sono chegasse primeiro.
Os braços doloridos por conta da entrega e a ansiedade de ser melhor fazia com que as canetas parecessem pesadas, compridas demais.
Azuis demais.
E tudo o que achou que tinha pra escrever suspendeu-se num olhar vago quando, loucamente, passionalmente, pensou que escrever com aquela caneta em especial pudesse levá-la de volta pra lá.
Acende um cigarro e espera o telefonema de sua amiga.
Amando-a e punindo-a em pensamento quando não lhe chega aos ouvidos o que que escutar o coração.
Se envergonha, pega o telefone e disca o número dela.
