A bagunça dos outros: Por que o Brasil se parece tanto com uma turma de 6º ano?

Estava aqui acompanhando as notícias sobre o ‘impítiman’ e lembrando de uma aula que dei para o 6ª ano. Eu acabara de distribuir as notas da prova, em boa parte desastrosas pelo fato de que no 6º ano as matérias se complicam muito em relação ao 5º ano, já que é mudança de segmento. A bagunça reinava. Pois bem. Após ficar parado em silêncio diante da turma durante 3~5 minutos, que é o tempo que leva para perceberem que estou incomodado, começo a falar sobre como a bagunça e zoeira são divertidas mas tem hora pra acontecer e que podem atrapalhar nos estudos, refletindo no resultado das provas, bem como no nosso próprio convívio social. Então tive a idéia e perguntei à turma:

_Quem aqui acha que a turma é bagunceira, levante a mão.

Sem surpresa alguma para mim, 32 de 34 pessoas levantaram a mão. Pedi para baixarem as mãos. Na sequência, perguntei:

_ Quem aqui se considera uma pessoa bagunceira, levante a mão.

Apenas 3 pessoas erguem a mão. Então, confrontei a turma com os dados obtidos: Como é que todo mundo considera a TURMA bagunceira, mas quase ninguém SE considera bagunceira(o)?

O silêncio e constrangimento que se seguiu durou alguns minutos foi completo. E naquele momento vi, naquele micro país composto por crianças de 12 anos, um reflexo da mentalidade de boa parte da nossa sociedade, com todo o seu machismo, homofobia, racismo, xenofobia e tantos outros defeitos que estão entranhados em nós, assim como a bagunça do sexto ano. Cada estudante é capaz de fazer bagunça e, disfarçadamente enquanto o professor não está olhando, joga uma bolinha de papel aqui, dá um assovio ali, senta um tapa na nuca do colega acolá. Outres, mais arrogantes, sobem na mesa, gritam, batem palmas. Querem mesmo é o espetáculo para mostrar o quão barra-pesada, descolados ou radicais são. Buscam aprovação ou admiração da turma.

Quando pegos em flagrante e chamados a atenção, todos são rápidos em apontar o dedo para o colega e negar seu próprio erro. “Não sou machista, eu não bato em mulher”. “Não sou homofóbico, tenho amigos gays”. “Não sou racista, meu namorado é negro”. “Não sou xenofóbica, minha avó é nordestina”. A bagunça sempre é do outro. Foi só uma bolinha de papel, desculpa. Um tapinha na nuca, de brincadeira. Um assovio, pra descontrair. Lugar de mulher é na cozinha, é só zoeira. Gay tem mais é que tomar no cu, olha que engraçada essa piada. Tinha que ser preto, calma, tô brincando. Baiano é tudo preguiçoso, que isso, você não tem senso de humor não?

Explico à turma que todas essas pequenas bagunças, teoricamente inocentes, criam o ambiente para que os mais exaltados façam a bagunça que tira o prumo da aula, que me obriga a dar advertência, tirar de sala etc. É a subida na mesa, derrubar cadeiras, o grito, a palma, as lâmpadas na cara, o estupro, os grupos de extermínio. Graças ao zumzumzum das pequenas bagunças, quem quer fazer grande sente apoio e endosso a dar aquele passo a mais, testar os limites, radicalizar. Ainda que saibam estar errados, esperam não serem pegos e se apanhados, negam, revoltam-se, esperneiam. Aos pequenos e grandes contraventores, busco aplicar a lei na forma e medida justas e adequadas.

Entretanto, há ainda uns poucos e raros que vão além disso tudo: quebram a sala, matam o professor e os colegas e ateiam fogo à escola, querem que tudo vá às favas e nenhum direito lhes importa além do seu próprio. São os Bolsonaros da vida. A estes não deveria haver espaço na turma, na escola, no país ou no mundo.