Do retalho à trama: costurando memórias migrantes

“Las arpilleras son como canciones que se pintan.” Violeta Parra*
Foto: Conrado Secassi

Colhendo os frutos de novos trabalhos realizados junto aos migrantes e refugiados, o Museu da Imigração apresenta a exposição “Do retalho à trama: costurando memórias migrantes”, cujo fio condutor é o encontro das produções de dois grupos de mulheres de diversas idades e origens, que utilizam uma mesma técnica de costura — a arpillera — para representar suas experiências de migração: o grupo de acolhidas da Casa de Passagem Terra Nova e o Coletivo “Mujer latina, tú eres parte, no te quedes aparte”.

O grupo da Casa de Passagem Terra Nova, instituição pública estadual localizada no centro de São Paulo, é constituído por mulheres solicitantes de refúgio que chegaram recentemente ao Brasil, vindas da Angola, Nepal, República Democrática do Congo e Síria, que bordam suas arpilleras em oficinas periódicas. Já o segundo grupo é formado por sul-americanas — migrantes da Argentina, Bolívia, Brasil e Chile — que produziram as arpilleras aqui expostas durante a programação da Semana dos Direitos Humanos no Museu da Imigração, no dia 6 de dezembro de 2015. Nesta exposição, apresentamos dezessete dessas arpilleras, agrupadas pela curadoria em quatro seções temáticas: “Percursos”, “Saberes”, “Laços” e “Lugares”.

Foto: Conrado Secassi

Nascida na Isla Negra, no Chile, a arpillera é uma técnica têxtil que utiliza um suporte de pano rústico — como sacos de farinha ou batata — e retalhos de tecido para compor bordados e contar histórias. Essa técnica ganhou amplitude principalmente a partir da sua apropriação por mulheres que buscavam denunciar as violências praticadas pela ditadura chilena na década de 1970.

Nas arpilleras, a costura — trabalho realizado principalmente no âmbito da vida doméstica e visto como uma atividade feminina — é utilizada como instrumento de protagonismo das mulheres, como forma de resistência e denúncia, sendo retomada nos mais diferentes contextos e lugares do mundo.

Essa produção ilustra de maneira privilegiada a transformação de uma atividade particular em um fazer coletivo, forte e poderoso. Juntas, as mulheres costuram e dialogam sobre suas vidas, representando suas memórias por meio de retalhos e outros materiais que possuem à mão.

Saindo do domínio privado, esses tecidos irrompem no museu, tornando-se públicos e expondo-se aos mais diferentes olhares. São pedaços de cenas cotidianas que se constituem como tramas de saberes populares, memórias e visualidades, nos quais podemos reconhecer a diversidade cultural dos países, as características geográficas das regiões, as lembranças, as saudades e os anseios de suas bordadeiras.

As arpilleras testemunham a força e a coragem de mulheres que migraram e a sensibilidade de seus bordados.


Foto: Conrado Secassi

A abertura da exposição no Museu da Imigração será amanhã, 13 de fevereiro (sábado), às 11h, com entrada ‪gratuita. A temporária permanece em cartaz até o dia 15 de maio de 2016.


O material educativo da exposição será disponibilizado no site do Museu e haverá uma atividade aos finais de semana para público espontâneo:

Histórias de pano

Sábados e Domingos, às 15h — Hospedaria em Movimento

A partir de 6 anos.

Os participantes serão convidados a contar histórias utilizando retalhos.


*Parra, Isabel. El libro mayor de Violeta Parra. Un relato biografico y testimonial. Madrid: Ediciones Michay S.A., 1985.