Sobre ser aquilo que não se é

O espectro aquele que rondava o Beira-Rio em 2016 se materializou. A nuvem do escárnio veio - sem aparecer na previsão do tempo - e precipitou-se. Desde a vitória sobre o Galo mineiro em junho do ano passado, último lampejo de felicidade colorada, a tal da nuvem não deixa passar uma frestinha de luz solar, e sabe-se que a falta de vitamina D é uma possível causadora de depressão. Não bastasse, chove muito. Chovem fantasmas, caixões, vozes. Todas elas carimbadas com uma letrinha que nos machuca: B.

Ninguém hesitou em dizer que o colorado cumpriria seu ano de série B e voltaria ao natural. Os jornalistas entendidos do assunto ainda complementaram: vai voltar muito mais forte. Só que aqui é Inter. Na transição de um ano pra outro, lembrei: nunca um campeão da Libertadores caiu na semifinal do mundial de clubes, assim como nunca o campeão havia sido eliminado na fase de grupo da edição seguinte ao título. O colorado, dos feitos relevantes (para o bem e para o mal) foi pioneiro. É claro, já existiu clube grande que não subiu no ano seguinte à queda, mas a história recente, pelo menos dos anos 2000 pra cá, sugere que o Internacional passaria o trator, e não seria coisa de outro mundo se o Inter nos proporcionasse a façanha de não subir.

Colorado que achou que sobraríamos esqueceu para que time torce. Esqueceu dos tropeços que acumulamos eternamente na série A quando os adversários eram os advindos da série B. Foram incontáveis os empates/derrotas contra os ditos pequenos, geralmente em jogos às 18:30 num frio desgraçado soprado pelo Guaíba.

Derrota para o Ceará em 2014, que custou a eliminação da Copa do Brasil
Empate em 0x0, em casa, contra o Náutico.
No apagar das luzes do Brasileirão 2012, derrota em casa para a Lusa.

Se no ano passado, como escrevi em outro texto, o time do Internacional era protagonista do mito de Sísifo, rolando a pedra até o topo da montanha para ela cair e depois tentar subir de novo, o 2017 vem sendo de apenas uma anemia, incapaz de fazer força sobre uma pedra e que nem mesmo a literatura ou a mitologia pode salvar.

Passaram-se até então 9 rodadas, 27 pontos disputados. A guilhotina foi passada no Beira-Rio, direção trocada e muitas cabeças cortadas e exiladas daquele time de 2016. É claro, tem muita coisa pra acontecer e muito Brasil pra andar. E nessas andanças, precisamos assumir a nossa bronca e comprar a identidade: somos da Série B. Algum existencialista diria que a existência precede a essência. E a nossa essência, de primeira divisão, agora fica pra trás, pois precisamos existir na segunda. Cantávamos para os azuis, antes de termos a história manchada: “tua vida é jogar na série B!”. E essa agora é a nossa vida, nossa desconcertante vida. A chinela tem que cantar pra quem diz que o Inter não é time de série B. É sim, e tem que ser time de série B como nunca, pra não querer seguir nela.

Seguiremos jogando. Ou tentando começar a jogar. E tem que passar por cima de gramado que não é gramado, vestiário que não é vestiário, viagem que é eternidade. Tem que matar cachorro a grito, como faria o louco. Antes da estreia na série B, a televisão anunciou: “Não é o modo como você cai, é o modo como você se levanta”. Mil incensos pra ti, colorado, porque o nosso tombo foi grande e tá difícil levantar.