Finitude

Eu varri a casa (enquanto ela tratava com nosso raciocínio) que era pra eu não me preocupar quando ela chegasse. Eu devo ter desapontado ela, pois ultimamente a vejo observando ininterruptamente o céu. Azul ou noturno.

Não quero que ela se irrite comigo. Não, não. Dói muito saber que não estou realizando as tarefas de forma tão eficiente como antes, quando nós dois éramos jovens. Dói saber disso também... Não estamos tão velhos, sabe? E mesmo assim tem um cansaço acabando com a gente. Com a nossa concentração. Com a nossa memória. Com a nossa coordenação motora. Às vezes a vejo se certificando se o lado esquerdo é o esquerdo mesmo.

Ela chamou de Blackout e eu inseri no nosso dicionário, com nosso significado. São esses pequenos detalhes que torna tudo muito difícil. Por exemplo, explicar às pessoas por quais motivos ela esqueceu de fazer algo, ou não participou de uma aula que ela gosta muito, lá na faculdade.

Faculdade.

É!! Minha menina conseguiu entrar. Apesar de todos os blackouts e crises ela surpreendeu a si mesma. Eu meio que confiava que ia dar certo... Mas ela conseguia me deixar pensativo. O pessimismo é contagioso, forte.

Ela não fez por mal, no entanto. Quando o pessimismo vem, ele vem na ponta dos pés, te apega durante um bocejo seu, que seus olhos nem veem a chegada.

E quando abate, paf! Dói, sabe.

Mas, voltando... Ela chegou. Ufa, a casa estava limpa. Já era hora dela dormir. Ela dormindo eu fazia meu trabalho secundário. Eu criava alguns sonhos pra estimular a minha pequena. Alguns traços do pessimismo infelizmente viraram parte das minhas fiações nervosas, só que eu acabo com os pesadelos que ele cria rapidinho. Pessimismo besta.

Ela dorme. Dorme tranquila. Está um pouco aflita com a prova de amanhã, mas eu posso encontrar por aqui informações da matéria. Ela vai se lembrar, espero! Ela vai conseguir. Eu gosto muito dela. Me é muito agradável ser a Sua consciência.

Boa noite, minha pequena. 
A gente se fala de manhã,

Sua consciência.


Artwork by ricardilus (Instagram)