Hospedaria de histórias: entre bagagens e pertences

Chegada de imigrantes na Hospedaria de Imigrantes via estação ferroviária. [Foto: Acervo do Museu da Imigração]

O que os (i)migrantes traziam em suas bagagens ao cruzar fronteiras em busca de novos destinos e de novas vidas? Quando questionados, os funcionários e educadores do Museu percorrem uma via subjetiva para responder a essa questão. Fala-se em bagagem cultural: gastronomia, crenças, novo vocabulário, modos de se vestir, contribuição laboral etc. Mas o que essas pessoas traziam em suas malas, concretamente, ainda é uma questão que muitas vezes fica sem resposta e exige um esforço interpretativo que envolve diversas esferas de trabalho dentro do Museu; para chegar a alguma conclusão precisamos, ao menos, de conhecimento histórico, da documentação arquivística do Museu e do olhar atento aos objetos.

Fazer a mala é um processo que invariavelmente envolve escolhas. Estas são realizadas a partir das informações que se possui sobre o destino, sobre tempo de viagem, o clima etc. Podemos imaginar que os dados que os (i)migrantes tinham do Brasil ou de São Paulo eram incipientes — frequentemente não se tinha informação alguma. Conta-se, por exemplo, que muitos pulavam a janela do trem enquanto subiam a Serra do Mar, no caminho de Santos a São Paulo, para voltarem ao porto de Santos: ficavam assustados com a magnitude de nossa floresta.

O que um camponês da região do Vêneto, de Trás-os-Montes ou da Andaluzia trazia na mala? O que restava, a um refugiado da Primeira ou da Segunda Guerra Mundial, trazer ao Brasil? O que havia nas sacolas e bagagens dos migrantes nordestinos, que passavam dias em meio ao trepidar típico do pau-de-arara?

Convidamos a todos a inferir conosco e buscar compreender que o que se escolhe levar implica também em deixar para trás uma série de objetos e memórias — é um processo de preservar as antigas lembranças, mas também de construir novas.

Armazém de bagagens da Hospedaria. [Foto: Acervo do Museu da Imigração]

Os objetos utilizados no transporte dos bens pessoais não eram apenas malas. Os passageiros traziam consigo baús, canastras, sacos, fardos, trouxas, sacolas amarradas. Alguns trouxeram cadeiras, camas e mesas. Mas a grande maioria das bagagens continha roupas, sacos de viagem, instrumentos de serviço profissionais ou de uso diário, catres, louças, oratórios e até espingardas de caça.

Durante o período de funcionamento da Hospedaria de Imigrantes do Brás, tais volumes eram enviados pela Alfândega de Santos para serem inspecionadas por um funcionário da Alfândega Federal. O processo de inspeção sanitária e desinfecção das bagagens era frequentemente mais demorado que o tempo de permanência dos (i)migrantes na Hospedaria, ou seja, essas pessoas muitas vezes embarcavam para o interior antes mesmo de seus pertences. Muitas bagagens, sem informações ou com dados incorretos eram extraviadas e ficavam no edifício da Hospedaria; com a dificuldade de comunicação e de deslocamento naquele período, muitos desses volumes iam a leilão, passando-se anos sem que os donos aparecerem reclamando seus pertences.

Hoje o Museu da Imigração possui em seu acervo pouco mais de sessenta itens desse tipo, incluindo malas, baús, maletas etc. Muitos de nossos objetos, das mais diversas categorias, também são fruto de doação de imigrantes — fragmentos dessas memórias que cruzaram fronteiras e que tiveram diferentes destinos, sendo atualmente, parte de uma coleção museológica que não se cansa que tentar dar luz a essas histórias.

Imigrantes japoneses do lado externo do Armazém. [Foto: Acervo do Museu da Imigração]

Referência:

PAIVA, Odair da Cruz. Hospedaria de Imigrantes de São Paulo/Odair da Cruz Paiva, Soraya Moura. São Paulo, 2008, p.38