A Escrita Como Forma de Opressão
“Por vezes, fico semanas, até meses sem escrever nada, e não por falta de tempo ou de conteúdo, mas por medo de julgamento que podem recair sobre meus textos, poemas e frases.”

“Vivemos em uma sociedade onde”. — Este sempre foi meu modo tradicional de começar um texto, muito pelo fato de saber qual estrutura textual consolidar após o “onde”, e por ter mais segurança do que irei escrever. Mas tenho evitado seu uso, principalmente depois que comecei a escrever textos com teor jornalísticos justamente porque, vivemos em uma sociedade onde, há um julgamento muito forte e preconceituoso baseado dentro do contexto da educação e do conhecimento ,(trazendo um movimento opressor de dentro da escola para a vida, e para o dia a dia.) Com um discurso de que, um grafite e um papel pode servir como “medidor inteligência” e é claro, definir quem são os melhores e os piores nisso tudo.
As primeiras noções de escrita como conhecemos hoje, começaram a surgir na Mesopotâmia onde, em placas de barro e outras formas rupestres a sociedade da época utilizavam este meio para registros econômicos, políticos, agropecuários, e outros fatores do dia a dia. Ela também passou por um período em que só as grandes famílias com poder na sociedade teriam meio a este recurso — a escrita, e a leitura, monopolizando esta linguagem e desde então criando uma estrutura classificatória. Hoje, após praticamente 6 mil anos, nossa sociedade convive com a escrita em seu dia dia, ela está disposta para todos- para alguns de uma forma precária e opressora, para outros de forma natural e fundamental. Reforço uma tese de que a sociedade atual não sabe mais viver sem este recurso, quando falamos de modo geral. Hoje em dia a escrita não está apenas presente diariamente na política; em registros econômicos; e na agropecuária, mas está também na placa de informações do transporte público; no pixe presente em uma avenida de teor político; na cozinha dando nome aos alimentos; e principalmente na internet — ferramenta diária para grande parte das pessoas. E é claro que quando a escrita se instaura em tantos meios como estes, ela se atrela de forma direta e indireta a outras questões da vida, sejam elas boas ou ruins, como por exemplo as classes sociais, e um esforço enorme de usar esses meios (como a escrita), para a classificação e a desvalorização de sociedades e comunidades, mais carentes e com menos poder financeiro — desigualdade estabelecida pelo sistema capitalista, que também é um medidor de quem merece ou não uma educação de qualidade.
Ok, sabemos que a escrita pode ser usada como forma de opressão e está atrelada às classes sociais, e o capitalismo. Mas o que tudo isso tem a ver comigo e com você?
Por vezes, as opressões que sofremos a nossa volta são tão grandes e tão brutais, que nos enfraquecem, e esquecemos quais são os meios e as ferramentas que podemos usar para combater isso. Quando falamos das diversidades não homogêneas, e sucateadas por uma sociedade padrão e hierárquica, falamos por exemplo, dos negros, das mulheres, dos LGBTs, dos deficientes, dos gordos, da população pobre — Somos nós que por muitas das vezes calados, e esquecidos precisamos achar formas de levantar voz e ser ouvidos, e uma fórmula mágica para a feitura desta é o uso da escrita. Como dito antes, sabemos que está no uso diário da sociedade hoje a internet juntamente com a escrita, e este é um dos únicos meios que de fato existe uma liberdade quase total que possibilita a criação de locais de fala, e que nos juntemos, que nos unamos para criar diálogos e discursos de resistências e de trocas de conhecimento e vivências.
Eu já me senti muito silenciade, e posso até afirmar que um dos porquês que fiquem um tempo sem escrever foi justamente o julgamento que me cerca na internet a partir de algum texto meu, ou algum assunto que foi dito. Mas mesmo assim, precisamos falar! Precisamos escrever, e foda-se se você não tem um Ensino Médio Completo como eu, se as pessoas a sociedade, lhe diz ser incapaz, se você não conhece boa parte das regras gramaticais, e se lhe falta vocabulário para o desenvolvimento de um texto. Precisamos falar! Falar dos nossos dias dias, da nossa vivência, dos nossos sofrimentos e conquistas e principalmente dizer ao mundo, e a sociedade que tenta nos calar que estamos aqui. Não podemos ter medo de “falar errado” ; “escrever errado” ou qualquer coisa do tipo. Muita das vezes EU fico com medo de falar de algum assunto errado, de expor minha visão, minhas verdades, e minhas colocações, mas temos que quebrar essa visão de que tudo é certo ou errado, essa ideia binária de que o mundo é feito de verdades que podem nos fazer bem ou mal. É preciso criar discursos e diálogos com pessoas capazes de entender que as verdades são mutáveis e que isso é essencial, para que possamos crescer como humanos, e explorar as nossas ideias em relação ao mundo. que a escrita não seja mais uma forma de opressão, que paremos de julgar o famoso “textão do face”, mas entender o que a pessoa quis compartilhar ali, mas que principalmente possamos ter empatia com o outro, e parar de ver o mundo, apenas com a nossa visão.
