Uma vez malucos, sempre irmãos.

Edu me entrega a pipa e paga ao ambulante. Posiciono ela acima da minha cabeça. No céu azul, o sol brilha corajosamente e o vento, fresco e salgado, está favorável. Naquele ponto da praia também posso ver a janela do seu apartamento, com uns adesivos maneiros: o do Red Hot se destaca pelo tamanho. Então meu irmão se afasta correndo e quando já está distante eu solto a pipa. Ele dá puxões fortes e ela sobe cada vez mais. Suas bochechas estão rosadas, resultado da nossa caminhada matinal. Sorrio para seu entusiasmo. Descobri esse hábito fitness do Edu logo no início, e desde então tinha uma rotina nas minhas férias. Na primeira vez acordei grogue, um jet lag vertiginoso. São 6 da manhã, disse para eu me situar, hora de aventura. E me jogou uma barrinha de proteína com nome impossível de se pronunciar.

Papo sério, eu gosto dessas manhãs. Gosto do nervoso riscando as paredes da minha cabeça e do alívio que sinto quando Edu desliga o liquidificador. Então me empurra o copo cheio da mistura verde. Bebo, sinto o sabor da couve e comento retóricas assim “Uma lagarta passa bem, né”. Em sua cozinha abastecida com suplementos, dois irmãos bobos riem do solilóquio.

Um latido me traz de volta e percebo que a areia quente cobriu metade dos meus pés.

Por um segundo penso em comer aquela areia fofa e branquinha. Toda aquela caminhada tinha me dado fome. Ando até o quiosque e peço um copo com água para Hermione se hidratar e uma salada de frutas. Vou sentir falta disso também quando voltar para casa. Moro com meus pais então o horário de almoço era sagrado — nada de doce uma hora antes. Penso no meu irmão e como deve ser bom morar sozinho… E agora lá estava ele, a poucas semanas de seu próprio casamento. A sua cozinha de marombeiro ia ganhar traços femininos, penso e dou uma colherada na salada. Panos de prato decorados com crochê, essas coisas.

Olha só, eu adoro a minha cunhada. Ela me conta ótimas piadas e sempre dá bronca no Edu quando ele me interrompe. Eu estou usando um short que, aliás, ela escolheu, explicando que combinava com minha cor de pele. Sei que ela o ama e me agradar é uma forma de pedir licença, eu estou roubando seu irmão. Mas sei que ela é a garota certa. Simples. As pequenas coisas, sabe. Só que, de berço, mamãe e eu somos seus únicos amores. Mamãe botou a mão nas fraldas sujas e anos depois correu com ele ao pronto socorro, um braço quebrado (e um skate que nunca mais rolaria no asfalto). O amor de mãe é incondicional, insubstituível. Isso era inerente à existência dela. Já que mamãe estava ocupada com a loja de roupas, me aconselhou a passar um tempo com meu irmão, uma espécie de despedida da irmã mais nova.

Eu cheguei ao famoso marco. Todo mundo tem um e casar meu irmão com Beatriz era o meu primeiro. Um ponto final na minha infância em árvores a procurar frutas, encenar a fusão do DragonBall, amassar pães de queijo que queimavam a língua, correr na terra: e, cara, corríamos mais que qualquer um no bairro. Ganhamos campeonatos, e o prêmio: as mães em paz por ninguém ter se esfolado-chama-a-ambulância, serviam uma mesa com cocadas, balas e salgadinhos. A turma sentava e comia, ríamos até dar o toque de recolher. No dia seguinte, escola, e a gente ia comparando os arranhões nos joelhos. O melhor dos tempos.

Era normal eu me sentir nostálgica.

Hermione corre pelo calçadão e joga areia para o alto ao pular. Meu irmão me chama e aceno. A pipa está agora em suas mãos. Vou até os dois pisando na areia como em nuvem. Após a buldogue ganhar uma dose de afeto, eu o abraço. Seus braços me apertam e ele faz grunhidos de brincadeira e por qual motivo continuo com aversão ao futuro? Casado ou com filhos, aos 15 ou aos 60, Edu e eu seremos aquelas crianças correndo atrás de pipas para sempre. Interpretando nossos heróis de GMG à DBZ. Ninguém no mundo subtrai ou ocupa meu lugar. E mais alguém, convenhamos, é mais diversão.

Edu percebe que estou distraída. Para ter minha atenção me faz cócegas, me contorço, ele ri, eu choro de rir, jogo areia, Hermione late com entusiasmo, e por fim peço clemência.

Vou pedir pizza lá em casa, diz meu irmão mais velho. Bora apostar corrida?


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