Praça de alimentação

O jovem sorve pelo canudo o milkshake de morango do Bob’s. O barulho que faz e, pior que isso, os fones no ouvido e o celular diante dos olhos o impedem de perceber o homem parado em sua frente, já um pouco contrariado, com uma bandeja na mão.

É fim de semana, a praça de alimentação está lotada. Restou ao homem dividir a mesa com um estranho. Sentou-se diante do jovem de moletom largo, óculos de aro grosso e fones de ouvido, que sequer esboçou contrariedade.

O celular do jovem descansa sobre a mesa. Pelo fone, conversa com alguém, enquanto, sem usar as mãos, se dobra sobre o milkshake.O homem se empenha diante de um prato de penne ao molho bolonhesa da Spoleto. Na tentativa de evitar que gotas do molho cheguem ao linho do blazer, ele também se dobra sobre a mesa. As vezes, em sincronismo, as cabeças de um e do outro quase se tocam.

O homem abre um livro enquanto brinca com o garfo. Não se envolve na leitura. É atrapalhado pelos comentários do jovem, a sua frente, na conversa ao celular. Do outro lado da linha, alguém teve um piripaque ou coisa assim. Uma ambulância, a visita de um padre, um casamento. Uma viagem a Budapeste… Ele se dá conta de que misturara o que ouvia da conversa alheia com o romance do livro.

O milkshake acabara e, com ele, a conversa ao telefone. O jovem levanta-se sem se despedir, deixando a montanha de papéis e o copo vazio sobre a mesa. O homem o acompanha com os olhos. Sem ter quem o guiar, o garfo resvala sobre o prato e… droga! O molho cai sobre o blazer.

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