Acervo em pauta: sobre digitalização, acesso e novos olhares sobre os objetos

Binóculos. Metal, couro, vidro. Sem local, sem data. Doação Eva Maria Augusta Boeckh Haesbish. Acervo Museu da Imigração de São Paulo. Segundo a doadora, este binóculo é da época da Primeira Guerra Mundial. Possui as seguintes inscrições: Standard 8 x 30.

O Museu da Imigração é uma instituição preocupada em disponibilizar seu acervo para a sociedade, por meio de diferentes formas que vão além da exposição física. Uma dessas formas é a digitalização e disponibilização de imagens e dados na web.

Estamos no terreno das iniciativas de abertura de acervos na web, que tem se tornado cada vez mais uma tendência entre as instituições culturais em tempos de remix, de retweet e de compartilhamento.

Mala em fibra vulcanizada, couro, metal, tecido, fio de nylon. Doação Eva Maria Augusta Boeckh Haebish. Acervo Museu da Imigração. A mala foi trazida pela doadora em 1955 e pertenceu a sua mãe, que também se chamava Eva Boeckh

A digitalização traz oportunidades e desafios interessantes para os museus. Nesse contexto, podemos entender digitalização como a representação de itens físicos ou analógicos por meio de imagens ou arquivos digitais. Um exemplo clássico é a digitalização de um objeto (que pode ser uma cadeira, uma escultura, roupa, brinquedo etc): ela ocorre com a produção de uma foto digital do mesmo, geralmente em alta resolução e tirada com padrões técnicos adequados de fotografia. No caso de objetos bidimensionais, como desenhos, gravuras e mesmo fotografias impressas, a digitalização ocorre com a produção cuidadosa de imagens feitas por equipamentos como scanners, preferencialmente também em alta resolução. Uma oportunidade imediata da digitalização é que a partir dessas imagens podemos observar detalhes das peças sem ter que manuseá-las muitas vezes, contribuindo para difundi-las junto ao público e, ao mesmo tempo, preservá-las.[1]

Detalhe de obi de quimono feminino. Tecido. Japão, sem s/data. Doação Adriana Ragusin. Acervo Museu da Imigração de São Paulo

Porém, na maioria dos casos, incluindo o do próprio Museu da Imigração, alguns passos precisam ser seguidos. O primeiro deles é justamente reconhecer o que está dentro do museu. Um passo importante para a digitalização e acesso amplificado na web é a previsão de uma infraestrutura tecnológica mínima para guardar os arquivos eletrônicos. Além disso, é válido sempre pensar na organização e gerenciamento de metadados dos mesmos, registrando quem foram os autores, as datas de produção etc. O levantamento de dados sobre as peças fotografadas também é essencial, pois as coleções digitais se tornam mais ricas ao possuir histórias associadas para apresentar ao público. Isso colabora para a prevenção de algum problema que possa ocorrer com os arquivos digitais (que também têm seus aspectos frágeis). É necessário, ainda, uma equipe mínima para produzir as imagens, registrá-las, armazená-las e coloca-las para upload em bancos de dados, redes sociais e sites diversos.

Outro desafio para instituições de memória interessadas em promover acesso ampliado e partir em uma jornada sem volta da disponibilização irrestrita de seu acervo na web é a verificação da situação jurídica dos itens. Os museus, assim como outras instituições de memória, devem sempre seguir a legislação local sobre direitos de autores (de pinturas, esculturas, fotografias e outros itens) e direitos de personalidade, pensando nas pessoas que foram registradas em fotografias, vídeos, filmes etc. E esse tipo de lei geralmente é bastante restritiva, protegendo o autor e as pessoas retratadas de usos que possam ser feitos de sua obra ou de sua imagem e voz.

Nesse caso, o museu só pode exibir e disponibilizar livremente aquilo que estiver em domínio público ou que possui autorização expressa do autor e, no caso de fotografias e registros audiovisuais de pessoas, dos que tiveram sua imagem e voz gravadas. E aqui surge talvez o principal problema dessa iniciativa: muitos museus possuem uma grande dificuldade em identificar quem são os autores das obras e quem são as pessoas fotografas ou filmadas. O mesmo vale para outro tipo de fotografia existentes: a que registra documentalmente as obras, mas que muitas vezes também não têm informação associadas a respeito dos fotógrafos. Aqui vale lembrar que a ausência dessas informações, que são cruciais, não são privilégios de algumas instituições isoladas e sim resultado de muitos fatores.

E eis que surge a pergunta: se existe a vontade de divulgar o acervo, mas há uma questão de infraestrutura, de equipe e impasses legais em jogo, como fazer sua digitalização e disponibilização ampla? Como fazer a promoção de um patrimônio que é publico, mas que possui obstáculos para ser livremente usufruído em diferentes canais de comunicação que vão além da exposição?

Detalhe de um dos lados de réplica de presa de elefante. Resina. África, século XX. Doador desconhecido. Acervo Museu da Imigração de São Paulo

Entre as possíveis respostas a essa pergunta, temos as propostas trazidas por iniciativas como o OpenGLAM. O OpenGLAM é uma iniciativa organizada pela Open Knowledge Foundation e financiada pela União Européia, que se preocupa em promover acesso aberto e livre ao patrimônio cultural digital preservado por Galerias, Bibliotecas, Arquivos e Museus (em inglês, Galleries, Libraries, Archives and Museums, de onde vem a sigla GLAM). Já ativa há alguns anos, a iniciativa procura estabelecer princípios básicos que toda e qualquer instituição que se enquadre no “espectro” GLAM pode seguir para se tornar uma “coleção aberta”.[2]

O que vemos aqui não é uma proposta que vai contra a legislação que protege autores e pessoas fotografadas ou filmadas, mas sim um conjunto de boas práticas que podem orientar equipes de museus e outras instituições de memória.

Pensando de outra forma, não se trata de ignorar todos os problemas de identificação de dados de peças do acervo que naturalmente vêm com a proposta de ‘abertura’. Trata-se, antes, de trabalhar com uma lógica que prioriza a disponibilização de recursos digitais sobre os quais a instituição possui controle sobre a criação e pode escolher como vai disponibilizá-los.

Usando um dito popular, trata-se de olhar a parte cheia do copo ao invés de focar os esforços apenas e exclusivamente na parte que não se sabe se está vazia.

Uma das principais questões que os casos já existentes de instituições “OpenGLAM” nos mostram é que vale a pena sim pensar grande, mas é importante começar pequeno, com a estratégia de “pequenos sucessos”, movimentando-se rapidamente– esse é o raciocínio básico por trás do sucesso de políticas abertas para instituições GLAM.[3] Recentemente, o Museu da Imigração tomou a decisão de aderir a essa proposta, aplicando-a aos resultados de um projeto da instituição chamado “Encontros com Acervo”.

O projeto nasceu para promover momentos de conversa entre a equipe do museu e membros de comunidades de migrantes e descendentes, antigos doadores e instituições parceiras. Essa ação tem por objetivo facilitar a redescoberta das peças durante as conversas, entendendo quais são seus significados possíveis. De lá para cá, três encontros foram realizados: o primeiro, com membros da comunidade lituana que moram na cidade de São Paulo; o segundo, com a equipe do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil e o último, realizado com um antigo doador do Museu da Imigração.

Sapatos masculinos. Couro, metal, borracha, algodão. Alemanha, 1949. Doação Eva Maria Augusta Boeckh Haesbish. Acervo Museu da Imigração de São Paulo. Par de sapatos usados por Horst Haebisch, marido da doadora e que, conforme seu relato, também foram comprados por ele para migrar para o Brasil.

Todos os encontros puderam ajudar a equipe do Museu a ver o que antes estava oculto em detalhes: escritos em outras línguas, histórias pessoais e de família e até mesmo aprender a forma correta de se dobrar um quimono ou a importância do âmbar para os lituanos. Ao trilhar o caminho das coisas, foi possível ter outras ideias além das que se tinha sobre algumas peças, o que só reforça a importância e a imperativo de continuidade do projeto “Encontros com Acervo”.

As informações retidas durante os encontros e as peças estudadas, bem como as fotos desses momentos de diálogo e dos bastidores do Museu da Imigração, se transformaram na exposição “O Caminho das Coisas”, que inaugura dia 21 de maio de 2016. Essa exposição tornou-se, ainda, uma base para a primeira experiência de licenciamento aberto Creative Commons dos conteúdos da instituição, que englobará o material preparados para a exposição, como imagens do acervo, folder, textos do blog e do Medium e material educativo. A escolha dessa exposição em particular se deu porque ela é representativa de um projeto interno que já possui, por si só, um perfil colaborativo forte, compatível com os propósitos do próprio movimento OpenGLAM.

A resolução de usar as licenças Creative Commons veio da constatação da equipe do Museu de que elas representam uma forma clara e objetiva de dizer ao público o que pode ser feito com o conteúdo relativo ao acervo a ser disponibilizado pela instituição na web.

Dessa forma, as imagens das peças já estão disponíveis nos perfis do Museu da Imigração no Pinterest e no Flickr e foram postadas também no Wikimedia Commons. A proposta é alimentar essas iniciativas, incentivando as pessoas a usarem as imagens para quaisquer usos que queiram, desde que citem os autores e o Museu e compartilhem suas criações nos mesmos termos. Isso significa que objetos como canecas, postais, capas de cadernos, camisetas e produções como apresentações acadêmicas, livros etc., podem agora usar esse material. E com certeza, isso vai colaborar para a divulgação do patrimônio cultural sobre migração que o museu preserva e a lançar novos olhares sobre a coleção.

mitação de âmbar, âmbar, fio de nylon. Lituânia, 1959. Doação Jenny Marcinkievicius Bumbles. Acervo Museu da Imigração de São Paulo. O âmbar é muito popular e importante entre os lituanos e seus descendentes. Ele pode ter várias cores e é muito usado na Lituânia na produção de joias e artesanato. Essa resina é também conhecida como “ouro da Lituânia”, e, por isso, é tida como a pedra nacional do país.

[1] A digitalização hoje já conta com outras estratégias que permitem, inclusive, uma exploração mais realista dos objetos, como a impressão 3D e a experiência proporcionada pelo uso de aplicativos de realidade ampliada. Mas esse assunto ainda é relativamente novo no universo dos museus brasileiros e não será discutido no presente texto.

[2] Projeto OpenGLAM

[3] Brincadeira com a matéria publicada no site do OpenGLAM “Think big, start small, move fast”, disponível neste link.

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