imagem de um ensaio de “Anatomia do Fauno” | Hélio Beltrânio

Baseado em Arthur Rimbaud, “Anatomia do Fauno” reestreia na SP Escola de Teatro

Performance homoerótica tem direção de Marcelo Denny e Marcelo D’Avilla

No mês passado, em uma das últimas apresentações da primeira temporada de Anatomia do Fauno, cerca de 20 homens nus — gays em maioria — sujos e suados formavam uma fila para esperar sua vez no único chuveiro disponível. “O momento do banho é como se voltássemos à vida normal”, disse um atores aos diretores Marcelo Denny e Marcelo D’Avilla.

A sensação se dá porque, como diz o próprio Denny, os 100 minutos da performance são, de certa forma, um carnaval. “É uma fresta que se abre e todo mundo se transforma e tudo é possível. E, depois, ela se fecha.” Após algumas semanas de intervalo, a peça reestreia neste sábado (7/11), na SP Escola de Teatro, na praça Roosevelt.

Apesar de os atores voltarem à vida normal após o banho, eles não se distanciam totalmente dela durante a encenação. Anatomia surge da vontade de Denny de trabalhar com o homoerotismo. “Diria que 90% da classe teatral é gay e pouco se fala de como os gays se retratam no palco”, diz. “E quando se fala, é sempre o mimimi, o chororô, a Aids, a morte, a não aceitação. É uma estética Brokeback Mountain”, critica, referindo-se ao longa de Ang Lee (2005).

No enredo, o mitológico e hipersexualizado Fauno vive em uma mata. Após a devastação de seu habitat por um incêndio, ele se vê obrigado a migrar e vai parar no meio da avenida Paulista. “Rapidamente, o Fauno vai virando homem. Mais uma bicha em São Paulo”, diz Denny. A partir daí, desdobram-se seus relacionamentos com outros homens.

Foi o dramaturgo Alexandre Rabelo quem apresentou as referências do poeta francês Jean Nicolas Arthur Rimbaud (1854–1891) para que servissem como base da performance. Famoso pela obra Uma Temporada no Inferno e por seus ideais marginais e libertários, Rimbaud tinha a figura do Fauno quase que como um alter ego.

A relação com Uma Temporada aparece no primeiro ato da montagem, todo baseado na autocrítica. Para construí-lo, o elenco foi provocado por questões como “O que você é hoje na cidade de São Paulo?”, “Que tipo de relação já o deixou doente?” e “Que tipo de sexo o deixa doente depois?”. “Queríamos que tudo viesse deles”, diz Marcelo D’Avilla.

No segundo ato, a autocrítica fica em segundo plano e as personagens se entregam ao hedonismo de forma ritualística e despudorada. Daí a volta ao mundo real após o banho. “Aquilo que foi criticado é revivido”, diz Denny. “Eles voltam para a rua, volta o fascisminho interno. E talvez tudo volte com um pouco mais de crise, porque aquilo já foi indagado durante a peça.”

Monogamia e medo da solidão

A premissa de que a performance teria que refletir a própria vida dos atores acabou definindo fatores importantes do trabalho. Mesmo com um primeiro chamado para interessados em geral (homens, mulheres, gays ou não, atores ou não), o processo de criação teve cerca de 60 desistências. Segundo os diretores, os voluntários iam, aos poucos, entendendo do que se tratava Anatomia do Fauno e desistiam do projeto.

“Eu mantenho algo muito radical. Se a performance trabalha a partir da vivência do ator, de sua mitologia interna, como falar de algo que você não vive? Se tivesse um hétero no meio de 20 gays, quebraria. As pessoas entenderam e saíram.”, diz Denny.

D’Avilla destaca que muitos dos gays também acabaram desistindo. “Anatomia do Fauno mexe muito em feriadas próprias. Lidar com isso, mesmo para quem não tem a vivência, é complicado.”

Das inquietações vindas do elenco, duas foram mais recorrentes: as relações com a monogamia e o medo da solidão. Alguns dos atores abandonaram o projeto porque, no meio do caminho, começaram a namorar. “Eu sei que você gosta daquele tipo de cara, e ele está no elenco. Você não vai fazer essa peça!”, diz D’Avilla, reproduzindo um possível diálogo entre um ator e seu parceiro.

O medo da solidão apareceu nas perguntas que nortearam o processo de criação e gerou uma das cenas mais interessantes da performance, quando é explorada a relação do homem homossexual com os aplicativos para busca de relacionamentos. Neste momento, os atores interagem sozinhos com seus celulares e uma projeção mostra como a tecnologia banalizou o sexo.

Apesar do aumento da Aids, principalmente entre o público jovem, a síndrome não foi uma questão muito discutida pelos atores. “Os jovens falam muito em profilaxia”, afirma D’Avilla. “A ideia que eles têm é mais ou menos esta: toma um remédio e está tudo resolvido”, diz, destacando um pensamento displicente da geração.

Serviço
SP Escola de Teatro
Praça Roosevelt, 210, metrô República
Reestreia sábado (7/11)
Sáb., 23h; dom., 20h
R$ 40. 100 min., 18 anos. Até 20/12.