O poeta interino

Camões lendo os Lusíadas a D. Sebastião | António Ramalho, (Lisboa?, entre 1893 e 1916)

Caí no erro de ler um comentário ao acaso, de uma mulher de bem, da tradicional família interiorana, que diz o seguinte: depois de anos “ouvindo a Dilma relinchar” — embora não saiba dizer se o Temer é bom — ele pelo menos tem “o dom da oratória”.

Tanta coisa nessa fala. Dom. Relinchar. Oratória. Não saber. Uma boa síntese do estágio alucinatório que estamos passando.

Há uma relação direta entre os admiradores das “pérolas do ENEM”, caçadores alucinados de crases fora do lugar em títulos de jornais, e os sujeitos que responderam pesquisa recente sobre hábitos de leitura. Com base nas respostas dos entrevistados, a principal causa dos índices desastrosos seria, veja só, falta de “paciência” pra ler. Isso precisa ser estudado. Ao que parece, nos dois casos, é tudo questão de ansiedade, de coito apressado.

Mas o poeta interino Michel Temer, ao arranjar as frases “em língua de Camões, com períodos formados de trás para diante” — como diria Paulo Honório — tem colocado o país no eixo, deixado todo mundo mais tranquilo. Desconhecia esse efeito pacificador da mesóclise. O nome parece mesmo calmante e, ao que tudo indica, tem funcionado.

Ainda bem.

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