Quando o silêncio é maior que as pernas da muralha da China

Muriel Marinho
Nov 2 · 9 min read
Arte do pintor chinês He Jiaying

Todo silêncio tem perna, minha avó dizia nas raras vezes em que falava. Ele corre quando tá solto, cresce, fica maior, dá passadas que a gente nem vê. Logo logo domina um território, constrói coisas nele. Silêncio anda, caminha, que nem gente. Vó também dizia que não era possível viver sem silêncio. Eu nunca entendi o porquê. Quando eu era pequena amava falar muito, tagarelava com o rio, com os pássaros, com as pedras, com as paredes e com os vasos. Com gente nem tanto, mas ainda assim nunca ficava quieta. Minha avó muitas vezes ficava sentada na varanda, me observando em silêncio. E quando abria a boca, quase não dava para ouvir o que ela falava, mas na maioria das vezes era para me mandar ficar quieta.

Meu avô uma vez me disse que o silêncio engoliu a voz dela. Isso me deixou devastada, chorei por dias pela voz da minha avó que sumiu dela, e toda vez que ela falava eu celebrava. Eu gritava alto e mais alto, falava mais, enchia a boca de palavras para ver se estimulava ela a fazer o mesmo, mas logo o silêncio roubava a voz dela de novo e ela tornava a se calar. Quando fui crescendo, comecei a pensar que minha avó amava mais o silêncio que o meu avô, e isso me fez odiar ela. Eu não gostava de como ela se entregava fácil fácil pra ele. Meu avô sempre foi um homem gentil, de fala mansa, mas ainda falava. Dizia coisas lindas, meu avô. Meu sonho era falar como ele, mas eu sempre fui de fala tropeçada, aquela bagunçada mesmo que não se sabe onde começa e onde termina.

Uma vez tentei confrontar a minha avó, já era adolescente nessa época. Escutava rock pesado porque tinha muita voz e gritaria, não existe silêncio com rock pesado e o silêncio era meu inimigo; roubou minha avó do meu avô, a voz da minha avó e meu amor por ela. Disse muitas coisas nesse dia, mais do que costumava dizer; coisas horríveis. Ela, em compensação, dobrou seu silêncio, multiplicou e eu corri, saí de lá em lágrimas e nunca mais voltei. Todas as vezes que encontrava o meu avô e ele tentava me convencer a voltar lá, eu dizia que não, resignada e totalmente certa das minhas palavras. Minha habilidade em usá-las me levou longe, fui pra faculdade de Jornalismo, queria poder falar para o mundo, o quintal de casa já era pequeno quando eu era criança, agora já não me servia de mais nada.

Na faculdade conheci meu primeiro namorado, um homem galanteador, falava coisas sedutoras, e quando se calava ainda assim dava para ouvir sua voz ecoando nos quatro cantos do meu corpo; em cima, embaixo, fora e dentro. Namoramos por 4 anos, ele conheceu minha família, só não minha vó; temia que ele fosse menosprezado por ela, que as coisas sedutoras que ele falava virassem silêncio para ela e perdessem o sentido. Tudo que eu temia era perder o privilégio de ouvir aquela voz, não queria que ela fosse usada de qualquer maneira, mas também não queria que ela se calasse nunca. Até o dia em que descobri que ele usava suas palavras sedutoras com outra, uma garota mais jovem que eu e recém-chegada na universidade.

Foi quando experimentei meu primeiro silêncio. Perto de terminar a faculdade, eu não queria mais falar. Uma semana depois, e minha avó morreu. Eu entrei em desespero, não tinha experiência com silêncio e nem podia tentar aprender com quem tinha. Não sofri com a morte dela em si, não tinha dimensão ainda. Sofri pelas coisas que não ouvi dela e que provavelmente não mais ouviria. Descobri que o silêncio aumenta quando a morte chega. Terminando uma faculdade de comunicação em contato com o silêncio foi uma dor sem fim, eu não queria, não desejava. Tentei ao máximo me reconectar com a criança da fala em torrente, como o rio que tinha no quintal da minha avó que eu amava conversar e imitar. Eu passei meses no meu quarto, escutando roque alto para me recompor. Apesar da dor, logo me recompus, afinal eu ainda tinha uma plano: usar minha voz para o mundo. E uma parte desse plano envolvia não ser a minha avó, que se deixava seduzir pelo silêncio. Juntei meu ódio que tinha por ele e por ela, o respeito que tinha pelo meu avô que foi traído nisso tudo e me reergui.

Formei e virei uma jornalista de sucesso, âncora de um jornal de rede nacional, minha voz ecoava pelos quatro cantos do país; norte, sul, leste, oeste. Fui morar em cidade grande, meus pais me ligavam todos os dias e eu amava porque assim não precisava me calar nunca, chegava em casa e falava mais e mais e mais. Falar era minha vocação, meu dom, era tudo que eu mais amava. Esqueci minha avó e o seu silêncio, meu avô morreu pouco tempo depois que eu me formei, sofri um pouco com sua morte e só lembrei da minha avó nesse momento, pensando no quanto ela o fez sofrer trocando aquele homem gentil por um grande nada, imaginando quantas coisas meu avô deixou de ouvir e que mereciam ser ditas. Se eu pudesse teria enchido a vida do meu avô com mais e mais palavras, mas eu estava ocupada demais falando em outros lugares.

No caminhar da vida, conheci uma outra pessoa, uma mulher. O amor com ela me ensinou que eu poderia usar minha voz de outras maneiras que aquelas já antes vistas. Meus pais aceitaram bem o relacionamento, a gente se dava bem e éramos muito parecidas, a voz dela se encaixava perfeitamente na minha, completávamos as frases uma da outra e sempre tínhamos muitos comentários a fazer sobre tudo. Eu amava a forma como ela falava do mundo, das pessoas e de tudo que envolvia ambos. Ela era engajada politicamente, fazia manifestos, protestos. Eu assistia palestras dela falando sobre sua transição, sobre tudo que viveu, das violências, das tristezas e alegrias, falando sobre o mundo do jeito que ela mesma é: ampla e maior do que qualquer um poderia ter noção. Foi com ela que aprendi a me calar, só pelo desejo de ouvir mais dela, e experimentei novamente o silêncio.

Esse silêncio foi diferente, não me lembrava em nada a minha avó. Era bom, gostoso, fazia cócegas no pé da barriga e por vezes me aquecia e me deixava pronta para ela e para o mundo, pronta para devorar e ser devorada. Os silêncios da minha avó eram tão pesados que eu não conseguia nem pensar como seria para o meu avô viver isso tudo, eu não gostava nem de tentar imaginar. Eu pensei que poderia tentar entender mais a minha avó, mas não dava. Esse silêncio, o meu silêncio, não era nada como o dela, embora temia que um dia se tornasse. Mas eu controlava de perto e sempre que via o silêncio virando a curva para se tornar outra coisa, aquele que eu não gostava, eu usava todas as palavras que podia para convencer ele a andar pelo meu caminho. Apesar disso, as coisas foram ficando difíceis entre nós duas. Ela falava cada vez menos e isso me desesperava. Começou a ficar deprimida, suas amigas mais próximas sendo mortas, violentadas e ela temia viver em mundo em que fosse odiada por existir.

Eu tentei mostrar a ela que a amava mais que tudo, usava todos os recursos de voz só para eliminar a possibilidade daquele silêncio existir, tentava acalmá-la dizendo que iria protegê-la. Levei ela para passar férias na casa dos meus pais e ela ficou um pouco melhor. Fomos na casa dos meus avôs e também a apresentei meu rio amigo, foi quando vi o silêncio dela se afastando, mas a voz que voltou era outra. Era mais fraca, raquítica, voz de porcelana. Voltamos para a cidade grande e eu ainda não estava acostumada com aquela voz, queria a voz dela de volta, a voz de antes que me impressionava e me deslumbrava, que me aquecia. Ela começou a fazer terapia, e eu que falava muito comecei a falar em dobro na tentativa de que pudesse afastar a sombra do silêncio entre nós, que ameaçava comer aquela voz frágil. Eu me odiei por ter sido tão burra ao ponto de sequer deixar ele existir, de como não percebi que fui enganada e seduzida por ele. Me odiei como odiava minha avó.

Um dia cheguei em casa depois do trabalho e chamei seu nome como sempre fazia, mas só ouvi o silêncio. Isso doeu em mim. Busquei por ela em todos os cômodos, gritando seu nome. A encontrei jogada no chão do banheiro, um frasco de remédio vazio do lado. Eu me desesperei, gritei tanto que os vizinhos ouviram. Chamamos a ambulância, corremos na tentativa de socorrê-la, mas era tarde demais. Eu nunca mais a ouviria. Conheci o silêncio de uma forma que nunca esperava, conheci o silêncio de tal forma que até eu me calei. Entrei em um rio de dor diferente daquele que eu conhecia, era como se tudo que eu sabia, todas as palavras, elas não mais se encaixavam, não mais dançavam juntas, formavam frases e produziam respostas. O silêncio entrou em mim pela boca quando gritei e foi parar no coração. Entrei em um processo de luto que durou anos, logo me vi adoecida também, logo me vi minha avó, que só queria o silêncio e mais nada.

Depois de um tempo de dor decidi que queria ainda viver algo a mais, queria levar ela para outros lugares, levar sua voz que era a única coisa que ecoava em mim. Para mantê-la viva, decidi que também precisaria viver. Lembro de como ela falava que sempre queria conhecer o mundo, explorar mais lugares como ela explorava a si mesma. Nossa primeira viagem juntas tinha sido para a China, decidi que retornaria lá com ela em mim só para poder manter a chama acesa, poder ouvir e ver a paisagem através da sua voz. Quando cheguei lá, não ouvi sua voz, mas o silêncio ecoado pelo vento e ele dizia o nome da minha avó, Aurélia. Lá, no alto da muralha da China, descobri que o silêncio era a própria voz da minha avó, da mesma forma que o silêncio agora também era minha voz e também minha forma de dizer. Lá entendi como o silêncio dominava territórios e tornava ele mesmo um território de se fazer ser.

Corri uma vida fugindo do silêncio para encontrar com ele na muralha da China e descobrir que ele será sempre maior do que as pernas dela, maior do que a dor que conheci, maior do que toda voz que em mim gritava, só não maior do que meu amor. Há coisas ditas no silêncio que eu não conhecia e que se eu tivesse percebido antes, talvez teria entendido melhor a minha avó e não teria deixado ela morrer sem escutar mais da sua ausência de fala, mas de um excesso de vida de quem viveu mais de 90 anos, de quem não gritou com o rio, mas o assistiu passar todos os dias e que com ele fez outras trocas, trocas silenciosas, carregadas de segredos e desejos, trocas que meu avô talvez também conhecia e gostava. Há coisas ditas no silêncio que se soubesse antes nunca teria deixado meu amor partir, teria escutado os sinais que ela dizia sem me dizer.

Há coisas ditas no silêncio, e o silêncio precisa existir tal como em uma melodia; fruto dos silêncios que acontece entre as notas. Desse dia em diante, decidi que continuaria seguindo em frente, por ela, por mim e pelo silêncio. Decidi que falaria, mas falaria menos. Percebi que a vida era uma eterna produção de silêncio entre vários momentos de caos, entre várias palavras. Percebi que o silêncio poderia informar muitas coisas, a depender de quem o fala. Percebi que não deveria mais negar o silêncio, ele tem que estar solto, como dizia minha avó. Controlar silêncio é controlar onde a vida faz curva e vira outra e não olhar pra ele é perceber que depois da curva a vida pode nem mais existir. O silêncio está até nas gotas de sal do mar e dos olhos. Estes brotaram em mim e secaram com o vento chinês, e eu aprendi que o silêncio também é o mesmo em outras línguas, mas nunca é um só.

Muriel Marinho

Vivo no espaço entre citações, na construção de palavras e no descarte delas. Me refazendo cotidianamente

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