Morte na tela: o dilema que os telejornais enfrentam ao exibir óbitos na TV

Falar sobre algo tão pragmático como a morte, pode parecer um tanto quanto desafiador, e ao mesmo tempo macabro. No entanto, o texto a seguir tem como principal função a de criticar e apontar de que maneira alguns dos grandes veículos de comunicação nacionais e internacionais abordam a morte em seus telejornais.

Apurar acidentes de trânsito, chacinas e assassinatos em geral, fazem parte da rotina de uma redação em qualquer jornal do mundo, é inevitável. Entretanto, após os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York, e da proliferação do extremismo religioso em países do Oriente Médio, o mundo viu-se frente à uma nova onda de terror, com o surgimento do Estado Islâmico. O terrorismo passou a vigorar com cada vez mais seguidores, e tornou-se uma pauta recorrente para os jornalistas.

Com a facilidade de capturar imagens através de dispositivos móveis e compartilhá-los em redes sociais, nos últimos anos, países como Estados Unidos, Bélgica, França, Alemanha e Inglaterra, tornaram-se alvos fáceis dos terroristas, que vêem seus atos publicados em TVs e jornais do mundo inteiro. E como noticiar isso para o grande público? A TV ocupa um lugar especial nas residências e faz parte do cotidiano das pessoas, agora, é preciso necessariamente assistir o sangue escorrer da tela? Hoje em dia, especialmente em telejornais, a morte e a violência parecem ter seu lugar garantido nas manchetes. Esses assuntos ganham cada vez mais destaque também na cena midiática, e estão presentes em filmes, telenovelas, seriados e jogos eletrônicos.

Embora não faça parte específica do código de ética dos jornalistas, a morte exibida na tela gera constantes debates, e põe em dúvida a ética da profissão em determinadas ocasiões. Segundo o Art. 3° do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros: “A informação divulgada pelos meios de comunicação pública se pautará pela real ocorrência dos fatos e terá por finalidade o interesse social e coletivo”. Em casos como o atentado em Nice, em 14 de julho de 2016 — reivindicado pelo Estado Islâmico dois dias depois — quando um motorista deliberadamente atropelou e matou 85 pessoas com um caminhão durante a celebração do Dia da Bastilha, jornais do mundo todo mostraram uma das cenas mais aterrorizantes do atentado, um rapaz sendo amassado pelo caminhão enquanto caminhava pela Promenade des Anglais. Como se não fosse o suficiente, a matéria dava continuidade com o som horripilante do veículo passando por cima das pessoas, como se fossem sacos de batata no asfalto ensopado de sangue. Sabemos da magnitude do atentado de proporções até então nunca antes vistas, e que — volto a falar do Código de Ética da profissão — é preciso noticiar a “real ocorrência dos fatos”. Mas, a notícia foi dada, haviam outras imagens suficientes para cobrir a matéria e serem exibidas nos telejornais e com isso vem o questionamento. Era preciso mostrar justamente a mais chocante de todas? Em uma rápida pesquisa nos sites de grandes veículos de comunicação como Rede Globo, BBC, CNN e Ruptly, para citar alguns, todos mostraram a cena em vídeo, filmada por um transeunte no dia do atentado.

Ainda na França, voltamos atrás mais um ano, mais precisamente no 7 de janeiro de 2015, quando o jornal satírico francês Charlie Hebdo também foi alvo de terroristas. Na ocasião, não bastasse noticiar a trágica manhã de quarta-feira em Paris e Saint-Denis, telejornais fizeram questão de mostrar a execução a sangue-frio do corajoso policial muçulmano Ahmed Merabet, morto na rua ao enfrentar os terroristas. O debate, sobre o destaque dado a morte em telejornais, é seguidamente material de estudos acadêmicos. Michele Negrini, da UFPEL, observou que:

“O exacerbado destaque dado à finitude humana nos telejornais dá respaldo para discussões acerca da sua espetacularização. A espetacularização é uma forma de repassar aos telespectadores as ilusões de que estão acompanhando o fato jornalístico em sua essência.

Casos semelhantes aconteceram recentemente em Londres, e novamente, telejornais não pouparam seus telespectadores de imagens como as de Nice e Paris. Carros e vans atropelando pessoas, terroristas sendo assassinados, tiroteios a esmo, e por aí vai, a lista é longa. Às vezes, a violência é tanta que a tela já está manchada de sangue antes mesmo de John Rambo colocar a faixa vermelha na cabeça e disparar seus projéteis na Tela-Quente logo em seguida.

A violência e transmissão da mesma, está tão banalizada que nem mesmo autores de filmes do velho-Oeste eram capazes de um dia imaginar tanta crueldade em tempos modernos. Em abril deste ano, um homem identificado como Steve Stephens matou um homem e transmitiu ao vivo o crime. No vídeo, Stephens aparece abordando um idoso em uma rua de Cleveland, nos Estados Unidos, e logo em seguida aparece atirando e matando sua vítima, tudo isso acompanhado ao vivo por centenas de pessoas em uma transmissão ao vivo pelo Facebook.

Teorias sugerem que a violência é um produto da cultura humana, está incrustada na sociedade desde a antiguidade. Ainda segundo Michele Negrini “mesmo os que dizem não gostar de violência acabam sendo atraídos por contemplá-la nos meios de comunicação e acabam se interessando por notícias com este conteúdo”. E como ir contra algo que já faz parte da natureza humana? O interesse não está por trás apenas dos “fazedores” de notícia, e sim de quem as consome. Afinal, a culpa é de quem?

Essa é uma longa e indispensável discussão, que não se encerra aqui e merece futuras reflexões sobre o tema. Já aguardando as cenas dos próximos capítulos, concluo o texto ao acabar ler mais uma dramática notícia da qual já estamos habituados: BREAKING NEWS — Explosion at Brussels central station…