eu posso crer no amanhã (we can face tomorrow)

Íntegra do discurso que fiz na sede da Organização das Nações Unidas, durante o evento “Ética da Reciprocidade: Líderes Religiosos LGBTI em Diálogo na ONU” (Text of the speech I made at the United Nations Headquarters, on the occasion of the event Ethics of Reciprocity: UN Dialogue of LGBTI Religious Leaders)

“Porque Ele vive, eu posso crer no amanhã.
Porque Ele vive, temor não há!”

Eu nunca tive a sensação de que Deus me condena. Sempre fui muito próximo dele, sei o quanto ele conhece o meu coração e a minha fé. Ele tem me comunicado muitas coisas na minha vida e no meu serviço ao Reino de Deus, e a minha sexualidade nunca foi um problema na minha relação com Ele. Pelo contrário: sinto que Deus tem sido constantemente presente na minha vida, nas minhas lutas, no meu relacionamento, na minha relação com a minha família, no meu ativismo. Vejo Deus como um amigo bom e generoso que está sempre ao meu lado. E por sinal, sinto Deus aqui hoje, em todas estas histórias que estamos escutando e compartilhando aqui.

Ocupar este espaço hoje, aqui nas Nações Unidas, tendo a oportunidades de contar a vocês a minha história, é uma coisa muito importante pra mim. Importante especialmente para que eu possa dizer, antes de qualquer coisa, que nós não podemos mais perpetuar a ideia de que é impossível que Deus se comunique com uma pessoa queer. Isso não é verdade. Não é verdade na minha própria experiência, e não é verdade na experiência de muitas outras pessoas queer com as quais Deus têm se comunicado diariamente, a despeito da vontade daqueles que dizem possuir o monopólio da sua Palavra e da sua Verdade. Nós representamos aqui, hoje, muitas destas pessoas LGBTI de fé, e, portanto, é realmente importante estar aqui com vocês, contando a minha história, e eu agradeço a Deus e vocês, que formam a minha família aqui hoje. Contudo, infelizmente, isso não é suficiente. Estar aqui também é importante porque é uma oportunidade para também contar tantas outras histórias de tantas outras pessoas LGBTI que têm sido violentamente discriminadas e às vezes das nossas Igrejas e das nossas famílias, enquanto continuamos acreditando que estamos apenas servindo a Deus ou defendendo os seus valores, sem fazer nenhum mal a ninguém.

Me engajei por pelo menos 8 anos como liderança em um movimento de jovens católicos no meu país, tendo sido coordenador arquidiocesano de pastoral por 3 anos, e não foram poucas as vezes em que vi alguns jovens se descobrindo gays ou lésbicas, ou bissexuais, ou transgêneros, e vivendo um processo de enorme sofrimento. Em função do meu ativismo público no Brasil, eu recebo diariamente um monte de e-mails de jovens de vários lugares, falando da sua fé e do profundo amor que eles têm por Deus, mas falando também dos conflitos que eles vivem, por ouvirem, nas nossas comunidades, que Deus os odeia, ou mesmo que Deus odeia “as suas práticas”. Nos grupos que formam a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, essa história se repete sempre: quase todos os nossos membros passaram pela experiência da discriminação ou do ódio em suas paróquias e comunidades. E eu nunca me esqueço de um certo domingo, alguns anos atrás, quando eu estava indo para a Igreja para participar da missa, e me deparei com uma mulher transgênera de pé, com as mãos erguidas, rezando… mas na calçada, do lado de fora da Igreja, como se ela não fosse digna o suficiente para entrar naquele templo, naquele lugar que nós geralmente dizemos que pertence a todo o povo amado de Deus.

O que está errado? Onde está esse Deus amoroso e presente que foi apresentado a mim, mas não a essas pessoas?

Meu país, o Brasil, tem uma das maiores populações cristãs do mundo, e ao mesmo tempo, também é o país com os maiores índices de assassinados de pessoas LGBTI, principalmente pessoas transgêneras. Nós temos um número considerável de deputados e líderes políticos que se afirmam cristãos, e nos últimos dois anos houve um aumento significativo no número de projetos de lei apresentados por esses deputados, todos eles tentando anular os poucos direitos que têm sido conquistados recentemente pela população LGBTI brasileira. Alguns querem proibir que pessoas transgêneras sejam reconhecidas pelos nomes que elas escolherem. Outros querem proibir o avanço de políticas anti-discriminação em escolas. Outros querem autorizar tratamentos de reversão da homossexualidade, abrindo caminho para movimentos que patologizam as nossas identidades. Outros querem restringir o conceito legal de família. E eles usam o argumento da “liberdade de expressão” para se posicionar contra qualquer forma de punição legal para crimes e discursos de ódio contra a nossa população, defendendo mais o seu “direito” de nos odiar, do que o nosso direito de viver, sendo respeitados enquanto seres humanos. Enquanto isso, também nos últimos dois anos, a violência contra pessoas LGBT aumentou. Em 2016, uma pessoa LGBT era morta a cada 28 horas no Brasil. Neste ano, uma pessoa LGBT vem sendo morta a cada dia. Enquanto eles caçam os direitos que nós temos conquistado, a nossa população vem se tornando mais e mais vulnerável, e eu não posso achar que isso é só uma coincidência. Como cristãos, nós precisamos começar a assumir a responsabilidade.

E quando pergunto onde está o Deus que eu conheci, isso não é só uma pergunta retórica, porque às vezes eu me pergunto que o Evangelho em que estes “cristãos” acreditam é o mesmo evangelho de Amor e Justiça que eu aprendi a ler com a minha família e com os meus irmãos e irmãs. Alguns deles dizem defender a “família natural e tradicional”, mas que família? A maior parte da população brasileira, mais da metade, vive em outros modelos de família atualmente. E se nós queremos falar sobre a Bíblia, eu deveria lembrar que nem mesmo a família de Jesus foi “tradicional” ou “natural”: era formada por uma mãe solteira e um pai adotivo, que se uniram mais pelos laços do amor do que pelos laços biológicos. Esses cristãos tratam a diversidade como uma ameaça, e então eu abro a minha Bíblia e tudo o que eu encontro nela é uma rica e bonita diversidade: tantas pessoas, tantas histórias… e uma mensagem de paz, de amor e de justiça.

É por não me conformar com toda essa realidade de ódio e violência, que eu venho tentando assumir, em toda a minha vida, o desafio de apresentar para outras pessoas LGBTI a face desse Deus amoroso e generoso que está presente na minha vida, se comunicando comigo. E para a minha surpresa e felicidade, eu vejo e sinto, todos os dias, que este meu povo está mais próximo desse Deus do que qualquer pessoa poderia imaginar a princípio. No trabalho com os grupos de católicos LGBT, tenho encontrado muitas pessoas como eu, pessoas que têm sido firmes e resilientes na sua relação com Deus, apesar de toda a violência e exclusão de que temos sido vítimas. Nós permanecemos resilientes por descobrirmos, em algum momento, que até pode não haver lugar para nós em nossas Igrejas; mas que há sempre lugar para nós no coração de Deus, que nos ama e nos acolhe.

E nessa experiência, às vezes nós entendemos a Deus de um jeito muito mais profundo do que aqueles que reduzem a mensagem d’Ele a uma meia dúzia de “valores morais”. Estou certo de que aqueles que nos veem simplesmente como pecadores só pensam assim por nunca terem nos conhecido de perto, e com abertura. E eu digo isso porque eu ouço todas essas histórias que nós estamos compartilhando aqui, e elas são tão bonitas e tão poderosas que eu apenas me pergunto como pode ser possível que alguém não veja Deus em nós.

Pra mim, esse é o desafio maior e mais importante. Não só reconhecer o que nós, cristãos, podemos fazer para enfrentar a desigualdade e a violência contra as pessoas LGBTI; mas também reconhecer o quanto as nossas comunidades têm a aprender conosco, se houver abertura para ouvir as histórias de amor, fé e resistência que nós temos a contar. Histórias que precisam ser ouvidas não só nas Igrejas, mas também nas escolas, em nossas casas, em nossas famílias, em nosso trabalho. Histórias que precisam ser contadas por pessoas LGBTI de todas as religiões, e também por aquelas que não possuem nenhuma fé. Histórias como essas que nós estamos contando aqui hoje. E muitas outras histórias que ainda precisam ser contadas até que o ódio acabe.

Histórias de violência, mas também de amor; de raiva e também de resiliência; de dor e de esperança. Ou, em termos mais cristãos, histórias de Paixão e histórias de Páscoa. Porque nós não aceitaremos viver apenas sob as dores da cruz, da violência e da morte, sem que nós tenhamos o direito de acreditar na esperança, na Ressurreição e na Vida também para nós. Citando os versos da música com que eu iniciei este pequeno discurso, uma música que é muito cantada em tempos de Páscoa, eu acredito que toda pessoa LGBT, seja ela religiosa ou não, pode e deve ter o direito de acreditar que é possível crer no amanhã, e que não há nada a Temer.

Meu nome é Murilo Araújo, eu sou membro da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, e eu espero que vocês, reunidos aqui nas Nações Unidas, se unam a nós na tarefa urgente e necessária de construir um mundo onde esse sonho seja possível.

Obrigada.


“Because He lives, I can face tomorrow;
Because He lives, all fear is gone.
Because I know He holds the future,
And life is worth the living, just because He lives”.

I never had the feeling that God condemns me. I have always been very close to Him, and I know He knows my heart and my faith. He has communicated many things to me in all my life, in all my service to His Kingdom, and my sexuality has never been a problem in my relationship with Him. On the contrary: I feel that God is constantly present in my life, in my fights, in my relationship with my boyfriend, in my relationship with my family, in my activism. I see God as a good and generous friend who is always by my side. And by the way, I feel God here today, in all these stories that we are sharing here.

Being here today, at the United Nations, having the opportunity to tell you my story, is a very important thing for me. It is important especially because I can say, from the very beginning, that we can no longer perpetuate the idea that it is impossible for a queer person to communicate with God or have a relationship with Him, without having to give up on who we are. This is not true. It is not true in my own experience, and it is not true in the experience of many other queer people with whom God communicates every day, despite the will of those who claim to have a monopoly on His Word and His Truth. We represent here today many of these LGBTI people of faith, and so it is important to be here with you, and for that I thank God and I thank you, my family here today. However, unfortunately, that is not enough. Being here is also important as an opportunity to mention the many other stories of so many other LGBTI persons who have been violently discriminated and sometimes banished from our Churches and our families, while we continue to believe that we are just serving God or defending His values, without doing any harm to anyone.

I engaged as a leader for about 8 years in a Catholic youth movement in my country, and for many times I saw some young people perceiving themselves as gay or lesbian, or bisexual, or transgender, and experiencing a process of great suffering. Because of my public activism in Brazil, I receive daily a lot of emails from young people from various places, talking about their faith and about the deep love they have for God, but also talking about the conflicts they live, for hearing in their communities that God hates them, that God hates “their practices”. In our groups at the Brazilian Network of LGBT Catholic Groups, this story is always repeated: almost all of our members have experienced discrimination and hatred in the theirs parishes and communities. And I never forget a certain Sunday, a few years ago, when I was going to Church for the Mass, and I came across a transgender woman standing with her hands raised, praying… but on the sidewalk, outside the Church, as if she were not worthy enough to enter that temple, that place that we use to say that belongs to all the beloved people of God.

What is wrong? Where is this loving and present God who was presented to me, but not to all these people?

My country, Brazil, has one of the largest Christian populations in the world, and at the same time, it is also the country with the highest rates of murders of LGBTI people, mainly transgender people. We have a considerable number of congressmen and political leaders who claim to be Christians, and in the last two years there has been a significant increase in the number of bills presented by these congressmen, all of them aiming to nullify rights that are being won by the LGBTI Brazilian population. Some of them want to prohibit trans people from being recognized by the names they choose. Others want to stop the advancement of anti-discrimination policies in schools. Others want to authorize treatments for “reversing” homosexuality, opening the way for movements that pathologize our identities. Others want to restrict the legal concept of family. They use the argument of freedom of speech to stand against any kind of legal punishment for hate crimes against our people, defending more their “right” to hate us than our right to live and be respected as human beings. Meanwhile, also in the last two years, violence against LGBT people has increased in Brazil. In 2016, an LGBTI person was killed every 28 hours in Brazil. This year, an LGBT person is being killed every day. As they hunt down the rights we have gained, our population becomes more and more vulnerable, and we can not think this is just a coincidence. As Christians, we need to take responsibility.

When I ask where are this God that I knew, it is not just a rhetorical question, because sometimes I wonder if the Gospel that this Christians believe is the same Gospel of Love and Justice that I have learned to read and listen with my family and friends. Some of them claim to defend the “traditional and natural family,” but what family? Most of the Brazilian population, more than a half, live in other family models today. And if we are to speak about the Bible, I should remember that not even the family of Jesus was a “traditional” or “natural” one: it was formed by a single mother and a adoptive father, who were united more by the bonds of the love than by the biological bonds. This Christians seems to see diversity as a threat, and then I open my Bible and everything I find in it is a rich and beautiful diversity: so many different people, so many different stories… and a message of peace, love and justice.

It was for not to be conforming to this reality of hate and violence that I had always tried to assume for my life the challenge of confronting the hate and presenting to other LGBTI people the face of this loving and generous God that’s present in my life, communicating with me. And to my surprise and happiness, I’m seeing and feeling, everyday, that my people are closer to this God than anyone could imagine. In working with groups of LGBT Catholics, I have been meeting a lot of other people like me, people who have been strong and resilient in their relationship with God, despite all the violence and exclusion we have been victims of. We remain resilient, because we have found, at some point, that there may be no place for us in our Churches; but that there is always place for us in the heart of God, who loves us and welcomes us. And in this experience, we sometimes understand the love of God in a much deeper way than those who reduce His message to a couple of moral values. I am sure that those who see us simply as sinners only think this way because they have never met us closely and openly. I say that because I hear all the stories that we are sharing here, and they are so powerful and beautiful that I just wonder how it can be even possible not to see God in us.

For me, that’s the biggest and the most important challenge. Not only recognize what we Christians can and need to do to face inequality and violence against LGBTI people; but also to recognize everything our communities can learn from us, if there is openess to hear the stories of love, faith and resilience that we have to tell. Stories that need to be listened not only in the churches but also in schools, in our homes, in our families, in our work. Stories that need to be told by LGBT people of all religions, and also by those who have no faith. Stories like the ones we’re telling here today. And many other stories that still need to be told until the hatred is over.

Stories about violence, but also about love; about anger and also about resilience; about slavery and about freedom; about pain and about hope. Or, in more Christian terms, stories about Passion, and stories about Easter. Because we will not accept living only under the pains of the cross, of violence and death, without having the right to believe in hope and Resurrection and Life for us too. Quoting the lyrics of the song with which I started this little speech, a song that is much sung at Easter time, I believe that every LGBTI person, whether religious or not, can and should have the right to believe that it is possible face tomorrow, that the life is worth living, that there’s nothing to fear.

My name is Murilo Araújo, I’m a member of the Brazilian Network of LGBT Catholic Groups, and I hope that you, here at the United Nations, join us in the urgent and necessary task of building the world where this dream will be possible.

Thank you.