O Cristo que conquista as trevas

“Ora, chegavam-se a ele todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe pecadores, e come com eles.” (Lucas 15:1–2)

Jesus Cristo se assentava junto aos pecadores e republicanos de modo que para os legitimados e santíssimos homens ecoava-se como afrontoso, visto que, os outros, sempre que não eu, são não-legitimados.

Não entenderam, sequer compreenderam, que a pretensão do Verbo Encarnado era de resplandecer – sobremodo que a luz consumiria as trevas, sendo a luz jamais consumida pelas trevas. As trevas sequer contaminam a luz.

O contato com o Evangelho proporciona ao indivíduo em trevas uma faísca, ainda que mínima, de esperança – concedendo-lhe uma perspectiva de graça, de imerecido amor; pois se merecido fosse não teria sido agraciado pela luz mas sim sempre a contemplado como produto do próprio eu, da própria obra humana.

A fim explicativo gostaria de elucidar que ao me referir à luz como faísca diante das trevas não queria de modo nenhum valorizar as trevas em relação a luz, pelo contrário: é na escuridão, na insignificância humana, no náufrago do ser que a luz brilha ofuscantemente, deixando de ser mera expectativa de liberdade e passando a ser a genuína liberdade, consumindo todo abismo.

Em frente à escuridão Cristo é atratividade, e o é até mesmo para os incrédulos e céticos, que, ainda que não creiam na divindade de Cristo, o veem como alguém que devidamente conheceu e soube sobre a existência. A beleza rara e inigualável entre os homens. Sem qualquer possibilidade de comparação ou paralelos.

No Monte das Oliveiras o Cordeiro afirmou “Eu sou a luz do mundo; quem me segue de modo algum andará em trevas” (João 8:12) pois terá luz do viver.

O Pai da Sabedoria vai além, lecionando que a luz sabe para onde vai. Ela tem norte diante das trevas. É como uma bússola para o mundo caído e perdido – pois enquanto todos se veem sem rumo, o Cordeiro se coloca em frente como luz, guiando-nos nas trevas. É como uma lanterna num quarto escuro, linearizando-se diante da imensidão negra; pontilhando os caminhos a serem traçados.

É a sublime demonstração de que Jesus é o caminho. A luz define-se e delimita-se na escuridão, acordando os que dormem; despertando os que andam sem rumo enquanto resvalam-se. Diante do mundo depreciativo e de desvalorizações, só nos resta o Cordeiro imolado antes da fundação do mundo. Só nos resta olhar a Cristo e perscrutar ser, quiça, semelhante a Ele.

O caminho da salvação é a luz na escuridão do mundo-ser; da alma que angustia; do coração que se desespera; do aflito que se queixa.

Estamos onde estamos e chegamos onde chegamos porque a graça não se cessa e não se cessando não se cansa de revelar a Verdade ao coração caído.

O que esperavam d’Aquele que veio para o abatido, ferido, atacado e perseguido? Que Ele, distanciado, pregasse como quem não chora com os que choram? Ora, isto seria uma absurdidade para o Deus-Amor.

Paulo diz que a palavra é certa e. deve ser receptiva acerca de que “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores” (1 Timóteo 1:15) dos quais ele era o principal.

E Paulo pode compreender sua grande principalidade no pecado conforme procurava ser semelhante de Cristo; conforme caminhava nos ensinamentos de Cristo.

Qual tem sido o teu caminho? Ou melhor, quem tem sido o teu caminho?

Deus é amor. Ele ama, diferente dos hipócritas, que diuturnamente vivem, ao invés de amar, anunciando – e até mesmo amando anunciar – que amam. São jactantes. O amor que sentem não está no amar, mas no contar que amam – será que verdadeiramente amam? Pois a partir do momento em que é possível justificar coisas como bondade e amor, elas deixam de ser espontâneas, e deixando de ser, passam a ser matérias de interesses recíprocos, algo como: “Eu faço e tu fazes.”, “Farei, porque se assim fizer, terei retorno daquele para quem algo fiz”. Até mesmo na reciprocidade a bondade e o amor devem ser espontâneos. Como bem disse Lewis [1]:

“Todo poeta, musicista, pintor, se não for pela Graça, afasta-se por amor às coisas que conta, pelo amor de contá-las, até que, no Inferno Profundo, só consegue se interessar por Deus por causa do que fala sobre Ele. Isso porque o processo não pára no interesse pela pintura, você sabe. Descem cada vez mais baixo, ficam obcecados pela própria personalidade e, então, por mais nada exceto sua própria reputação.”

[1] C. S. Lewis. O grande abismo. Trad.: Ana Schäffer. Vida, 2009. p. 97.

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