Universos de quatro paredes

Qual é o critério que você usa para deixar ou não uma pessoa entrar no seu quarto? Depois de ter feito muitas visitas em casas de pessoas diferentes, percebi que algumas são mais de boa, já outras são mais fechadas. Acredito que a intimidade é o fator principal e necessário que funciona como um passaporte de entrada para os quartos alheios. Existe todo tipo de quarto porque existe todo tipo de pessoa. O quarto é um cômodo manchado de personalidade, é no seu quarto que de vez em quando você se rasga e sangra personalidade. Ela se acumula ali, de várias maneiras. Quadros pendurados, poemas escritos nas paredes, roupas jogadas pelo chão, livros, fones, bonés, celulares, carteiras, chaves, calendários, tudo sobre uma escrivaninha. O guarda- roupa, aberto ou não, a cama feita ou não. Um violão, um amplificador, tênis e chinelos no canto.

A minha situação é bem tranquila, eu nunca me peguei barrando alguém de entrar no meu quarto. Nunca me preocupei com isso e quando me preocupava já podia saber que o incômodo de pessoa não era legal. Observei também as recepções feitas. O quarto dos meus mais próximos eu já sei de cor. Também já aconteceu de eu ter entrado no quarto da pessoa sem ela saber. Não resisti. Entrar no quarto de alguém é como entrar na cabeça daquela pessoa. Queria saber mais sobre e lá fui eu, pisando em ovos, adentrando um território totalmente novo. Foi um passeio rápido, não estava autorizado, além de olhar toda hora para a porta, caso viesse alguém. A profecia foi realizada, escutei alguém e logo corri.

_Você estava no meu quarto?

_ Não.

A mentira é como uma bala pronta a ser disparada. E é como dizem, na guerra você primeiro atira pra depois pensar. Mas eu voltei atrás.

_ Tá bom, eu entrei no seu quarto. Algum problema?

_Não, sem problemas.

Essa pessoa mentiu tão mal que foi até hilário. Estava estampado em seu rosto o sentimento de angústia e “quem esse moleque acha que é?” Percebi na hora que ela não gostou, mas eu não me importei muito. Talvez ela tenha considerado aquilo como invasão de privacidade.

Em meio de outras aventuras em quartos, essa também merece ser contada. O interessante é que eu já conhecia aquele quarto, a dona estava no banho, impaciente como sempre, fui procurar não sei o que. Em pé, no centro do caos organizacional, meus olhos foram atraídos de uma maneira diferente para aquela mesa. Caríssimos, quem procura acha e entre os discos de Chico e Elis eu notei um pequeno bloco de anotações, quase um livreto, com a capa preta, enfeitado por um adesivo que contém um valor sentimental enorme. Fechado pela força de um elástico, ali poderia ter qualquer coisa.

Juro que hesitei, mas saber do potencial que a dama é dona não me ajudou em nada. Óbvio que abri. O conteúdo me embriagou, fazendo com que eu perdesse noção do tempo. Quando penso que não, me dou conta da autora atrás de mim, com uma cara nada boa. Ela não se importou com as vestes e ali mesmo, só de toalha, me deu um esporro horrível, me expulsando do quarto. Tentei me defender, porém a porta bateu na minha cara, o que me fez calar. Foi lindo, pelo menos pra mim.

Teve outro dia, em outra casa, em outro quarto de outra pessoa. Foi diferente porque estava sobre efeitos do álcool e claro, dólar. O cara é vocalista numa banda, descolado e nerd ao mesmo tempo. Era minha primeira vez ali, vou descrever. Havia uma escrivaninha com alguns livros, um notebook e nas gavetas duas bolachas com algumas bugigangas. Na frente um rack, pela porta de vidro podia se ver uma garrafa de Jack Daniel’s e outra de Old Parr, mostrando que o álcool ali é bem-vindo. Na TV passava Simpsons (que nostalgia!) e por fim sua cama, desarrumada, devia estar assim desde manhã. Paredes brancas, com um guarda-roupa grande, de madeira, preenchendo-a.

Agora para e pensa: como seria um quarto de um assassino? Ou quiçá de um cantor? compositor? De um ator? De um professor? De um dentista? Um bibliotecário? Um museólogo? São personalidades distintas e extravasadas.

Já visitei muitos quartos, os de garotas são os melhores. Minha busca não para, pretendo conhecer zilhões de quartos diferentes, é como um ritual.

A questão é qual critério que você usa para deixar ou não alguém entrar no seu quarto? Espero um dia poder visitar o seu quarto e se já marquei presença me espere, eu voltarei.

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