[PRA SEMPRE]
Tcháu, pai.
Após uma pergunta típica de cumprimento, veio uma resposta negativa.
Respostas que surpreendem até os mais sinceros.
De imediato, se colocar no lugar do outro nos tira da imbecilidade da surpresa, e nos remete ao próximo. Desenhando em nosso rosto algo rijo e em nossos braços, um abraço que será ofertado.
Antes do caminho, uma parada rápida para que outros se juntem.
Todos à postos. Indo onde não desejam. Preparando-se para ver o quê e quem não querem. Não desse jeito, não por esse motivo, não agora. Não, nunca.
Com passos curtos e arrastados, o trajeto se inicia.
Uns mais a frente, outros atrás.
Poucas esquinas depois, o lugar propositalmente quase isolado se apresenta.
Os passos perdem velocidade e todos observam. Calados, pensando.
Muro branco, grama, flores, carros.
Todos sabem onde estão, e acima de tudo o porquê estão.
Mesmo assim, em letras bem maiores que o necessário, o estabelecimento é grafado com a palavra saudade.
Um nome que soa ligeiramente irônico.
Sob o terreno cheio de ondulações, moram muitas histórias.
Sob o terreno verde, moram as saudades de muita gente.
Sobre cada lápide, o nome de seus protagonistas.
O lugar obedece a sua jurisdição, seu espaço, mas lá dentro tudo parece infinito.
Os grandes portões estão abertos, e ao subir a rampa já é possível sentir o cheiro das lágrimas, da dor. Da saudade.
Tudo aparentemente asséptico. Paredes brancas e janela cinza, caracterizando e dando força a ideia de vazio, de frio. De fim.
Muitos rostos sérios e amassados. Rostos conhecidos e outros desconhecidos.
Algumas flores, poucos bancos e nenhum ar. Tudo se solidifica com o correr dos ponteiros.
Pessoas. Algumas conversam baixo, outras se calam e outras se apóiam. Ou tentam se apoiar nas próprias pernas, esforçando-se para esticar seus ligamentos.
Pessoas. A maioria está em pé, mas mesmo em meio a um turbilhão de pensamentos e sentimentos de diversos tipos, é impossível não se imaginar ali. Deitada (o). Pra sempre.
E o pra sempre, dessa vez, não é como nos filmes de amor ou nas amizades da escola.
O pra sempre, dessa vez, é pra valer. O pra sempre mais pra sempre de todos.
E a cada tentativa de respiração sua cabeça devaneava de um canto ao outro, misturando aos poucos o tudo e o nada. O agora, o ontem e o após.
Desenlaçamos o abraço e os braços. Pousei-lhe um beijo no canto esquerdo do rosto, enquanto a mão direita, quente, deslizava no canto direito e descia até o peito.
Desajeitadamente subi o olhar, que permaneceu no dele três segundos ou menos.
Não agüentei.
Aqueles olhos inchados, as maças do rosto que transpiravam e as narinas vermelhas.
Mal o reconheci.
As pernas bambearam, mas acabaram por me levar onde as ordenei.
Sutilmente lhe dei as costas e caminhei em direção a porta de vidro, que receei não enxergar a tempo.
Sentei-me e não esperei muito tempo.
A massa de dor começara a se locomover em uma só direção.
O cortejo tivera início, obedecendo à ordem natural da intimidade: familiares na frente, amigos no meio, conhecidos e afins logo atrás. E bem lá atrás, talvez algum curioso.
Todos andavam vagarosamente. Mas ali, o tempo já não fazia sentido, tudo já tinha acontecido rápido demais. Essa é umas das sensações que se experimenta.
Agora tudo era uma coisa só, tudo se misturava. As feições inchadas com os soluços, as pessoas que conversavam baixo com as que se abraçavam, e as que se apoiavam ainda tentavam continuar nessa ação.
Em uníssono, uma canção foi entoada com volume mediano, e foi diminuindo após a repetição de algumas estrofes.
A canção era famosa entre os presentes, tocava em diversas rádios. Ficaria marcada.
As vozes emudeceram, e os funcionários realizavam seu trabalho de uma forma automática e produziam um som desagradável.
Barulho de concreto.
Uns perto, outros distantes. Em um emaranhado de pensamentos, as pessoas se despediam.
Uma esposa despedia-se de seu esposo.
Um filho de seu pai.
Eu me despedi dele com uma rápida troca de olhar, que eu não ousaria aqui descrever, nem tão pouco classificar.
O caminho de volta pra casa foi mais rápido.
As dores do mundo
“E essa noite eu sonhei tanto com ele.”
