Tempestade em copo d'água

Vai. Vai nessa que o Oceano é pacífico. Ele é quase tão violento quanto as suas famosas ressacas. O que eu sei soa estranho. Quem passa o dia aos goles, se afogando em marola, deveria ser mais manso. Doce engano. Já viu uma onda quebrar na praia do nada? É isso o tempo todo. Dia, noite. Noite e dia. Aí você explana: ‘não é bem o que escuto das conchas’. Aquela calmaria? Tudo balela. Ele se faz de sereno quando fica arrependido. E adianta de quê? O estrago já foi feito. Pior ainda é aquele discurso sobre fazer bons marinheiros. Como se tomar um caldo fosse um mar de rosas. Não que o sujeito seja mau longe de mim dizer isso –, mas pense num temperamento. Todo esquentadinho. Um poço de rancor. Me pergunto de onde vem tanta mágoa. Do fundo? Já disseram que o problema é ela, a namorada. Que entra pelo céu, quase toda noite, produzida como ninguém. E produzida para quem? Para quem quiser ver. Aí já viu. O ciúmes bate, ele revida. E compra briga com o primeiro valente que der as velas. Ê, Oceano. Só tem tamanho. Contei da vez em que ele encascou com um bocado de bucaneiros? A bagunça dos desbocados não durou um minuto. Foi lá e tchibum. Frieza pura. Teve também aquela outra, em que ele levantou com o pé errado e saiu corrigindo tudo quanto era português. Deu até pena dos coitados: partiram de Angola em busca das Índias e foram todos depenados. Desse jeito não há âncora que aguente. Definitivamente, não é para quem só molha os pés. E pensar que ele é um amor com seus inquilinos. Parece até outro mesmo com os mais horripilantes. Você já viu um pepino-do-mar? Talvez seja alguma rixa com a gente. Algum mal-entendido levado para o pessoal. Se foi o petróleo que pegamos emprestado, faça-me o favor. Não tem o menor cabimento. Devolvemos tudo em plástico e com juros corrigidos. Ou vai ver é um trauma. O que, pensando agora, faria todo sentido. Já reparou como esse mesmo Oceano, que deixou corsário sem curso, pescador a ver navios e viúvas com as bochechas salgadas, também testemunhou o pior? Imagina. Um belo dia você está lá, tomando seu banho de sol, quando surgem milhares de escravos cruzando as suas costas. Daí, logo em seguida, enquanto você põe as barbas de molho, brotam lanchas, cruzeiros e iates de cabo a rabo. Como se nada tivesse acontecido. Acho que essa foi a última gota. De qualquer forma, nada justifica. O Oceano pode não ser um monstro como pintam, mas está bem grandinho para resolver as coisas no diálogo. Essa história de que água mole não fere precisa parar. Não quero chover no molhado, mas eu, se fosse você, não mergulhava agora, não. Faz sua digestão sem pressa, deixa ele esfriar a cabeça, até a maré baixar a bola. Se o que dizem é verdade, esse tal Oceano, já deixou até mar morto.

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