[O MENINO QUE NÃO SABIA ANDAR DE BICICLETA]

Os moleques da minha rua, eu, e as magrelas.

Sabadão, e no céu arde um sol das sete mil bestas do apocalipse.

Sento na laje da minha casa, abro uma cerveja e fico olhando meus pés.

Me sinto feliz por eles estarem usando esses chinelos depois de uma semana inteira socados dentro de um tênis.

Me sinto triste por não poder usar as camisetas do meu time aonde eu trabalho.

Me lembro que preciso comprar camisetas novas.

Acho que talvez eu seja reconhecido nas ruas pelas camisetas que uso.

Elas geralmente expressam coisas que gosto e acredito.

Também tenho uma camisa xadrez em tons de terra e laranja.

Está sempre amassada, mas talvez me deixe com uma aparência mais séria, mesmo que eu não tenha essa pretensão.

Quase sempre acordo atrasado, e sou tão ansioso que só o receio de estar atrasado já me faz sentir a sensação que se tem quando se está atrasado, mesmo que na ocasião eu não esteja. Ainda.

Saio meio cambaleante pelo quarto, pensando em coisas aleatórias e desconexas, vasculho os móveis em busca de roupas que nunca estão nos locais e nas condições que imagino. E quando estou de fato atrasado, as camisetas que aparecem geralmente são as que não posso usar.

Procuro meu relógio, que acaba sendo parte do meu material de trabalho, e lembro mais uma vez que ele está na casa dela.

Acordar cedo e sair pra trabalhar faz as pessoas acharem que eu sou um cara sério.

Às vezes até eu acredito nisso, mas é por pouco tempo, porque eu sempre acabo falando alguma coisa imprópria para o momento, ou então alguém acaba entendendo errado algo que eu disse.

Na maior parte do tempo eu não entendo muito bem o que as pessoas estão dizendo, e quando me convém eu finjo que não entendi mesmo tendo entendido.

Pode ser que a minha barba também me deixe um cara sério.

Ela precisa estar do tamanho exato, de modo que não me deixe com uma cara de quem começou a ter barbas semana passada.

Meus pés, chinelos e roupas deixam as pessoas inseguras quando entro em algumas lojas.

Eu poderia mijar no chão dessa loja, mas estou de bom humor e apenas ignoro a situação.

Percebo que o sol quente começa a fritar a minha mente.

Começo a lembrar de coisas da infância.

A nossa cabeça é assim, lembra de coisas que não quer lembrar e esquece coisas que não pode esquecer.

Tenho dificuldade em entender essas coisas, sou muito objetivo, minha área é datas, acontecimentos e locais.

Sou levado de volta pra essa mesma rua de anos atrás.

O dia poderia ser até um dia como agora, um fim de semana de verão.

Se bem que não havia dia certo pra molecada, todo dia era dia de sair por aí.

Sentado na calçada eu ficava olhando o jeito que eles usavam os chinelos.

Alguns usavam números muito maiores ou menores do que o adequado; outros estavam com pares diferentes; outros tinham pregos na sola.

Chinelos serviam como luvas de goleiro imaginárias.

Chinelos serviam para demarcar o espaço aonde a bola deveria entrar pra marcar um gol.

Se alguém deixasse eles virados de cabeça pra baixo a preocupação com a mãe era generalizada.

Quando algo dava errado a gente também usava estes chinelos pra dar na cara um do outro.

Mas a coisa que mais me impressionava era a maneira que os moleques usavam os chinelos para frear suas bicicletas.

Desciam as ladeiras, rindo, chamando um ao outro, gritando palavrões, era o jeito deles.

Eles não tem vídeo-game, às vezes nem televisão.

Era o que uma música diria deles alguns anos depois.

Às vezes iam raspando o chinelo no chão, às vezes colocavam uma das pernas pra trás e encostavam os pés na roda traseira.

Teve uma época que era moda colocar uma bola de tênis nos aros.

Teve uma época que era moda prender uma tampa de margarina com prendedor de roupa nestes mesmos aros.

Fazia um barulho às vezes ridículo, às vezes irritante.

Depois que cresceram, o lugar das bicicletas foi tomado por bicicletas tunadas, mobiletes ou motos.

À medida que os moleques cresciam, parece que também crescia a vontade de que o vento chegasse mais rápido nos seus rostos.

Assim como também crescia a vontade de continuar fazendo barulhos irritantes com suas duas rodas.

Eu nunca senti esse vento no rosto.

Meu pai nunca me ensinou a andar de bicicleta.

Carreguei essa mágoa por muito tempo.

Acho que alguns dos moleques nem sabiam que eu não sabia andar de bicicleta.

Eu escondia isso deles.

Eu escondia isso de mim mesmo.

Agora estou aqui olhando para os meus pés, imaginando que talvez eles fossem diferentes hoje em dia se eu tivesse perdido o tampão de algum dedo ao menos uma vez.

Esse dia foi assustador e engraçado. Enquanto as clássicas freadas com o pé eram realizadas, o tampão do dedo de um dos moleques se desgrudou do seu local de origem como que em câmera lenta. Foi sangue pra todo lado, a rua ficou parecendo uma cena de filme do Tarantino.

Será que eu teria mais agilidade nas pernas se eu tivesse andado de bicicleta?

Esses dias me falaram que meu jeito de andar é meio simpático e meio engraçado. Fiquei pensativo sobre isso, pode ser que tenha alguma coisa a ver com o fato de eu nunca ter andando de bicicleta, vai saber.

Será que se eu tivesse sentido esse vento no rosto eu teria aprendido que o vento das coisas possui muitas direções que nem sempre vamos compreender? Ou será que eu compreenderia melhor essas rotas?

Será que se meu pai tivesse me ensinado a andar de bicicleta eu teria aprendido mais cedo que a maioria das coisas não se aprende sozinho?

Será que se eu tivesse aprendido a andar de bicicleta eu teria aprendido mais cedo que para movimentar é preciso equilíbrio, disposição e treino, como a maioria das coisas na vida?

Será que se eu tivesse aprendido a andar de bicicleta eu teria aprendido a saber a hora de começar e terminar as coisas?

Será que se eu tivesse aprendido a andar de bicicleta eu teria aprendido aonde ir, o que fazer, e como fazer, que nem os moleques sempre pareciam saber?

Será que se eu tivesse aprendido a andar de bicicleta a minha relação com o meu pai teria sido outra?

Eu não pretendo ter filhos, mas se um dia acontecer, eu vou dar um jeito de ensiná-los a andar de bicicleta.

Esses dias eu ensinei um menino a ler.

Talvez eu tenha sido um rolê de bicicleta pra ele.

Quem eu seria hoje se tivesse aprendido a andar de bicicleta?

Quem era o meu pai?

Por onde meu pai esteve?

Aonde está meu pai?

Quem eu sou?

[barulho de lata de cerveja abrindo]