E agora?

O princípio do medo e do caos na mente humana é saber que o tempo não para, o Cosmos não dá espaço para a simples organização de um pensamento. Os instantes são curtos demais para serem gastos com a racionalidade. Seguimos depressa, então, em direção ao que os olhos alcançam: almejar algo parece dar sentido à vida. E como carecemos de sentido. Nossas decisões devem ser tomadas aqui e agora. Tudo flui enquanto somos oprimidos a achar resquícios de sossego na inconstância, na efemeridade, e isso, caros leitores, é agoniante.

No final das contas, é esta a única pergunta filosófica séria: “e agora?” Os méritos e o esforço que fizemos para estarmos vivos são conjugados no passado enquanto os planos moram no futuro, o que permeia o meio-tempo é um abismo entre o agir e a inércia. Pode-se desbravar o infinito idealizando o que já se foi ou o que está por vir, mas o presente é o único momento que acaba, de fato. E as coisas que têm um fim tendem a ser importantes, o problema é estarmos preocupados demais com a possibilidade do término pra notar o que resta logo após.

O que fazer em seguida: é isso o que sempre nos importa. Queremos as próximas doses, paixões e horas, apenas para vê-las passar. Lentamente vamos nos acostumando a isso. A Felicidade nos escapa frenética, a satisfação demanda cada vez mais enquanto queremos apostar corrida com o relógio. Nossos sentidos ignoram o fato de que perdemos quase sempre, então continuamos. A paciência que tanto nos é ausente consiste em saber gerenciar as eternidades pretéritas e futuras ao passo que tentamos encontrar calmaria na finitude. Irônico é termos que nos apressar pra isso.

Difícil é conhecer equilíbrio quando tanto a angústia quanto a alegria cegam, é não sentir a solidão quando todos estão encarcerados em si mesmos. A luz da tela do celular tornou-me profissional em esperar, embora inquieto. Embora não saiba pelo quê esperar. Talvez mais cinco minutos no Facebook façam surgir um “boa madrugada,” ou talvez esperanças tolas brotem para aqueles que se sentem muito confortáveis na pausa. E eu me sinto particularmente bem quando estou parado: expectativas e riscos diminuem consideravelmente.

Apesar disso, é interessante saber o que somos, o que resta depois dos diplomas, dos amores, dos fracassos, dos sucessos, das felicidades e das angústias. E antes também. Estar em paz consigo mesmo exige respeito às escolhas do “eu passado,” saber onde encaixar cada lembrança na gaveta e, essencialmente, dar trégua à saudade e ao arrependimento: são visitas frequentes demais para nos darmos ao trabalho de torná-los motivos de aborrecimento. O que vier à frente vai para o mesmo canto que as memórias, eventualmente, e isso vale nosso preparo.

E agora vamos em frente. Quando se vê, o ENEM passou, o namoro é outro, terminamos de ler aquele livro velho. Pra quem espera um sinal que possa finalmente pôr as coisas em seus lugares, aí vai um segredo: nada tem lugar, tampouco você. Além do mais, o número de probabilidades que isso traz é grande demais pra se lamentar ao Destino ou qualquer outra força.

E, pra ser sincero, tanto faz. Somos instantâneos demais pra nos importamos com qualquer coisa que seja. Ou pra não nos importamos. E a graça é justamente esta: o Cosmos não dá espaço para a simples organização de um pensamento, então vá em frente: decida ou não.

“Matamos o tempo, o tempo nos enterra.”
-Machado de Assis
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