Às vezes ficar sozinha é o bastante.

O tempo todo, na verdade.

Eu amo pessoas. Eu amo minha família, meus amigos… mas meu interior é um lugar onde vivo sozinha e é aqui que eu renovo minhas nascentes que nunca secam. — Pearl S. Buck

Eu (finalmente) calei a multidão enlouquecida para me sentir em paz.

Eu precisava estar 100% consciente sobre mim mesma. Andei tão desconcentrada e apressada esses últimos anos, em um entra e sai de circunstâncias e relacionamentos opressivos, que só liberando um espaço na minha cabeça podia corrigir esse comportamento afobado.

Uma pausa do mundo que se encontra depois do meu portão.

Hoje piso em solo mais firme e finalmente sou capaz de me defender sozinha.

A ansiedade, o medo e a agradável sensação de não sair do lugar me impediram de concluir progressos e projetos pessoais.

E por muito tempo pensei e repensei sobre onde eu poderia estar se tivesse feito isso e aquilo, ido lá e acolá. Um ansioso ruminando sobre suas atitudes atrai só notícia ruim.

Eu ainda tenho desejos materiais (preciso comprar um tênis), acontece que enquanto não tenho um novo par de pisantes, vou ganhando mais quilômetros com os velhos. Não tenho uma necessidade insuportável de realizar nada além do meu encontro com Cecília Meireles e uma xícara de chá hoje à tarde (de hortelã, para gastrite).

É fácil desvalorizar nossa intuição quando estamos distraídos pelos anúncios e programas na TV, pelos artigos compartilhados nas redes sociais e pelos amigos.

Eu não compartilho online o que está rolando comigo. Se alguém quiser saber de mim, os que me valorizam têm meu endereço.

E, nessa troca de palavras, falarei nada mais que o necessário.

“Estou com ingressos para essa apresentação, vamos comigo?”

Eu sou fã de arte mas sempre temi ir à peças e shows sozinha. Se eu precisasse ir ao banheiro e ao voltar houvesse alguém no meu lugar? E se me julgarem por ter ido sem acompanhante? Quando eu tiver fome, como chamar o vendedor e levar na boa a ignorada? Eu falo muito baixo! Vai que eu levanto a voz e vem a recriminação?

Tão deslocada!

Decidir ir ao cinema. Me envolvi com o sentimento de estar a vontade, no meu tempo, em um silêncio abençoado, sem conversas aleatórias.

Eu quero saber o que é ter um compromisso comigo e com ninguém mais. E, acima disso, não quero narrar meu dia no final dele.

Acabados estão os dias de uma desesperada aceitação de tudo e todos.

O que essa vontade quer me contar? Vou aprender novas habilidades, com a intenção de entreter somente a mim. Como balancear momentos isolada, tão ricos, com os encontros em festas e bares? Ela [a vontade] me permite ir ao cinema e assistir um filme com crianças e participar da risada coletiva. Minha cabeça está livre de pensamentos sobre o que devo fazer já que os outros também fazem. O desapego das mensagens virtuais, por exemplo, me dá tempo livre. De uma coisa tenho certeza — não há nenhum momento de solitude que negarei a essa vontade.

Eu quero estar em paz comigo. Em paz com os outros e sozinha.

Segundo minha mãe,

Devagar e sempre.

Devagar, pois é preciso raciocinar com sobriedade já que a vida é um carretel de escolhas.