"Talento" e "Dom" são invenções dos preguiçosos
Em vez de se lamentar por não ter um talento ou dom, que tal se dedicar pesado e aprender?
Hoje um cara me parou na rua e falou que acompanha asminhas coisas na internet, já foi no meu show e disse que eu tenho o dom da comédia.
Adorei o feedback. Mas eu não acredito nesse lance de “dom da comédia”. Na verdade, até me incomodo com isso.
Explico: dom é uma dádiva, um presente que você ganha de graça.
Até os meus 22 anos, eu nunca havia conseguido contar uma piada. Muito menos criar uma. Nunca fui o engraçado da família nem do colégio nem do prédio. Até os 22 anos, eu era o nerd que mexia com internet.
Até que em 2006 eu fui escolhido, junto com um colega, para ser orador da colação de grau da minha turma de Administração de Empresas. Não fui chamado por ser engraçado (porque eu não era). Fui chamado porque eu era um cara que me dava bem com todo mundo, organiza as festas, etc…
Quando fui pensar no texto do discurso, eu percebi que eu precisaria ser engraçado, afinal, todo discurso tem algumas piadas. Então comecei a pesquisar “por que as pessoas riem?”. Li alguns artigos sobre o assunto, assisti vídeos de alguns comediantes americanos, enfim, pesquisei um bocado.
Na época, minha maior descoberta foi que as pessoas riem da simples identificação pessoal. E quanto mais específica, melhor. Por isso que as piadas internas da turma são as mais eficazes. Não precisa nem criar um piada em si, basta citar fatos específicos que as pessoas se identifiquem e elas vão rir.
Passei dois meses trabalhando no discurso. Duas horas num dia, aí passava dois dias sem tocar, aí depois trabalhava mais algumas horas.. (na época eu nem sabia que eu estava usando uma ferramenta poderosa do processo criativo: a incubação/processamento inconsciente).
À medida que eu escrevia o discurso, mostrava para algumas pessoas, pedia feedback, ensaiava com algum amigo, testava algumas partes em conversas espontâneas do dia-a-dia, etc.
Bem… eu fiz o discurso e foi bem legal. A turma riu muito e até os familiares gostaram. Aos 23 anos (oito anos atrás), eu tive o meu primeiro contato com fazer humor.
Daí em diante, comecei a assistir compulsivamente comediantes americanos, ler livros sobre comédia, escrever, pedir feedback, testar, ensaiar e me expor num palco.
Dois anos depois, larguei a minha produtora de internet, e comecei a viver de humor. Nos primeiros três anos de carreira de humorista, eu filmava TODOS os meu shows para analisar o meu desempenho no palco e a reação da platéia sobre cada piada. Montava um gráfico do show para identificar o pontos de alta e de baixa. Comecei a organizar todas as minhas piadas num blog privado online, com divisão de assuntos e nota para cada piada.
Além de estudar comédia em si, comecei a estudar criatividade e aprendi técnicas, ferramentas e metodologia que ajudam a criar qualquer coisa (mas eu aplicava para humor).
Bem… depois de milhares de páginas de livros, centenas de vídeos de comediantes, centenas de shows analisados minuto-a-minuto, gráficos, sistemas, aplicação de técnicas, ferramentas e metodologias… eu acho foda ser taxada como um cara que tem o DOM da comédia.
Não acho que é DOM porque não foi algo que eu ganhei de presente.
Você pode estar pensando: “ah, mas nem todo mundo que se esforçar o mesmo vai ter o mesmo resultado”
Sim, concordo. Cada pessoa vai precisar de um nível de esforço diferente. Mas o que importa é que com algum nível de esforço toda pessoa normal pode adquirir um boa performance em qualquer tipo de habilidade. Não estou dizendo que vai ser o melhor nessa habilidade, mas que vai atingir um bom nível, capaz de sustentar uma carreira legal e rentável, como eu consigo hoje.
Moral da história: o maior dom é o hard work.
E você aí, encara uma dedicação pesada?