[HISTÓRIAS DE AMOR PARA SUAVIZAR (OU NÃO) A SEGUNDA-FEIRA]

Eu e você, tudo novo de novo.

[Ilustração: Egon Schiele]

Favor ler ouvindo ‘Ainda resta uma bagagem’ do Katinguelê.

Toda vez que escuto histórias de amor eu ganho/faço gorós, cigarros e comida.
Vocês querem saber o que é o amor?
O amor, meus caros, o amor é um pagode dos anos 90, uma roda, e tudo depende de qual mesa você senta ou de quem senta na sua mesa.

O esquecimento do nome dos filmes, dos textos, dos autores, conceitos, trajetos, receitas, de regar as plantas, estender as roupas e de tirar o celular do silencioso; tem também as músicas, as datas, a página em que se parou, quantas colheres de sal, o dia da menstruação, aonde está a calça preferida. Isso tudo é feito mesmo para esquecer. Agora lembrança, lembrar é outro negócio.

A lembrança das primeiras fotografias, Fotoblog, Felipe Dylon, noites na calçada, os amigos em comum que se foram e os que ainda estão toda sexta comendo lanche com a gente nos mesmos lugares, crescemos juntos, corpos mudaram, se tocaram, todos estes anos, meu peso ia e voltava, suas roupas permaneciam, nossos caminhos passearam, bagunça, risada engraçada, comida no delivery, cadê minhas meias, chegou o sofá cinza, as xícaras novas, a gente gasta quase 500 reais por mês só de cigarro, nenhum de nós dois começa o dia sem café, vem visitar a gente logo, nossas primeiras visitas, olha essa vista, bate um retrato, Instagram, tudo novo de novo, eu e você.

A lembrança da adolescência, segredos, frio na barriga, sul, sudeste, famílias, internet, reencontro, polêmicas, cafés com ovos, panos de prato, chocolates, corujas, tatuagens, estradas, desliga você primeiro, ah não desliga você primeiro, vamos ficar conversando até as três da manhã, eu estou tão louca de amor que ando esquecendo tudo e quebrando ou deixando cair tudo o que me aparece nas mãos, esses dias até eu mesma caí no chão do banheiro, você sabe que a gente nunca faria nada que te prejudicasse, você tem dois anos pra ajeitar sua vida, pode vir que eu te busco, me busca que eu estou indo, tudo novo de novo, eu e você.

A lembrança do não permitido e do não assumido, aquele bar, nossos amigos, a bela, a fera, ela é um amorzinho ela, ela é uma escrota ela, a gente queria saber o que estava acontecendo, a gente queria entender que era real, a gente te ama, estamos com saudades e chega de brigas, ela é linda né, crescimentos, afastamentos, não liga pra gente nesse horário porque a gente vai estar transando, aulas passadas, eu ia tatuar aquele seu desenho, você salvou a minha vida, vamos fugir prum outro lugar baby, tudo novo de novo, eu e você.

A lembrança daquele churrasco, você nem olhou pra mim, se eu soubesse “casava com outro se fosse capaz, te abandonava prostrado aos meus pés, fugia nos braços de um outro rapaz”, beijo com Halls, futebol, música, dança, faculdade, você tem que entender que sagitarianos são assim mesmo, eu vivo com um aquariano há mais de 10 anos e vocês são um poço sem fim, eu não acredito que você deu um soco no cara, para de ficar me vigiando, se eu soubesse “não caia na tua conversa mole outra vez, não dava mole à tua pessoa, mas acontece que eu sorri para ti”, meu espaço, seu espaço, nossa casa, nosso filho, nosso cabo de guerra zodiacal de amor, a corda estica e não arrebenta, puxamos, damos a volta, nosso enlace, tudo novo de novo, eu e você.