Código de barras humano

Humanos criam máquinas para serem controladas. Essas inteligências artificiais desenvolvem autonomia e se rebelam contra seus criadores.

Trata-se de um enredo básico para escritores de ficção científica. Philip K. Dick o utilizou à exaustão. Exemplo: “Segunda variedade” (que virou o filme Screamers), conto no qual homens guerreiam contra máquinas que imitam seres humanos.

Trabalhando na linha de produção (uma área cada vez mais automatizada, assim como a rotina de quem atua nela) duma grande empresa há quase dez anos, já vi muitas vezes o mesmo conceito de controle ser aplicado aos empregados que atuam na base da pirâmide. Embora nossos superiores neguem, fazendo discursos a favor da qualidade de vida e satisfação, querem pessoas robotizadas, que não fiquem doentes ou tenham opinião própria.

Sempre penso nessa situação, mas a última e inusitada invenção me trouxe até aqui: querem controlar, via sistema de código de barras, o tempo que se demora indo ao banheiro, buscando uma ferramenta, consultando um engenheiro. Time is money, oh yeah, e eu concordo. Mas a única cobrança deveria ser com relação a metas cumpridas e respeito às regras da empresa. Saindo disso, considero invasivo. Os encarregados confundem gestão de pessoas com ditadura, criando um ambiente de desconfiança e opressão. Exigem até que o modo de andar seja padronizado. Desconsideram o fator humano.

A principal diferença entre robôs e homo sapiens: os primeiros não têm bocas para alimentar. Não são obrigados por forças maiores a estar numa instituição conduzida por acionistas.

Sindicatos tomam partido em determinadas épocas do ano. Ameaçam greves, dizem negociar. Um jogo de compadres com o resultado já combinado.

O uniforme desumaniza. As vestimentas iguais tiram a identidade dos indivíduos, que são tratados como números, podendo ser subtraídos a qualquer momento. O motivo: substituídos por dispositivos robotizados que podem gerar lucro, rebelar-se contra seus donos, dominar a terra, extinguir a raça humana.

Tempos modernos. Procedimentos arcaicos.

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