[PARA MAYARA AMARAL]

Será que vai dá tempo?

Observava as próprias mãos debaixo do sol. Olhava cada linha de pele e carne. Traçados que se cruzavam e iam dar em lugar nenhum. Alguns pareciam quadrados com a letra xis no meio, como se o dna tivesse ticado a marca de tudo que começa e de tudo que termina. Quantas histórias cabem dentro dos anos. Imaginou as mãos ensanguentadas. Quanto sangue havia dentro delas. As nossas mãos estão sujas de quantos e quais sangues? Quanto tempo mais vai demorar pra minha pele enrugar? Será que vai dar tempo? Será que alguém vai se sujar com o meu sangue? Eu saía de casa pra fazer um som, mas nessa noite o barulho do martelo foi mais alto que os acordes do meu violão. Será que deu tempo de tocar aquela que era a minha preferida? Alguém que eu conhecia me matou. Eu esperava mais de alguém que conhecia há tanto tempo. A gente nunca espera isso ou aquilo de alguém que imaginamos conhecer. ‘A mão que afaga é a mesma que apedreja.’ Até quando nosso sangue vai correr? Até quando nosso sangue vai escorrer? Será que vai dar tempo?

Para Mayara Amaral, 27 anos, professora, pesquisadora e musicista, assassinada por um amigo com golpes de martelo e carbonizada, mais uma vítima do feminicídio no Brasil.