TV e sociedade
Como as novelas podem mudar as leis
Aquilo que consideramos óbvio ao analisar a relação entre a sociedade civil brasileira e as telenovelas é na verdade dado: na América Latina as telenovelas são as campeãs de audiência e exercem um papel fundamental na construção da identidade cultural do povo. Com isso, é muito clara a importância desse tipo de produto no que diz respeito aos temas discutidos na sociedade civil e a capacidade de influenciar em mudanças sociais. É claro que as novelas não são as responsáveis por essas mudanças sociais, mas são elas que introduzem com mais veemência certos temas já existentes, mas pouco discutidos de forma mais ampla, e aí há um exemplo perfeito: “Mulheres Apaixonadas”.
Essa é uma novela interessante de se analisar porque existem vários núcleos, com temáticas várias, que foram sendo desenvolvidos ao longo da trama, e alguns deles “pegaram”: a repercussão das telenovelas nos demais produtos da mídia acabou fazendo com que o tema da violência doméstica, por exemplo, fosse levado a um debate sério e complexo, que gerou frutos anos depois.
A primeira exibição de “Mulheres Apaixonadas” foi em 2003, quando as leis brasileiras com relação a violência doméstica eram brandas e o tema não era amplamente discutido, apesar de ser, na época e atualmente, uma questão grave e que atinge um grande número de mulheres. A personagem de Raquel, que sofria violência física e psicológica por parte de seu ex-marido, fez com que o tema entrasse em discussão, e o alto nível de empatia criado entre o público e a personagem só contribuiu para que esse debate fosse mais frequente, e com o tempo, mais sério. Resultado desse estímulo ao debate, e consequentemente o desenvolvimento de argumentos e medidas, e claro, contando com a participação da luta feminista que já estava afiada ao debate há décadas, em 2006 a “Lei Maria da Penha” entrou em vigor. Esse é um exemplo de como a telenovela é capaz de influenciar a sociedade civil de forma direta, na América Latina, e como, portanto, ela pode ser usada a favor de um progresso cultural e social: questão essa que precisa ser levada mais a sério, colocando em cheque também os formatos que temos de telenovelas, seus produtos, públicos-alvo e tramas.