Peça a peça: conhecendo a exposição de longa duração do Museu da Imigração

Uma chaleira

Foto: Conrado Secassi

Com o intuito de compreender melhor a relação entre objetos e sociedade dentro do espaço museológico, o núcleo de pesquisa do Museu da Imigração vem se debruçando com mais atenção sobre o acervo exposto atualmente em nossa exposição de longa duração. Essa tarefa, um tanto dura e enigmática, pode, entretanto, se desdobrar em curiosas informações sobre essas peças, aproximando-as ainda mais de nossa afeição e conhecimento.

Dura é, também, essa chaleira de ferro. Esse adjetivo pode ser atribuído tanto à sua composição física, pela característica própria do material em que é constituída, quanto ao ponto de vista interpretativo, já que possuímos pouquíssimas informações sobre ela. Essa dureza, no entanto, nos revela prontamente uma importante questão acerca desse objeto: sua durabilidade. Podemos afirmar, com alguma certeza, que muitas outras chaleiras constituídas de outros materiais podem ter se perdido no tempo e no espaço, enquanto nossa peça permanece. Além disso, o que mais podemos extrair desse olhar? O que nos diz a sua rusticidade, sua crueza? Um olhar superficial poderia considerar esses atributos pouco atraentes, mas esta seria uma interpretação demasiada simples, pois, na verdade, eles nos revelam que, muito provavelmente, seu uso se dava no espaço privado doméstico, ou seja, no espaço de produção do alimento, e não era voltado ao serviço de mesa ou a exibição pública. De fato, a oxidação do material em seu interior revela que essa chaleira fora usada frequentemente, tendo passado por diversas mãos, esquentado a água para as mais diversas preparações. Sua rusticidade e simplicidade não implica uma desvalorização; tudo depende da perspectiva que tomamos: com sua dureza, sua robustez e sua durabilidade, pode ter sido muito mais usada, dentro de uma casa ou cozinha, por exemplo, que as mais delicadas e bem decoradas porcelanas.

Foto: Conrado Secassi

Como não sabemos a data exata dessa peça, podemos inferir que, por seu aspecto industrializado, tenha sido produzida a partir da segunda metade do século XIX. Uma das poucas informações que temos sobre o objeto é sua marca: MARTINS FERREIRA, que corrobora com nossa inferência, já que esta era uma metalúrgica que funcionou na região da Lapa, em São Paulo, e que produzia desde banheiras esmaltadas até capacetes para a revolução de 32. Ou seja, essa peça é testemunho, ainda, da ampla produção e difusão de objetos fabricados em ferro, aço e outros metais devido à consolidação das metalúrgicas no cenário industrial brasileiro. Sua estética tipicamente fabril é norteada pelas noções de funcionalidade, economia, eficiência e utilidade — expressa, por exemplo, pela ausência de ornatos.[1] É possível que essa chaleira tenha pertencido, por sua vez, à algum departamento que funcionou neste edifício, ou à própria antiga Hospedaria de Imigrantes. Porém, não possuímos nenhum registro que afirme esse pertencimento.

Além do aspecto funcional desse tipo de objeto de uso doméstico, devemos ainda nos atentar ao seu caráter simbólico, ou seja, tentar compreender como essas peças se relacionam com o universo social e com o imaginário de um determinado contexto. O caso dessa chaleira de ferro que, como vimos, deveria ser utilizada no espaço privado da cozinha, revela, por exemplo, um comportamento inerente à sua utilização, ou seja, uma relação com a hierarquia e a distinção social. Ou seja, ao observar as características desse objeto, podemos supor que é mais provável que empregados que trabalhavam na cozinha ou pessoas com menor poder aquisitivo tenham feito uso direto dessa peça, do que membros de uma elite que raramente circulava pelo espaço da cozinha. Nas palavras do sociólogo Pierre Bourdieu, por meio dos objetos

“os sujeitos sociais se exprimem e ao mesmo tempo constituem para si mesmos e para os outros sua posição na estrutura social”.[2]

A configuração da cozinha no espaço físico de uma casa ou de uma instituição é ainda testemunho da rotina do local e da interação entre seus ocupantes. Nela são encenados diversos papeis sociais que correspondem, por sua vez, às diversas divisões da sociedade, como gênero, idade, posição social etc. Em contraposição à sala de jantar, torna-se um ambiente geralmente feminino e laboral, que possui suas próprias formas de sociabilidade. Assim, os significados de uma cultura vistos através dos objetos não lhe são necessariamente inerentes; além das marcas do tempo e do uso e as características visuais que procuramos extrair das peças, esses signos também devem ser interpretados e buscados nas relações que as envolvem e no contexto em que estiveram inseridas.

Foto: Conrado Secassi

[1] Sobre esse tema, cf: Telma de Barros Correia. “Ornato e despojamento no mundo fabril”. Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Sér. v.19. n.1. p. 11–79 jan.- jun. 2011.

[2] Pierre Bourdieu. A economia das trocas simbólicas, p.14, Apud Tania Andrade Lima. “Pratos e mais pratos: louças domésticas, divisões culturais e limites sociais no Rio de Janeiro, século XIX”. Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Ser. v.3 p.129–191 jan.-dez. 1995.

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