[PARA UMA AMIGA QUE PERDI]

Até mais tarde.

[Ilustração: fonte desconhecida]

A despedida lhe retirou um pedaço.
Um grande pedaço.
Aquele espaço pulsava. Reservado, envolto por uma fita de cetim.
A mulher de sua vida se fora quando ela era ainda menina.
Ainda menina, aprende todos os dias o que é ser gente grande.
Algumas coisas se foram. Sua mãe, alguns sentimentos, alguns momentos.
E outras nem chegaram. Estocolmo, diploma, um grande amor.
Mas existe música, açúcar, afeto.
Como menina, caminha sutilmente por inseguranças, descobertas, sonhos.
Em um momento quer, depois já não tem certeza.
Será que é bom? Será a hora?
Desvendando os caminhos, pessoas.
Será por aqui? Será ele?
Construindo, arrumando, ajeitando.
Será isso? Será ali? Ou lá?
Como mulher, traça equilíbrio nos conflitos, surpresas, dificuldades.
Entendendo que as retas ás vezes tornam-se curvas. 
Mas que tudo é adaptável.
A menina saltitando entre o se conhecer e o conhecer o próximo.
Aprendendo as delícias e as dores de se ter um coração cravado no meio do peito.
Encontra e se desencontra. Coisas pra sempre lembradas. 
Muitos risos, lágrimas, abraços, afagos e calor.
A mulher se mantém firme e leal aos seus. 
Caminhando todos por um mesmo tom, seja em meio a flores e aromas, seja em meio a raios e garoa.
A menina experimenta e tateia tudo ao seu redor, com doses de sorrisos e leveza.
A mulher deixa suas pegadas de dedicação.
Entre textos, questões, letras e números, semeia seus planos com confiança.
A menina, faceiramente distribui seus encantos. Desejando e despertando desejos.
A mulher, responsavelmente não se esquece onde cada passo deve pousar.
Acostumada aos sons, refrãos, acordes.
Criada entre notas, letras, instrumentos.
Apaixonada por batuques e badulaques.
A noite e a lua se encontram, e em frente ao espelho, ela balbucia uma canção.
Com as unhas pintadas, coloca as argolas pratas, escova os cabelos e se perfuma.
Arremata o decote sugestivo, calça as sandálias e colore suas maças com carmim.
Lá está ele.
O samba.
Até mais tarde.