Respira fundo, papai.

Chegamos na maternidade com tempo de sobra. Mas Nando desceu do carro, afobado, tropeçando nos próprios pés, sem tirar a chave da ignição. Eu concentrada na minha respiração de cachorrinho, suando em bicas, puxei o chaveiro do Senhor Batata e abri minha porta.

Pobre Nando. Seu desespero valia por dois.

Meu marido era o rapaz correto, aquele tipo que não suportava ver alguém em pé no metrô que sempre dava o lugar. Sereno, um torcedor do Atlético fanático, mas em bares se mantinha de braços cruzados enquanto os amigos pulavam pelos jogadores. Contudo, desde o começo da minha gravidez, ele entrou no modo ansioso, na expectativa de que o pior fosse acontecer comigo ou com nossa filha. Desci do carro e olhei o vinco de preocupação entre suas sobrancelhas. Já tinha me acostumado com sua nova testa. Ele segurava algo e só então percebi que era a chuva que tinha abrandado o calor da estação. Nando pegou a bolsa do bebê no meu banco, com um gesto decidido e abriu o guarda chuva sobre nós, o vinco se aprofundando.

Queria dizer “Meu amor, você está sendo um bobo. A bebê e eu somos saudáveis. Fica sussa, pelamordedeus.” Mas não funcionou nas 489 tentativas passadas, a 490 não seria sortuda.

Entortei meu corpo, caminhando como uma corcunda inchada até a porta do hospital. A movimentação frenética ao meu redor começou quando demos baixa na recepção e me desliguei daquela loucura assim que estava segura na cadeira de rodas.

Eu estive preocupada com Nando desde o instante em que mostrei a barra positiva para ele, mas apesar de ter ficado tão alegre, sua paranóia não demorou a vir. É verdade que foram nove meses dignos de piadas para o resto das nossas vidas, claro. A lembrança com a qual me identifiquei enquanto me estendiam na cama, em um lençol frio, tinha ocorrido há poucas semanas. Antes da bolsa estourar, eu já sentia as dores que meu corpo naturalmente produzia em meu ventre como um alerta. Elas tinham um nome esquisito e eu não me recordava agora.

Naquela vez, era dia de clássico na TV (Nando há meses deixou de ir ao Mineirão com os amigos) e eu comia sua especialidade: pipoca amanteigada. Começou como uma cólica menstrual, me deixando assustada, mas me lembrei do livro O que esperar quando se está esperando e o que eram aquelas contrações. Mantive a calma, para evitar a cena, mas me contorci, foi inevitável. Isso não passou despercebido e Nando pulou para o meu lado. Já é hora?, perguntou. Quando eu o fiz compreender, Nando já tinha perdido o interesse pelo jogo e mudou de canal. Passamos o domingo assistindo Discovery Kids.

Na sala da maternidade, Nando se sentou na poltrona, claramente exausto, mas manteve o olhar sobre mim. O Doutor Mendonça enquanto isso me examinou e deu uma gargalhada despreocupada, me parabenizando por já estar com dez centímetros e logo foi chamando os enfermeiros. Em poucos minutos eu estava com as pernas para cima e fazendo uma força descomunal. A dor no meu ventre correu por todo meu corpo e foi, bom, horrorosa.

Mas eu tinha conseguido. Quando ela finalmente escapou de sua morada quentinha e gosmenta eu perdi todo o peso nos ombros, fiquei leve como uma pluma. Nando percebeu que eu estava fraca então com um gesto delicado ajustou meus braços e de repente eu tinha minha Lara neles, a ninando.

Cantei baixinho para ela uma melodia que nem eu tinha escutado antes. Seu rostinho era pouco menor que minha mão pequena aberta, suas pálpebras tentavam se erguer, sua boca era pequenina. Veio de lá um bocejo gostoso que me acalmou o suficiente para toda a eternidade.

Senti Nando se aproximar e me esforcei para tirar a atenção dela. Nos olhos do meu marido, consegui me lembrar porque tinha me apaixonado por aquele atleticano.

Seu rosto estava limpo e hipnotizado. De seus lábios, tão iguais ao da filha, saiu uma risada emocionada.

Ele estava se livrando de uma vez de toda a agonia. Nos abraçou, fungando, em seu aperto seguro e amoroso.