[LICENÇA, DRUMMOND]

Saudoso mineiro, tome aí e me dê cá.

[Arquivo Pessoal]

Não posso mais deixar o reino das palavras que, há tempos, surdamente, penetrei.
Não posso mais deixar de me contar.
Assim como Drummond passou, passo longas horas pensando em versos que não querem ser escritos, ou que talvez não possam.
Também sinto que a poesia contida neles, ainda que inconclusa, invade minha vida inteira.
Também. Palavra que iguala.
Parcialmente ou totalmente.
Também já fizera estrofes sobre acontecimentos.
Também já revelara meus sentimentos, uma ou outra nudez.
Algumas distribuo à quem acho que convém, outras guardo em pastas, outras no pensamento, outras no coração.
Pra quem sabe assim desvendar essa coisa oculta e teimosa que guardo no peito.
Minhas audácias de gente grande não parecem tão grandes, tão dignas, perto dos meus medos de menina.
Minha severa alma vive num jogo de interrogações.
E se calar se torna uma hipótese impossível, feia.
Na contemplação de um mundo enorme, que às vezes me parece parado, sem nenhum medo chego mais perto e contemplo as palavras.
Cada uma com suas mil faces, intenções, emoções, segredos.
E um ardor também me sobe à face, não apenas no instante em que a caneta beija o papel em branco, mas sim no decorrer de todo o ato.
E o ardor é sempre pego em flagrante, rápido.
Manchando diariamente meu rosto branco.
Pretensão ou não, sinto minhas palavras. São uma extensão de mim.
Não nascem amarradas, pois são elas que fazem seu próprio tempo.
E quando bem querem saltam, se beijam, se dissolvem.
Puras, largas, autênticas, indevassáveis.
Como deveriam ser as palavras de todo poeta.
Às vezes nada ouço. 
É inevitável a fuga de um mundo em que já não há tantas mãos dadas, mas muitas mercadorias à espreita.
Mesmo com muitas portas e janelas se fechando, elas fluem. 
As palavras.
Encontrando o tom saem justas.
A expressão incomparável e insubstituível.
Nem mais, nem menos.
E se os poetas imaturos costumam imitar; e se os poetas maduros costumam roubar; e se os maus poetas costumam desfigurar e avacalhar o que roubam; e se os bons poetas costumam tornar diferente ou até melhor tudo o que roubam, te peço perdão magnânimo Drummond, por esse voluntário assalto a mão desarmada.
Te faço tranquilo pois, pretensão tenho, mas não a de ser melhor que tu. Brasileiríssimo de Minas Gerais.
Te peço licença tardia pra lhe tornar, com minhas palavras e sentimentos, um tanto inusitado.
Pra lhe dar um pouco de Jordana, pra que eu possa absorver um pouco de ti.
Saudoso,
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE